{ Sobre quando eu fui mãe }

Minha filha tem um ano e oito meses. Quando ela nasceu, eu me perguntava cotidiana e insistentemente onde eu estava com a cabeça pra decidir ter um filho. Ela chorava. Chorava muito. Eu perdi muito sangue no parto e estava com uma anemia bem severa, então tudo o que eu queria era dormir. Eu não queria amamentar, não queria acarinhar, não queria segurar no colo. Eu queria dormir e ela chorava.

Isso durou umas duas semanas. A pediatra dizia que “é assim mesmo, criança chora”. Só depois eu descobri que meu leite levou 15 dias pra descer – e é por isso que a pequenininha chorava tanto. Eu chorava também. Chorava muito.

Depois vieram as cólicas e ela abria o berreiro durante umas três ou quatro horas seguidas, todos os dias, durante três ou quatro meses. Eu fazia de tudo: colo, massagem, chá de erva doce, bolsa de água quente. Nada adiantava. E então a gente chorava.

As pessoas me perguntavam sobre a vida de mãe e eu queria responder “é uma cilada, Bino”, mas me censurava. Que tipo de mãe eu seria, afinal de contas? Ainda assim, se você entrasse no meu perfil do Facebook, veria o que eu sou: uma mãe. Muitas fotos da filha, poucas fotos minhas.

Eu estava acima do peso, com olheiras, muitas olheiras. A roupa sempre larga, sempre cheirando a leite azedo, usando cinta pós-parto e calçolas imensas, tendo que lidar com um curativo e uma cicatriz numa parte do corpo que eu nem sequer conseguia enxergar. Celulite, as varizes nas pernas e as manchas no rosto por causa da gravidez. O cabelo que caiu. Eu era uma mãe.

Eu não era feliz. Todos os dias, o marido me dizia que a pequenininha devia ir pra creche, que eu devia ter tempo pra mim. Eu briguei. Imagine, ela tem uma mãe disponível, por que iria pra creche?

Porque eu também precisava ser feliz. Eu precisava de mim. Eu juro que eu era legal antes de ser mãe. Nem eu acreditava mais nisso.

A criança finalmente foi pra creche. Só chorei uma vez, mas tive essa dermatite nervosa bacana que lacera meu couro cabeludo. Culpa. E os dias ficaram vazios. Eu não sabia o que fazer. Eu não sabia pra onde ir. Minha filha tinha 10 meses e eu não sabia o que fazer com meu tempo livre. É meio triste. Eu juro que eu era legal antes de ser mãe.

Eu podia ter passado o resto da vida assim. É muito tempo, mas passa rápido. Eu sei que passa. A gente tem que fazer a comida orgânica fresquinha, dar banho, brincar, inventar brincadeiras pra criança não assistir à televisão, ensinar coisas, não deixar brincar com coisas tecnológicas que prejudicam o desenvolvimento, não subir ali porque machuca, não isso, não aquilo. É muita regra pra pouca criança. É muita regra pra pouca mãe. Eu decidi que todo mundo tem que ser feliz: eu, a criança, o pai da criança.

Pouco depois que a pequena completou um ano, fiz uma tatuagem. Chorei, chorei, chorei. De repente, eu não era mais a mãe. E fiz isso da maneira mais violenta que eu podia: uma tatuagem no braço, onde todo mundo podia ver, e um porre desgraçado a uns 800 km de casa. Eu ainda existia. Desde então, é isso que eu me obrigo a fazer todos os dias. Ser eu mesma. Não a mãe, a pessoa. Eu estou quase lá.

É difícil esse negócio de maternidade, sabe. Mas é muito melhor quando isso deixa de ser função pra ser sentimento. Hoje, o amor que eu sinto pela minha filha é tão grande que eu nem sei como não demonstrar. E então eu sorrio.

  1. Thiago’s avatar

    Quando ~EU~ tiver filhos, vou deixar eles (bebês) dormindo no carrinho enquanto vejo seriado :)
    Que ideia boa hein? Hahaha (ou não)
    SE eu chegar a ter filhos um dia…

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    1. Lidix’s avatar

      O problema é que se vc fizer isso, quando for sua vez de dormir, eles vão querer ficar acordados, rsrsrrsrss o ideal, no começo é vc dormir sempre que eles dormirem e deixar a casa pelo avesso mesmo e esquecer um pouco que existem seriados… ou fazer que nem eu e assistir com eles acordados e fazê-los viciados em Friends, por exemplo…. rs

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    2. JulioHM’s avatar

      O segredo é mudar o ponto de vista. A “Mãe” que faz disso tudo um porre é um papel exigido pela sociedade. Deixe de ser mãe e seja você mesma :)

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    3. Liber’s avatar

      Isso.

