{ Cinza }

Em muitos dias eu tenho essa vontade de desistir. Ela me faz querer ficar deitada na cama, abraçando meus joelhos sem pensar em nada. Não é exatamente um sofrimento, é só um desejo de não existir. De não pensar, de não comer, de não me vestir. De não subir nesse grande trem chamado vida. Me deixa ficar aqui, não faz diferença mesmo. 

Mas o marido me beija, a criança me chama e então eu já não estou mais na cama. E vou fazendo o café, porque é o que eu faço todas as manhãs, e assim eu já não escolho mais. Como não escolho levar a criança na escola ou levar a gata ao veterinário. Eu só faço. Eu não gosto de pensar nesses dias, porque tudo tenta me convencer a desistir.

Quando todos saem, a única que ainda insiste é a gata. Eu não posso dizer que ela me entende, mas ela se enrola nas minhas pernas pedindo comida e não esmorece até que eu me levante. Hoje eu não fiz o café. Devo ter desistido antes de sair da cama. Às vezes eu só desisto mais tarde, quando fico presa a esse não fazer nada que me abraça. E converso aqui comigo que é difícil mesmo e que não vale a pena.

É como uma vontade de morrer um pouquinho. Não completamente, não de verdade. Morrer só por umas horas, enquanto estou sozinha, deitada na cama e abraçando meus joelhos sem pensar em nada. Mas, você sabe, não existe isso de morrer só um pouquinho. Meu corpo inteiro sabe disso: meus maxilares travam e meus ombros se contraem e minha cabeça dói e de repente eu penso que hoje não vai dar.

Normalmente não dói. Incomoda quando eu preciso inventar atividades pra não ter que responder pro marido “hoje eu não fiz nada, mas pelo menos eu continuo aqui”. Hoje eu quase desisti. São 17h e a louça do café continua na mesa, mas eu fiz o que realmente precisava ser feito.

Eu continuo aqui e continuo tentando. Vai ser melhor quando o sol voltar.

Eu queria pedir desculpa a todos aqueles a quem eu disse que amei e era mentira.

Hoje eu sei que aquela vontade de não largá-los jamais era carência. Que era tão maravilhoso ouvir suas vozes porque vocês falavam sobre mim e eu gostava disso. Que o tempo que vocês ocupavam na minha vida me impedia de pensar nas coisas que me deixariam louca. E isso não tinha nenhuma relação com amor, ainda que eu repetisse exaustivamente que sim.

Peço desculpas porque nunca quis enganá-los. Acreditem, estava enganando a mim mesma também. Eu sei que vocês também erraram. Afinal, tínhamos todos os sintomas do amor, não é? Exceto que não era.

Ou era esse amor não-erótico, que resulta em “eu te amo, mas perdi o tesão”.

“Perdi o tesão” diz mais sobre mim do que sobre vocês, sabe? Ninguém devia ser animador do desejo alheio. Eu não devia ter que ser estimulada constantemente pra alcançar uma performance satisfatória na cama de ninguém (ou no sofá, ou na mesa da cozinha). Analisando friamente, eu notei que sou bem mais sexual solteira que em anos de relacionamento. E eu posso descobrir daqui a uns anos que eu estava errada — o que, aliás, parece ser a saga eterna da minha vida — mas, hoje, a sensação é que eu cuido mais do meu desejo quando eu estou sozinha. Eu penso mais no assunto. Eu procuro mais. Eu não espero que alguém venha e me entretenha.

Se eu não tenho desejo, talvez seja minha culpa. Talvez eu precise pensar a respeito. Talvez eu precise negar um pouco esse amor romântico e assumir o tesão em mim, em você ou no cara que passou por mim com aquele cabelo lindo. Esquecer essa conversa que mulher quase não pensa em sexo que as boas maneiras femininas sempre pregaram. Rasgar esse papel de que mulher tem que ser seduzida e conquistada.

Todo relacionamento é uma escolha, mas isso não significa que meu desejo seja só seu. E não é uma responsabilidade só sua, assim como o amor que eu também não tive por vocês.

As minhas mais sinceras desculpas.

{ Solitário }

Ele estava bêbado e há 24 horas sem dormir quando disse que nunca tinha ouvido um eu-te-amo. Eu não estava preparada pra aquilo. Fiz um carinho no cachinho do cabelo como quem tenta desatar um nó dentro do peito. Ele percebeu.

– Não precisa.
– Eu sei que não. Mas eu te amo.
– Você não me importa.

Eu já tinha ouvido tantos eu-te-amo, mas nenhum me importava como o dele.

