{ O homem sem mulher }

No apartamento 507, ele levantou da cama com o barulho do pressurizador de água do apartamento ao lado. Cinco e quarenta, esmurrou a parede. Nada. É hoje que mata esse cara. Abre a gaveta do criado-mudo, pega a arma, vai pro corredor do prédio. O vizinho cantarola. Ele toca a campainha.

– Cinco e quarenta não é hora de ninguém ser feliz, meu chapa.

E atira.

Acordou num pulo, o pressurizador de água do vizinho ainda ligado. A cabeça latejava. Precisava tomar jeito, mas não conseguia nem arrumar a gaveta de cuecas – que dirá botar ordem na vida. Era assim desde que ela foi embora levando os discos do Odair José. “Felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes”.

Não tinha roupa limpa pra usar. Duvidava que no apartamento ao lado o engomadinho não tivesse uma camisa passada e cheirosa. Ou aspirina na caixa de remédio. Ele olhava a sala parecendo um armário, tamanha a quantidade de roupa: nunca ia achar a maldita aspirina. Coisa de mulher isso de juntar tudo que diz respeito num lugar só. Se você quiser saber se um homem tem uma mulher em casa, procure uma caixa de remédios.

Ele via o epocler no braço do sofá e o eno junto aos copos. Será que as aspirinas acabaram e ele não sabia? A vida é isso mesmo, lidar com o que você achava que tinha e não tem mais. Um eterno tomar ônibus pro sentido errado.

Eram felizes, ele achava. Ela o largou por causa de dinheiro. Não é que não quisesse lhe dar mais, só não podia. Suspirou e rumou pro banheiro. Sentado, olhava o mofo acenando no azulejo à sua frente. Não tem mais papel. Como se isso não o abalasse, foi pra debaixo do chuveiro.

Abriu a torneira e logo sentiu cheiro de fumaça. A água quente agora fria. Parece com ele. Precisava encontrar uma mulher. Ia resolver isso hoje. Sozinho não ficava.

O celular apitou. Ele sempre esperava que fosse um sinal dela pedindo pra voltar, mas era mensagem avisando uma data comemorativa. Insatisfeito com a existência de 52 segundas-feiras no calendário, alguém ainda decidiu decretar 13 de novembro dia do mau-humor. Avisar pra que? Já não andava ranzinza o bastante?

Ele queria trabalhar como inventor de datas comemorativas. Ainda ia criar o dia da aspirina. Enxaqueca desgraçada desde que ela se foi. Vestiu a roupa suja mesmo. Chegou ao corredor e olhou a porta do vizinho. No apartamento 508, o cheiro de café passado invadindo o lugar todo.

Vida em condomínio é assim: não dá pra ser infeliz em paz. Escreveu um bilhetinho e passou por debaixo da porta: “entre no clima da data e seja mais um amargurado. uma merda de dia do mau humor pra você”. Vai que. Mas não, a mulherzinha, o cafezinho, o vizinho cantarolandinho às cinco e quarenta da manhãzinha. Ele também ia arrumar uma mulher, ia ver.
Chegou ao trabalho e já pegou o classificado e o telefone.

– Ahm, oi. Quanto você cobra? Aham. E o que tá incluído nesse preço? Sei. Isso também? Uau. Tá bom pra mim. Anota o endereço.

Passou o dia ansioso. Derrubou café na roupa. Prendeu o dedo na porta do carro. Xingou a prima dela em Cotia, que foi quem lhe botou na cabeça loira a ideia de ir embora. Chegou em casa às 18h30. Cinco minutos depois, a campainha.

Ela fez tudo que ele esperava. Dona Judite lava, passa, cozinha, guarda as cuecas arrumadinhas, vai ao mercado, desencarde o banheiro e chama o eletricista. De quebra, ainda administra uma caixinha de remédio na gaveta da cozinha.

Felicidade existe sim, Odair José.

  1. Hilger’s avatar

    Hahahahahahaha
    Pois é, eu aprendi que era coisa de “gente organizada” e que era bom ser gente organizada, então por mais que eu não tenha caixinha de remédios, eu tenho no armário do banheiro e da cozinha um mini-espaço onde ficam os remédios.
    E mamai ensinou a lavar, passar, guardar, ir ao mercado, etc, porque ela queria que eu soubesse morar sozinho um dia.
    Bingo!
    Só não ensinou a cozinhar porque… bem… ela não sabe muito bem…
    Hehehehehe

    Parabéns, Le, adorei o texto, continue escrevendo, please! <3

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    1. Letícia’s avatar

      Hahahahaha! Espero que todo mundo tenha uma família assim no futuro.
      <3

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      1. Hilger’s avatar

        Meus filhos vão aprender a lavar louça, cuidar da casa, etc, porque eu quero passar essas tarefas pra eles, e só administrar o dinheiro RSSSSSSSSSSSSSS

        Responder

        1. Letícia’s avatar

          Hahahahahaha! Tem seu valor!

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        2. Letícia’s avatar

          Eu tava aqui na dúvida sobre incluir ou não que, bem, se esse texto faz algum sentido é porque, provavelmente, fomos criados com o conceito de que serviço doméstico é coisa de mulher (que coisa, hein)?

          Coloquei, editei e, por fim, apaguei. Não precisa explicar, precisa? Pois é.

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          1. Tiago Lobão’s avatar

            Se você mudar o sexo dos personagens, por uma mulher amargurada e por um Sr. Judito (não com esse nome, por favor), tudo vai continuar ótimo e aí aquela sua dúvida, desaparece. ;)

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            1. Letícia’s avatar

              Aí que tá, eu não sei se vai continuar. Você acredita na possibilidade do marido da vizinha fazendo todo o serviço da casa, e por isso a vizinha ter camisas passadas e café cheiroso? Você acredita na possibilidade de tentar contratar alguém que faça faxina e ele ser homem? Tudo bem que é ficção, mas eu acho que não cria a expectativa que se faz como quando a Dona Judite é mulher…

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