{ É só mais uma história de amor }

O que começa mal tende a acabar mal.

Afinal de contas, não era disso que falavam todas as canções de amor? Do que foi. Ou do que teria sido. E dos olhos-brilhantes-lábios-úmidos-peito-arfante-respiração-entrecortada-mãos-pés-cabelos. Ufa.

No quarto, a luz do abajur de repente apagava, para logo voltar a acender. Ela lia – ou tentava ler, já que as letras pareciam se embaralhar e escorrer pelas páginas. Impossível se concentrar. Como?

Afinal de contas, o tal do amor não era só uma reação química completamente inexplicável? Não, isso é paixão. Amor é uma coisa mais sem graça. Não é como estar embriagada todo o tempo, nem se arriscar a tudo por, aparentemente, coisa nenhuma.

Ah, tá.

Não queria falar sobre ele. Sentou no chão, uma lata de cerveja e um monte de idéias. Duas linhas sobre cada assunto. Impossível concatenar o pensamento e unir duas frases sobre o mesmo tema. Política, economia, eleições, Copa do Mundo, a obesidade enquanto epidemia. Nada disso importava. Ele sempre voltava ao pensamento.

Ela não o amava mais. Isso não. Mas havia nisso tudo um quê de perseguição, aquela com que sonhava já há algumas noites. Como naquele sonho da noite passada, em que encontrou a arma a dois palmos, engatilhou e mirou. Três tiros: testa, peito e barriga. E que não mexesse mais com ela. Nunca mais.

Acordada, os prazos começavam a vencer e ela não conseguia trabalhar. Decidiu que aquela história precisava ter um fim. Tomou coragem e mais um gole de cerveja. As idéias agora começavam a fazer sentido.

Entre eles tudo sempre foi assim, meio difícil de definir. Algumas vezes, ficaram juntos sem nem saber, sendo acordados pelo motorista do táxi ao chegar em casa. Em outras, eles sabiam exatamente o que estavam fazendo, mesmo que fingissem que nada aconteceu. Era o tal do amor. Não, amor não, que é muito sem graça. Paixão.

Calçou sua sandália e pegou a chave do carro. Hoje aquela maluquice ia ter que acabar. Não dava pra continuar pensando nele o tempo todo, no que foi e no que teria sido. Agora ele estava com outra, como quando começaram a se encontrar. E tudo o que começa mal tende a acabar mal.

Desceu do carro e foi à portaria. “Apartamento 111, por favor.” Parada em frente à porta, tocou a campainha. Ele a olhou com os mesmo olhos de sempre, por trás do cabelo preto. Um desses momentos em que a gente pára, congelada, e o mundo corre.

Beijaram-se como sempre, transaram como nunca. Beijar é coisa de quem se ama, e aquilo definitivamente não era amor. Porque o amor, você sabe, é aquela coisa sem-graça. Aquilo era paixão.

Estendeu o braço e remexeu a bolsa. Encontrou o que procurava. Descarregou a arma nele. E que não mexesse mais com ela, nunca mais.

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Publicado originalmente no jornal Hora H, de Curitiba, em 25/01/2006.

  1. Marina’s avatar

    não dá idéia não moça!

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  2. Sil’s avatar

    xi, digo o mesmo…
    haha

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  3. Isa’s avatar

    Descarregar a arma, no mínimo! Ainda bem que os que esbarram na gente e que merecem são poucos…
    Bom, o melhor de tudo é se aproveitar da criatura antes de acabar com ela, claro! Hahaha!
    Excelente texto, Letícia!
    Beijos!

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  4. Kat’s avatar

    Era uma vez um menino;
    Ele disse que me amava;
    Eu lhe entreguei meu coração;
    Ele o despedaçou;
    Eu o matei;
    E vivi feliz para sempre!

    Nossa, isso foi péssimo!!hahahaha

    O post foi excelente!

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  5. Monise Hernandez’s avatar

    Amar é matar.
    A gente elimina os outros, os sonhos, os fatos. Vive daquele sentimento, vive como cúmplice de um crime.

    Piro nos seus textos. O comentário é mais um desses amores sem argumentos, só pra deixar um testemunho de uma fã.

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