Até hoje eu me pergunto que som teria e como sua boca se moveria pra me dizer. Se ele piscaria no meio da frase ou se me olharia fixamente. Mas não. Nunca. A improbabilidade desse fato é tanta que, a cada vez, imagino uma versão diferente. Uma roupa ou outra, às vezes nada. Com café ou cerveja, às vezes nada. Num monociclo, no lombo de um elefante, num jantar com o Neruda. Minha imaginação sabe que não pode criar uma história factível porque pode ser que eu acredite.

Eu arrisquei perguntar.

– Você quer que eu vá embora?
– Eu nunca quis.
– Mas também nunca me pediu pra ficar.
– Nem vou.
– É porque você não me ama?
– Eu também nunca disse isso.
– Você nunca diz nada.

Ele sorriu. Era sempre assim, sorria quando precisava fugir. Como se olhar pra todos aqueles dentes todos me desviasse da falta de resposta. Verdade seja dita, funcionou durante muito tempo.

– Me diga, o que você quer?
– Que alguém me ame.
– Mas não eu.
– Não.
– Por que não?

Eu acho que ele também não sabia. Nunca soube. Ele me queria lá, queria a pele, os cabelos, os bicos dos seios e a boca, mas queria que fosse outra.

Eu me levantei e fui embora. Ele não impediu. Eu voltei. Ele nunca disse que me ama.

Ele só queria que eu existisse.

{ Cíclica }

– Como você pode me amar se nem me conhece?

– Claro que conheço.

– Então quem eu sou?

– Uma mulher linda, inteligente, que gosta de ler.

– Eu conheço uma centena de mulheres que se encaixam nessa descrição.

– Você sabe que eu te conheço. As vezes em que eu sei o que você tá pensando ou fazendo.

– Eu não sei nada de você.

– Nada?

– Sei um monte de coisas, mas que hoje não me servem de nada.

– Como o quê?

– Que você prefere gato a cachorro. Ou que você adora pepino.

– Foi você quem perguntou isso do gato e do cachorro.

– Eu nunca vi você triste.

– E isso não é bom?

– Não se conhece alguém até ver como ela fica quando está triste.

– Eu também fico triste, eu juro.

– Eu acho que fiz as perguntas erradas.

– E olha que você é jornalista.

– Nunca fui. Só me formei. Eu disse que você não me conhece.

– E quais seriam as perguntas certas?

– As que me dessem um mínimo de previsibilidade a seu respeito.

– Ah, mas aí você ia se entediar. Não é legal não saber o que esperar?

– Não quando você se atira do trampolim sem saber se a piscina tá cheia.

– Eu te amo, é tudo o que você precisa saber.

– Como você pode me amar se nem me conhece?

{ Quinta-feira }

Semana passada eu perdi algo que eu nunca tive.

Eu tive um daqueles sonhos em que, quando a gente acorda, chora baixinho encostado no travesseiro porque não há mais nada a fazer. Que, se fosse possível guardar cinco minutinhos a mais daquela sensação, você agarraria o sonho com as duas mãos e diria pra ele nunca ir embora.

Mas ele vai. Vai porque precisa ir, dizem.

E você fica deitado, olhando para o teto, sem saber muito bem como levantar da cama e ir viver sua vida. Longe daquele sonho tão pequenininho que era impossível enxergar, assim, a olho nu. A gente diz “vai, sonho, virar realidade em outro lugar”, mas também não tem certeza se ele foi. No fundo, bem no fundo, quando um sonho se vai a gente não gosta de dizer que ele morreu. A gente só diz que acordou e volta a dormir, esperando sonhar de novo.

É como esquecer o caminho de casa. Como esquecer o nome de alguém que você amou. Como viver com alguém que não existe mais.

Semana passada eu acordei de um sonho que eu nunca tive.

(ou: o tormento do processo criativo)

____

Sabe, as vezes eu fico tempo demais sem escrever aqui.

Eu poderia dizer que é porque eu estava muito ocupada, mas não seria verdade. Eu já estive infinitamente mais cheia de coisas pra fazer e eu ainda escrevia. Eu poderia dizer que falta inspiração, mas eu penso em textos o tempo todo e algumas vezes eles se escrevem sozinhos dentro da minha cabeça, de onde nunca mais saem.

A verdade é que eu me escondo. De coisas que eu não quero pensar ou não quero sentir e que eu sei que virão à tona se eu me sentar aqui e deixar esse silêncio na minha cabeça conversar. Eu estou logo ali, embaixo da cama, esperando que ninguém me encontre e eu continue fingindo que está tudo bem, quando há uma angústia que eu não sei de onde vem e eu só quero fazer de conta que não vejo.

Então eu não escrevo.