      Era isso que eu esperava de você.

      Obrigado.

      E vamos em frente.

      :-)

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    4. Priscila Schip’s avatar

      Le, e te chamo assim porque te leio há anos, que coisa mais bonita. Que desabafo, que sentimento, que necessidade. Parabéns, por admitir, por suportar, por ser você, que também é mãe. Adorei.

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    5. Ana Cláudia Marini’s avatar

      Precisamos ter coragem para admitir que a maternidade nem sempre é um mar de rosas… Parabéns!
      Vc já leu o livro “Máscara da Maternidade”? Recomendo muito.
      E li uma frase esta semana que é meu lema: “vc é a melhor mãe que seu filho poderia ter”
      Sua Alice é uma fofa!

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    6. Mariáh Oyarzabal da Luz’s avatar

      Que desabafo mais humano, mais sincero e verdadeiro. Acho que todas nós nos sentimentos assim. Meu filho tem a mesma idade da sua e só agora, após todo esse tempo, que parece muito maior, eu começo a me redescobrir mulher. E isso sem deixar de amá-lo e querê-lo. Lindo post, adorei.

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    7. Renata’s avatar

      Aí sim, você traduziu bem o sentimento.
      Aí a gente reconhece o que passa uma pessoa que tem que abraçar o mundo com as mãos, viver a múltipla jornada diária: mãe, esposa, dona de casa, profissional e mulher, não necessariamente nesta ordem. Uma coisa não anula a outra,e nós optamos por isso naquele dia em que resolvemos engravidar, sem saber o que vinha pela frente.
      Uma vez eu li uma frase que pra mim traduz tudo: quando nasce uma mãe nasce uma pessoa culpada. A gente se culpa por tudo: por fazer cesariana, por não amamentar, por dar chupeta, por colocar na escola tão cedo, por precisar de tempo pra se cuidar, por deixar aquele bebê tão lindinho na frente da tv pra assistir Galinha Pintadinha porque é garantia de 30 minutos de sossego, por levar o vídeo da Galinha Pintadinha pro restaurante para poder almoçar em paz, por pensar desta forma “como assim, admitir que eu não tenho paz com o meu filho lindo?”.
      Quando o João nasce eu chorei muito, chorei durante um mês sem parar. E me senti muito culpada por chorar. Depois de um mês passou e a gente começou a se entender. Chorei de volta quando coloquei na escola, o diabo da culpa… Foi a melhor coisa que eu fiz! A vida começou a tomar forma de volta… Claro, ainda tenho muita culpa por trabalhar demais, por não estar com ele tanto quanto e queria… Tento compensar isso me dedicando bastante pra ele quando estamos juntos… A Renata ainda não teve muito espaço pra voltar deste puerpério eterno, tá difícil… Mas eu sei que ela está ali, só aguardando a oportunidade, quando a p* da culpa der uma brecha.
      Parabéns, você é uma mãezona. E mulher tbm!

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    8. Lidix’s avatar

      Eu sei exatamente o que você sentiu e como se sente agora…. Foi assim com o Lucas e putz, nem tinha passado e lá vem o Théo junto com infecção hospitalar e vontade de ter filho nenhum e uma vida mais livre mais leve e mais solta. A verdade é que ter filho é uma merda. Porque nós, as mães, é que temos toda a responsabilidade do mundo nas costas, porque a culpa é sempre da mãe. E ter filho só é uma merda enquanto a gente segue essa pressão do mundo de ter que ser mãe, ter que ser mãe e só mãe e, se tentar ser você, o mundo te condena… Vão completar 3 anos que eu decidi deixar de ser a mãe do Lucas e do Théo pra ser apenas Lidiane, aquela que é mãe de LUcas e Théo, mas que tbm é amiga, namorada, vadia e tantos atributos mais que o mundo vai me dando e que, olha, eu não tou nem aí. Quando eu deixei de ser só mãe, de me preocupar apenas com as crianças e me preocupar também comigo, eu emagreci, arrumei um namorado bacana, arrumei uma vida bacana, amigos bacanas e me tornei, veja só, uma mãe bacana. Quando eu dediquei meu tempo pra mim, eu me tornei a melhor mãe que eu podia ser pra eles. Nos divertimos mais, nos obedecemos mais, somos mais nós…

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    9. Lidix’s avatar

      E, sim, eu ainda acho que ser mãe é uma merda, mas, das merdas todas, a menos fedida…

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    10. Marina’s avatar

      Admiro muito mães! E quem quer ser mãe. Eu quero ser, um dia, quem sabe. Mas morro de medo. Medo de me perder, já que sem filhos é tão difícil de me achar. Talvez fosse mais eu sendo mãe? ih pirei. hahaha
      Te admiro Le! Aposto que a Alice vai amar ser sua amiga e compartilhar contigo as maluquices dela quando ela crescer e virar uma adolescente/adulta hehehe :)

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    11. ilana’s avatar

      Leleca

      Demais!
      Amei o que voce escreveu! Espero que voce ache a pessoa que voce é porque ela vai ser uma mãe, uma amiga e um exemplo lindo pra Alice.

      beijinhos querida!

