{ O que trazem os dias de sol }

Dias de sol me lembram dias de infância. Não qualquer dia: aqueles passados na fazenda da minha avó, com um monte de gente que também era criança – e que hoje também é gente grande. A impressão que tenho é que nunca chovia quando eu tinha cinco anos, a não ser umas duas ou três vezes ao ano, quando eu tomava banho de chuva.

Vida de criança é boa até quando chove.

No Norte do Paraná, a fazenda da vó tinha aquela terra vermelha, de fazer encardir até dentro da orelha. Subíamos todos, meia dúzia de crianças, na caçamba da caminhonete que ia em direção ao paraíso: um monte de espaço, terra, água e bichos. E sol. A falta de segurança espantaria os pais modernos, mas todos sobrevivemos.

Uma das minhas diversões prediletas era brincar no meio dos tratores, quando todos fazíamos uma corrida imaginária com as máquinas estacionadas. Ninguém nunca se perguntou se devia ser perigoso, mas visto que alguém sempre se estrepava, completamente seguro não devia ser.

Lembro que, só uma vez, eu me atrevi a tentar colher algodão, mas não gostei dele não ser branquinho como o da farmácia. E foi dessa vez, bem no meio da plantação, que eu vi o avião pulverizando veneno bem em cima da gente. E os pais, desesperados com a cena, tentando tirar os filhos dali.

As pequenas coisas eram as melhores. Sentar no chão e chupar cana, correr atrás das galinhas d´angola, correr do cabrito. Brincar com as espigas de milho, sentir o cheiro do bolo assando, passear na carroça do entregador de leite. Na hora de voltar pra casa, eram meia dúzia de seres marrons, cobertos de terra até o pescoço. Nem propaganda de sabão em pó, que tira mancha de azeite e molho de tomate, limpava aquele bando de criança emporcalhada.

Não que fosse necessário ir até à fazenda para conseguir diversão – e sujeira. Quando se é criança, é preciso muito pouco pra ser feliz, e um saco de carvão fazia a alegria de meia dúzia de pequerruchos. O carvão era ralado na calçada e passado no corpo, até ficar bem pretinho. Coisa de criança sem juízo mesmo.

Os dias de sol trazem tudo isso de volta, como se eu nunca tivesse crescido. Talvez por isso eu tente manter essa felicidade infantil, de rir de tudo, mesmo quando tudo parece perdido. De me divertir com tão pouco, de chorar de tanto dar risada, até doer a barriga – como quando minha irmã me fazia cócegas e eu achava que ia morrer sem respirar. Porque vida de criança é sempre boa. Até quando chove.

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Depois de tanto tempo, vou voltar à fazenda da minha avó. Faz muitos anos que eu não vou até lá – arriscaria dizer uns 15. Muita coisa mudou. A meia dúzia de pequerruchos, agora, conta só com cinco integrantes – o mais novo da turma deixou de colher algodão aqui pra brincar com o algodão das nuvens, diretamente no céu. Tomara que lá seja tão branquinho quanto o da farmácia, para que ele não se desaponte. E que peça a São Pedro para mandar dias tão ensolarados como os de antigamente.

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Publicado originalmente no jornal Hora H, de Curitiba, em 30/11/2005.

ilustração: Chantal Wagner Kornin

  1. Tati’s avatar

    Aahhh… queria tanto rever a tua foto suja de carvão!!!

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  2. Marina’s avatar

    Ai que delicia esse texto!!!
    Fiquei pirando em tudo q eu fazia quando era criança e realmente nunca chovia!!!

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  3. lidiane andrade’s avatar

    Ai, que bonito! Eu agora lembrei de tanta coisa! Como qunado eu pulava o muro de um dos vizinhos pra pegar azeitona preta e manchei minha camiseta amarela… E quando a gente brincava de ‘cuz-cuz’ na rua e eu vivia apanhando nessa brincadeira… rsrsrsrsr massa relembrar…. e massa o jeito que esta menina escreve!

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  4. Isa’s avatar

    Não tem fase mais gostosa do que a infância!
    Quando crescemos, percebemos que queremos tanto, tanto e não nos damos conta de que as melhores coisas são de graça =)
    Aproveite muito quando voltar! “Memórias atualizadas” são ainda mais incríveis!
    Beijos! =*

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  5. Tensionada’s avatar

    Boa noite Letícia.

    Primeiramente que parabenizar seus belos textos…
    Sou sua seguidora há algum tempo.. e… depois de ler seu último post,.. me senti na obrigatoriedade de comentá-lo…

    Infância…

    a partir do que vc escreveu, parece que fiz parte da meia dúzia das crianças comentadas…
    sua descrição fez parte da minha infância também..
    o cheiro do café e do bolo…
    a brincadeira na cachoeira..
    a felicidade de subir na goiabeira..
    a brincadeira no balanço…
    e mais… os avós acompanhando nossa infindável brincadeira…

    ler o seu texto..

    me fez lembrar do dia em que presenciei minha família feliz..
    do dia em que todos eram unidos.. superando brigas e ajudando uns aos outros…

    hoje em dia,.. com essa modernidade, a intolerância é assustadora.. infelizmente… ou felizmente (para as pessoas que sofrem até hoje)..

    Bom, acho que vc saberia escrever sobre a intolerância com maestria. Pense nisso.

    Fique bem,…

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  6. SiRE!’s avatar

    Um must!
    Voce manda muito bem! Me emocionei lembrando da chacara do meu padrinho, porra.. que saudade da vida despreocupada….

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  7. Patty Midori’s avatar

    Ai que saudades da minha infância….

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  8. Liber’s avatar

    Oi.

    Gosto muito desse texto.

    Obrigado pelas visitas e comentários lá no meu blog.

    Quero dizer que o seu querido Rubens tem razão quanto a “tirar o saco da cabeça”. Gostei muito dessa ideia.

    Também quero dizer que “pessoas que não fazem sentido” estão entre o melhor tipo de pessoas. Eu acho. Pelo menos algumas delas, né?

    E também queria te retribuir a dica de animação:

    (a musiquinha é bem legal).

    E é isso.

    Keep writing.

    ;-)

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