Eu não escrevo porque eu me sinto burra. Minha impressão é que todas as pessoas do mundo estão por aí fazendo coisas maravilhosas, mestrados, doutorados, viagens, cursos, aventuras, livros, trabalhos incríveis, e eu continuo aqui. O que eu tenho? O que eu consegui? Como diria um amigo com quem eu conversava ontem, “eu durmo no mesmo quarto desde criança”. Eu não durmo mais, mas é essa a sensação que eu tenho. Que talvez eu tenha feito escolhas que não me levam aonde eu quero, ainda que eu não saiba exatamente pra onde ir. Ou que eu simplesmente tenha pressa demais pra conseguir coisas que levarão a vida inteira até eu ter um pequeno vislumbre do seu acontecimento. Ou, pior de tudo, que talvez eu tenha desistido.

Talvez eu tenha acreditado nas pessoas que me disseram que eu não podia, quando eu sempre soube, desde criança, que eu vim a esse mundo pra escrever – bem ou mal, não sei, mas era isso que eu sempre soube que eu devia fazer. E eu não fiz. Ou não estou fazendo.

Eu falava disso com o marido esses dias, sobre a dificuldade em sentar a bunda nessa cadeira em frente a esse computador e simplesmente deixar as coisas acontecerem, como sempre foram. Porque eu sei que eu vou me sentar aqui e vou chorar, que é o que acontece em pelo menos metade das vezes em que eu decido que vou publicar algum texto. E é pesado. Provavelmente porque, hoje, eu só venho aqui quando tudo parece completamente insustentável e eu considero me explodir em um milhão de pequenos pedacinhos. Se eu liberasse um pouco dessa dor com mais frequência, eu sei que chegaria o momento em que tudo seria leve de novo. E eu faria o que eu preciso fazer, que é escrever.

Quando acabamos de conversar, eu e o marido, sobre nossa missão divina nesse mundo ou seja lá como isso se chamar, nós assistimos a esse vídeo aqui, que eu recomendo fortemente que você gaste 20 minutos da sua vida vendo se estiver envolvido em projetos criativos (especialmente se houver sofrimento criativo):

“E o que eu digo a mim mesma quando eu fico realmente enlouquecida com isso, é: não tenha medo. Não desanime. Apenas faça o seu trabalho. Continue a comparecer para fazer sua parte, seja ela qual for. Se seu trabalho é dançar, dance. E se o gênio divino e maroto que foi designado para acompanhar o seu caso permitir que através do seu esforço aconteça um lampejo maravilhoso, então, ‘Olé’! E se não, faça a sua dança, do mesmo jeito. E ‘Olé’ para você da mesma forma. Eu acredito nisso e acho que devemos ensinar isso uns aos outros. ‘Olé!’ para você, apesar de tudo, simplesmente por possuir esse puro amor humano e a teimosia de continuar aparecendo para fazer a sua parte.” – Elizabeth Gilbert

Então eu virei fazer a minha parte. Porque de todas as coisas que me doem, a pior é pensar que nada está acontecendo porque eu quis assim. Eu já tive medo demais e, no fim, eu estou aqui, não é mesmo?

Ou, em resumo, aguardem textos ruins pro caso do meu gênio divino estar muito ocupado lavando suas meias.

(E assim eu finalmente escrevo minha primeira resolução de ano novo)

{ Explicando }

Tem coisas que eu acho triste ter que explicar. Acho triste ter que explicar que eu não gosto de piada que envolva o termo “estupro” porque esse é um medo que eu tenho constantemente. Que quando eu saio na rua, eu não temo ser assaltada, eu temo ser violada fisicamente. Eu acho triste ter que explicar que esse é um medo da maioria das mulheres e não é imaginário, tipo bicho-papão: uma em cada cinco mulheres sofre ao menos um episódio de estupro ou tentativa de estupro. Eu já sofri violência sexual quando tinha 11 anos, contei aqui. Eu já fui obrigada a beijar uma pessoa porque o braço dela era do tamanho da minha coxa e eu não tinha como reagir. Eu já fui cercada pelo pai de uma amiga quando tinha menos de 15 anos.

A cada vez que alguém me conta uma piada que envolve estupro, todas essas sensações voltam. O nojo. O medo. Os casos absurdos, como o da menina de 12 anos, em 2012, no Rio, estuprada num ônibus enquanto voltava da escola. Eu já tinha Alice, minha filha, e eu pensava que então é esse o lugar em que ela vai crescer. Eu penso nos casos de caras se masturbando enquanto se esfregam em mulheres no transporte público. Eu penso nas mulheres que tentaram fazer denúncias e foram ridicularizadas ou ignoradas em delegacias. Nas meninas que foram estupradas dentro de universidades como a USP e têm seus casos abafados porque a instituição precisa zelar pelo seu nome e reputação.