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    12. luciano’s avatar

      JÁ DÁ PRA COMEÇAR A PREPARAR O SEGUNDINHO, LELECA

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    13. Tina Lopes’s avatar

      É a coisa mais estranha olhar pro pacotinho e não saber o que fazer, sendo que o mundo espera que os violinos toquem e plim, o amor incondicional esteja ali, prontinho pra qualquer sofrimento e tudo. O tanto de regras que precisamos criar/driblar/ignorar/seguir. Quando foi que nos tornamos assim, que as coisas ficaram tão pesadas? Enfim. Já disse que adorei o texto? ;)

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    14. luci’s avatar

      oa, eu sou babah. mas antes de ser babah, eu queria ser mae. mas isso foi antes, sabe, quando eu idealizava as coisas, quando eu pensava que a pior coisa fisica da gravidez eram os chutes. que o pior do depois, seria umas noites em claro. daih, eu me tornei babah e parei com essas coisas. e olha que eu nunca passei uma noite em claro, nunca recebi chute na barriga (pelo menos nao pelo lado de dentro). acho corajoso. mas posts como esse, apesar do excesso de amor envolvido, soh me fazem pensar que nao, luciana, voce ainda nao estah pronta para tanto sacrificio. e quem tah?

      uma amiga minha me disse um dia desses sobre a filha: “amo a S., mas odeio ser mae”. é isso…

      adorei o post!

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    15. Deh’s avatar

      Olha, vim parar aqui por causa da caixa de comentários da Anna V. e…putz, que post sensacional.
      A porra da culpa nasce junto com o nenê, o nenê é absorvente e a gente precisa ter muita força pra voltar ao rumo, aos trilhos. Porque a gente é mãe e o filho é sensacional, mas precisa ter vida fora daquele redemoinho sugador.
      E vou dizer, viu. Meu moleque tem quase 6 e eu me pego elocubrando culpinhas, demoniozinhos. Mas eu sei que sou uma pessoa melhor e sou uma mãe muito melhor se estiver feliz. Então segue o baile.

      Beijo!

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    16. Cecília Matos’s avatar

      Tanta coisa que eu não sabia…

      “É uma cilada, Bino”

      Não era amor, querida, era cilada

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    17. Cristiano’s avatar

      Outro dia uma mae no metro estava dando o seu testemunho para a amiga parecido com o seu. E terminava igualzinho tb…

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    18. Givaldo Almeida’s avatar

      é interessante ver como voce foi mudando de vida ao longo desses 10 anos (ou mais) que acompanho seu blog. Mas nao perdeu a essencia.

      Que Deus te abencoe e que voce seja cada dia mais voce mesma. abraço!

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    19. Ravena’s avatar

      Ah! Eu estou só planejando e já sinto culpa. Cheguei à conclusão (antes mesmo da introdução – perdoe o trocadilho) de que, se racionalizássemos todos os desdobramentos da maternidade, nunca, ninguém, em sã consciência, optaria deliberadamente por ter filhos.
      Mas, não sei o que acontece, se por egoísmo, culpa, revanchismo, compulsão social ou sei lá o que, tudo misturado, vai dando uma vontade de arranjar um monte de confusõezinhas…
      Diante desse turbilhão, estou tão sensível que até chorei lendo a postagem.
      Obrigada.

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    20. Lilica’s avatar

      O pior as vezes ainda está por vir… qdo crescem!!! como outro dia, ouvi uma senhora da limpeza falando com a outra:
      Meus filhos e meu marido qdo chego em casa, parece que nem existo… ninguém me olha, ninguém me dá atenção. E a outra: – Eu vou fazer uma cirurgia amanha, e minha filha nem pra perguntar do que, porque, se estou bem…

      Falei pra els: acho melhor adotar um cachorro, hein?!! Isso sim é amor incondicional de verdade.

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    21. Luana mernezes’s avatar

      Nossa! É muitooo triste saber, que existem pessoas…que so pensam em si mesma…

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      1. Letícia’s avatar

        Eu também acho muito triste saber que existem pessoas que colocam toda a expectativa de felicidade nos filhos. Cada um tem o direito de achar o que quiser, né? :)

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