{ Eu perco, tu perdes, ele perde }

Curiosa a tendência do ser humano ser um perdedor. Não, não do jeito que você está pensando. Mas note: a cada dia, uma coisa nova se perde. Também se ganha, afinal, a vida não é só derrota. Nem que seja uma lição de moral.

É que, se olhar bem, alguma coisa sempre está sendo perdida. Nesse exato momento, você pode estar deixando de aproveitar um dia bacana porque tem que trabalhar, um filme ótimo porque não deu tempo de ir ao cinema. Um texto que você recortou no computador e nunca foi colado em lugar nenhum. Um telefone importante, como o da menina que não beijou, mas deixou um número num guardanapo de boteco. Sem falar nos guarda-chuvas, nos botões desprendidos, nas pastas de papéis e nas dentaduras postiças, como bem já observou Mario Quintana.

Mais que objetos, uma das coisas que me incomoda muito é perder sonhos. Esses que a gente tem quando criança, de ser astronauta, motorista de ambulância e jogador de futebol. De ser rico e poder comprar todo o chocolate do mundo, de ter todos os trabalhos de matemática feitos miraculosamente de um dia para o outro. De ser feliz daquela maneira prosaica de quando se tem oito anos, que é tomando sorvete e jogando videogame.

A gente cresce e perde um pouco da ingenuidade e da sinceridade infantis. Perde também a virgindade – nem sempre com a pessoa certa –, o namorado, vários namorados, o marido, vários maridos. Fica sem noção, sem cabeça, às vezes até sem rumo.

Perde-se a coragem de assumir que se gosta de alguém, o chão, o tampão da cabeça e a caixa preta, especialmente depois de um daqueles porres homéricos em que, de maneira geral, perde-se além da memória, o tato, o bom senso e o pudor. Já vi gente perder a vergonha e a vontade.

E é tanta coisa que se vai. Pai, mãe, amigos, gente que nunca deveria ir embora, mas vai. E então perde-se o sono e a fome. E a vontade de viver. Tem quem perca no futebol, tem gente que se perde na vida.

O que eu nunca vi ninguém ficar sem foi o medo. Alguns passam, está certo. Os primeiros a ir embora são aqueles meio bobos, de escuro e de bicho papão. Depois de crescido, de dirigir, de avião, de se envolver, do que os outros vão dizer. Mas alguém que não tenha medo de nada, disso eu nunca tive notícia.

Impossível dar fim em todos os eles, acho. Mas quanta coisa a gente deixa de fazer por conta disso. Paradoxalmente, a única coisa que não se perde é a que mais nos faz perder.

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Publicado originalmente no jornal Hora H, de Curitiba, em 2/8/2005.

  1. Luísa Alves’s avatar

    Bela reflexão. Estou tentando perder meus medos e parece que quanto mais vivo mais ando criando eles. Terrível. Análise? Já!

    bjbj

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  2. Jaqueline’s avatar

    Esse até arrepiou.
    Amo de paixão seus textos…
    Faz tempo, mas só agora tive coragem de comentar! :)

    De coração.

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  3. Marcos Guinoza’s avatar

    Acho que a gente começa a perder os sonhos quanso, num belo dia – pluft! – descobrimos que gordura trans e nicotina fazem mal à saúde. E, por precaução, pisamos no freio. Deixamos as grandes revoluções pra lá e passamos a calcular calorias, a reclamar da baixa umidade do ar, a policiar nossas atitudes. O tempo de expectativas ficou para trás. E a finitude é logo ali. Nem Che, nem Dalai Lama, nem um astro do rock. Nos tornamos apenas adultos, parte da maioria sem nenhuma importância.
    Bj.

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  4. Liber’s avatar

    Ô da chicrinha,

    Bem lá no comecinho a gente é promessa, é todo potencial. Pode ser tudo: bombeiro, astronauta, marinheiro. Daí vamos fazendo as escolhas. Mas o engraçado é que, por melhores que sejam nossas escolhas, a gente sempre deixa de lado alguma coisa. E por melhor que sejamos, acho que lá no fundo fica sempre aquela saudade de quem poderíamos ter sido.

    Quer dizer, basicamente é isso que você falou, né? Hahaha! Olha, acho que esse texto entra facinho no Chá-tice Top Ten Greatest Hits. Texto super-bacana, solto, bem escrito.