Eu não gosto de piada com estupro porque me lembra que, quando eu saio com uma amiga, a gente combina de avisar quando cada uma chegou em casa pra ter certeza que está tudo bem. Eu lembro que eu aprendi que tenho que vigiar se algum homem está me seguindo e carregar as chaves entre os dedos como se fosse um soco inglês, e torcer pra ter coragem pra bater em alguém se for necessário. Eu preciso prestar atenção e mudar de calçada e ver se o cara faz o mesmo, e então entrar num prédio ou num comércio até que ele vá embora. Eu aprendi que nem sempre ele vai embora. Eu não posso esquecer que gritar “fogo” atrai mais ajuda que “socorro”. Essas coisas que meninas têm que aprender se quiserem estar em segurança, mesmo em cidade do interior.

Eu queria esquecer as vezes em que me seguiram enquanto eu caminhava na rua. As vezes em que me acompanharam lado a lado, eu a pé e ele de carro, e eu achei que a coisa não ia acabar bem. Eu queria esquecer e não precisar dizer pro marido “o sol é muito forte pra caminhar pela ciclovia, mas eu acho que andar pelas ruazinhas com sombra pode ser perigoso”.

Mas, hoje, eu só queria não ter que explicar.
(e não deixar minha filha me ver chorar enquanto eu publico isso)

{ Quase cinco }

“Casamento é um tema que me atormenta pelos mais diversos motivos.” Assim eu começava um texto que nunca acabei. Era Janeiro de 2008 e eu tava ali tentando entender porque diabos as pessoas decidem dividir o IPTU, o banheiro e a vida.

Eu conhecia você, mas estava em acelerado processo de fuga, provavelmente porque eu já imaginava que isso – eu e você – podia funcionar. E toda aquela minha alergia a relacionamentos estáveis, que me encheu de bolinhas no namoro e de dermatite no casamento. Eu fico feliz de ter te avisado que eu ia tentar destruir tudo e que, por favor, você não permitisse.

Hoje, tão tão perto de completar cinco anos casados, eu vejo que a pergunta certa não é “por que as pessoas se casam?”. É “por que elas continuam casadas?”. Às vezes eu achava isso ruim. Eu confiava que era a certeza que ia nos levar além. Era nunca perguntar se eu te amo mesmo, nem duvidar do que eu sinto por você. “Casamento é por amor”, eu diria em 2008.

Era mais fácil identificar o amor quando a gente parava os carros no semáforo às 3h da manhã e saía pra se beijar no meio da rua. Quando éramos dois estranhos achando uma ótima ideia viajar pra Cuba ou morar juntos.

Só que o casamento não é só sobre amor ou sobre nós, nem como lidamos um com o outro, mas como lidamos com nós mesmos. Se eu não tenho minhas certezas sobre a minha vida, como posso ter sobre o que fazemos juntos?

Mas eu te digo o que eu não quero.

Não quero que você seja a razão do meu viver. A razão de eu estar aqui nesse mundo sou eu, não você. E jamais me deixe ser a sua. Eu não quero que seja pra sempre, porque você sabe que eu faço tudo em cima da hora e aí já pode ser tarde demais. Eu não quero te fazer infeliz. Eu não quero ser sua cara-metade, completando você. Eu não quero ser um pedaço.

Hoje, ainda que pareça menos, eu te amo mais. Não todos os minutos, nem todos os dias. Mas, com certeza, enquanto a criança vomita e você a carrega pro banheiro, quando você me avisa que vai chegar mais cedo ou quando a gente discute sobre o porre da noite anterior. Às vezes sem motivo algum. Às vezes com todos os motivos que me fizeram escolher você pra cometer a loucura de dividir a vida. Eu sei que é amor.

É normal eu me perguntar se quero estar com você e, sempre que eu respondo sim, eu me caso de novo (ainda que eu morra de medo de casamento). Estarmos juntos é uma escolha que nós fazemos todos os dias. Obrigada por dizer sim.

– Tem aquele tipo de gente que luta pelo que quer, sabe? O tipo de gente que não se importa com os outros: eu vou conseguir, nem que eu tenha que machucar meio mundo, é meu, eu consigo. Eu nunca fui assim. Eu sou o tipo de gente que deixa.

– Que deixa o quê?

– Ah, que deixa tudo. Se você me disser que não me quer, que eu não sou boa, que eu não tenho talento, eu não vou brigar pra mostrar o contrário. Vou simplesmente aceitar e parar com tudo.

– Você não parou comigo.

– Você nunca me disse pra desistir. Acho que é porque você sabia disso.

– Que você é uma pessoa que deixa?

– Arram.

– Você só me contou agora.

– Mas você sabia. Que eu não ia fazer nada muito maluco, nem te prejudicar. Você sabia que eu ia morrer por dentro, mas ia deixar você seguro.

– Talvez você seja o tipo de pessoa que luta com você mesma.

– Talvez.

– Talvez você seja o tipo de gente que morre pelos outros.

– Isso é tão idiota.

– Talvez você seja idiota.

– Obrigada. Isso deve explicar boa parte da situação.

– E que parte não explica?

– Aquela em que eu sei que você pode viver sem mim, mas não sei porque você não quer.

Eu sempre li que quando nasce uma mãe, nasce uma culpa. Continuo acreditando nisso, mas cada vez mais eu percebo que quando nasce uma mãe, nasce uma acusadora. Uma fiscal do parto alheio. Uma reguladora da mamada vizinha. Uma vigilante da dieta alimentar. Não basta mais cuidar do seu filho, tem que verificar que todas as outras crianças do mundo estejam recebendo exatamente o mesmo cuidado que a sua.

E por “cuidado” quero dizer o mesmo sistema educacional do seu filho. Eu não dou açúcar pro meu filho, ninguém mais pode dar. Não importa o quão incrível e dedicada seja a mãe: “ela deu açúcar, ela não aaaaaama”. Esses dias eu li que “a cada miojo que uma mãe dá pra um filho, uma fadinha morre”. Só uma notação importante: não existem fadinhas, tá?

Tem a discussão de deixar chorando ou não no berço, colocar ou não no cantinho da disciplina, pegar no colo ou deixar no chão – as disputas são tantas que eu tenho preguiça até de pensar, porque me enrola as tripas. Eu acredito que, alguns anos atrás, antes dessa obrigação de toda mulher ser uma mãe absolutamente incrível e abnegada, existia uma mulher que iniciava a maternidade. E, nesse início, todo mundo ajudava: a mãe, a vizinha, a amiga da escola. Todo mundo aparecia, ninava, ajudava a fazer papinha. Não havia esse controle maluco de hoje porque a mãe não era cuidadora única. E devia ser bacana, porque de quebra a mãe podia tomar banho, lavar o cabelo e fazer xixi em paz. Olha que mundo bonito. Um filho era uma “obra coletiva”, por assim dizer. Ninguém se preocupava se o pimpolho ia pra casa da vizinha e ela ia botar Karo no pão – e Karo é um veneeeeeeeno, açúcar puro, por Deus, que mãe é essa.

Hoje, toda ajuda é fraqueza. Ah, aquela botou na escola. Ah, aquela tem babá. Ah, aquela deixa com a vó. É tipo um concurso de mãe mais dedicada. Vamos fazer umas planilhas no Excel, a gente começa a calcular quantas horas você se esforçou, com variáveis que rendem mais, tipo “teve cólica por quatro meses” ou “foi alérgico a lactose por um ano até os médicos descobrirem”. Ganha quem ficar mais tempo junto, inventar mais brincadeira divertida, reclamar menos e ainda cagar regra sobre a educação alheia.

Eu fico muito feliz se você consegue toda a alegria necessária pra sua vida só com seu filho. De verdade. Mas eu preciso mais. Eu preciso de amigos. Eu preciso de marido. Eu preciso de sexo. E tem horas que eu quero tudo isso sem criança por perto. Ontem, lendo uma matéria na Época sobre uma mãe que deu a guarda do filho de cinco anos pro pai, tudo que eu li era julgamento. “Tem gente que não serve pra mãe”, “por que que teve filho?”, “queria se livrar da criança” – é isso que se pensa da mulher que tem a audácia de assumir que quer fazer um happy hour. Como se um filho fosse fruto exclusivo de uma mãe e o pai fosse um elemento externo a isso tudo. Como se a mãe tivesse deixado a criança de lado e nunca mais fosse vê-la nos próximos 68 anos.

A maternidade é tipo aula de yoga, cada um vai até onde pode. Tem gente que vai abraçar os pés com a maior facilidade, tem gente que mal vai conseguir botar a mão no joelho. E ninguém é pior por isso (nem melhor, desculpe). O mundo é esse lugar legal porque cada um é criado de um jeito. Aceitar as diferenças faz tudo muito melhor.

Mais amor e menos julgamento, por favor.

___

eu assumo aqui minha culpa: durante um tempo, fui fiscal da mamada alheia e me envergonho disso. ainda bem que a gente aprende. desculpa e um abraço bem apertado.

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