    Dá vontade de ler, reler, guardar, desenvolver. Adorei.

    E sobre o medo… sabe que acho que chega uma hora em que fica difícil separar medo de bom-senso? Não é só o medo, mas o bom-senso, o juízo, que nos faz abrir mão e perder coisas. Coisas que a gente queria tanto, tanto, mas que é melhor deixar lá.

    Tipo o final do “Indiana Jones e a Última Cruzada”, quando o paizão Sean Connery diz pro Indi que tentava pegar o cálice sagrado no meio daquela destruição toda: “Indiana, desista”. Salve sua vida e desista.

    Pôxa, tesão de texto, moça.

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  5. Carola’s avatar

    Meu maior medo era a solidão. Era, pq hj ela é parceira. Não tenho mais medo de ficar sozinha, estar sozinha. Não gosto, não quero ficar muito tempo mais ainda sozinha. Mas medo, ã-ã.

    Mas a gente se resolve com uns medos, pra dar lugar pra outros né. O meu maior medo é do futuro da Mila, das dificuldades/problemas/situações que ainda estão por vir. Do que eu ainda não sei e que me aguarda aí pela frente. Medo de em algum momento desses, não poder fazer nada.

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  6. Carola’s avatar

    Ah tá, eu tenho que botar isso pra fora tbém: tou me CAGANDO de medo da Dilma ganhar, e do futuro triste e sombrio que nos aguarda.

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  7. san’s avatar

    Hoje fiquei sem saber o que escrever aqui, ótimo texto Leticia, fiquei pensando em quantos sonhos já perdi… qtos ainda vou perder.. pensei que qdo eu tivesse 30 anos fosse ter uns 4 filhos.. já passei dos 30 e ainda não tenho nenhum… sniff..
    Bom, mas preciso comentar, conheci a Leticia pessoalmente, e ela consegue ser mais incrivel ainda… hahaha.. “OI PESSOA”.. kkkk Adorei conhecê-la.. Bjos, parabens de novo!

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  8. Rodrigo M Santos’s avatar

    Gostei bastante do seu texto, bem escrito :)

    Porém essas “derrotas” fazem o que somos hoje. Ou seja, eu nao consigo me arrepender de ter perdido varias vezes, varias coisas.

    São derrotas e vitorias, medos e “coragens” que formam o que somos agora. Voce tem vergonha disso? Eu acredito cegamente que nao devemos ter.

    Nao acho que o problema seja a tendencia do ser humano em ser perdedor. Acho que o problema é ver a derrota como algo mais marcante como a vitória, e acabar fixando a derrota como “modo-de-vida”.

    Eu penso que se não existe isso, provavelmente não saberiamos viver, ou pelo menos como definir as coisas.
    Antes triste e feliz, do que nada.

    Parabens pelo texto, se quiser discutir outras coisas, tem meu email ai no post :)

    Forte abraço.

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  9. Fernanda’s avatar

    bom, perdas todos tem, né? seja de coisas boas, e de coisas ruins.mas é indiscutível, que graças à elas, somos quem somos.algumas nos ensinam muito.nos faz até crescer, evoluir como ser humano.enfim,texto perfeito! ^^

    adorei!

    bjs

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  10. Fábio W.’s avatar

    Muito prazer, eu sou quem vc procura, o homem sem medos. Só não me pergunte como cheguei a ficar assim. Me dá medo só de pensar.

    Excelente texto.

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  11. Cecília M.’s avatar

    “Eu perdi o meu medo, o meu medo, o meu medo da chuva…”

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  12. Ana’s avatar

    acho q vou ficar pensando nisso por muitos dias…

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  13. Lidiane Andrade’s avatar

    Óteeeeeeeeeeeeeeemo texto, pra variar, né?
    Queria perder meu medo, porque,sabe. né? Insegurança, meu sobrenome…. srrsrsr
    beijos e saudades

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  14. Sil’s avatar

    A gente perde mas ganha experiência! hahahhahahhaha

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  15. Giva’s avatar

    Olá, tdb? faz uns 7 anos que acompanho seus textos. acho que desde o principio. Te encontrei aqui nos meus favoritos e voltei. que bom que voltei. Voce já era muito boa, mas agora está muito melhor.
    Abraços.

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