{ É isso? Acabou? }

Eu tenho 34 anos. Estou casada. Tenho uma filha. As contas são pagas em dia e eu posso fazer coisas, do ponto de vista financeiro, que seriam impossíveis se eu pensasse na minha vida dez anos atrás. Tenho atividades que eu gosto, eventualmente eu me encontro com pessoas que eu adoro. Então eu me pergunto: é isso? Acabou?

No fim das contas, o que mais eu posso esperar da minha vida? Parece que é isso que eu me questiono todos os dias. Quando eu parei de trabalhar, uns cinco anos atrás, eu achava que o problema era esse. Eu me perguntava se eu devia ter um emprego e sair de casa e ganhar dinheiro. Ou, como dizem alguns, ocupar meu tempo. E passei muito tempo sofrendo porque, sei lá, eu devia saber o que responder quando perguntassem minha profissão. Eu achava que o que me faltava era ter essa resposta.

Hoje eu sei: não tenho um emprego, mas, bem, eu não preciso ter um emprego. Sou do tipo que acha que tudo vai dar certo e, se um dia tudo der errado, eu me levanto e faço o que for necessário (mas isso não precisa ser agora, certo?). O marido acha muito curioso que eu sempre diga que as coisas se ajeitam, mas é algo em que eu realmente acredito. E, ainda que eu não goste, um dos meus mantras é “ninguém aprende nada sendo feliz”, motivo pelo qual prefiro não odiar esses períodos em que tudo dá errado (um dos meus anos preferidos, inclusive, é 2005: o ano mais cagado da minha vida).

O problema, então, não é não ter um emprego. É a falta dessa resposta maior: por que diabos eu estou no mundo? Se eu já atingi o máximo que eu posso ter dessa vida, tudo bem se eu simplesmente morrer amanhã? É só continuar seguindo o baile? Então eu descobri que eu sinto falta da realização. Que eu, antigamente, traduziria em vender meu carro e tentar sobreviver um ano na Europa, trabalhando por comida e lar. Foi um plano que eu nunca realizei porque eu tinha um apartamento em Curitiba. E tinha a segunda faculdade pra acabar. E tinha um emprego. “Não dava” pra largar tudo, passar um ano fazendo sabe deus o quê e voltar fazendo algo ainda mais incerto.

Talvez esse plano, se realizado, tivesse feito eu me achar nesse grande universo de possibilidades. Mas eu fiquei. A minha sensação, ao fim de tudo, é que eu queria fazer alguma coisa relevante. Aquele lance de fazer a diferença, sabe? Então eu penso em ir pro Haiti ajudar a construir casas e em como isso é complexo quando você tem uma criança em casa (talvez sejam só desculpas). E meus amigos me perguntam se eu realmente preciso ir tão longe pra conseguir ajudar alguém. Eu continuo com esse sentimento de impotência. Nessas horas, eu tento me lembrar de um e-mail que eu recebi em 2011, que dizia

“Mas o real motivo desse e-mail é que eu quero te agradecer muito, você foi a trilha de literatura (trilha sonora só que de palavras) dos meus últimos 6 anos de vida.

(…)

Um grande abraço, sem você saber você foi mais que uma terapeuta, você foi a pessoa que escreveu perfeitamente o que eu estava sentindo mesmo antes de eu sentir.”

E eu tento acreditar que escrever aqui é importante pra alguém além de mim (é difícil, eu sei). Se isso aqui é, de alguma forma, significativo pra alguém, talvez eu tenha saudades dos meus amigos. Talvez por isso eu insista em construir uma propriedade pra todos vivermos juntos, naquele conceito de comunidade mais antigo. Talvez eu sinta falta de ter um vizinho pra dividir o bolo de milho (eu tentei no Rio, as vizinhas provavelmente acharam que eu era maluca, mas tudo bem). Talvez eu sinta falta daquele café, acompanhada, no meio da tarde. Daqueles dias em que eu finalmente fico quieta uns cinco minutos, pra poder dizer “se eu morresse, agora, morreria feliz”.

Eu continuo procurando o motivo de estar aqui. Eu me recuso a crer que a vida é isso e pronto. A vantagem é que parei de procurar os culpados e comecei a procurar as razões. Quem sabe ajude.

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Anteontem o blog completou 12 anos de existência. Eu poderia me sentir velha, mas me convenço cada vez mais que eu ainda sou muito adolescente.

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Mudamos de servidor e, por isso, o e-mail também mudou. O endereço direitinho tá ali do lado esquerdo. :)

  1. Victória’s avatar

    Esse texto me fez lembrar de uma teoria de C. S. Lewis:

    Premissa 1 – Todo desejo inato e natural em nós corresponde a algum objeto real que pode satisfazer esse desejo.
    Premissa 2 – Mas, existe em nós um desejo que nada ao longo do tempo, nada nesta terra e nenhuma criatura pode satisfazer.
    Conclusão – Portanto, deve existir algo mais do que o tempo, do que esta terra e as criaturas que possa satisfazer esse desejo.

    Ele usa essa teoria para explicar a existência de Deus e nosso propósito espiritual.
    Pela minha experiência acho que é por aí mesmo, sabe. Até viajei pro Haiti, inclusive, mas se eu não tivesse um propósito maior teria voltado frustrada e me perguntando por que não deu certo. Acho que essa “fome” é de algo mais profundo.

    E Lê, só para você saber, acompanho o chá-tice desde o comecinho e continuo curtindo demais seus textos <3 <3 <3
    É terapêutico pra mim também.
    Beijão

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  2. Julio Henrique Morimoto’s avatar

    Diferença não é uma coisa que você sente enquanto se faz. Para continuar fazendo, continue escrevendo e nunca olhe para trás.

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  3. Tiago Lobão’s avatar

    Vc é, foi e será importante na vida de muita gente. Inspirar pessoas dá um trabalhão e vc tem feito isso muito bem.
    Keep rocking, babe!

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  4. Maria Carmen’s avatar

    Por acaso sou prima de sua mãe, a quem muito amo e admiro. Por acaso só agora descobri seus textos e estou apaixonada. Fui professora de Português por quase 40 anos. Graças a Deus já esqueci quase tudo. Minha delícia agora é só ler. E seus textos são deliciosos. Têm a cara da sua mãe na nossa infância e adolescência. Bjos.

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  5. Luiza’s avatar

    Oi! É a minha primeira vez nesse blog. Descobri por acaso e estou devorando os textos. Me identifiquei muito, principalmente com o “Velha”, o “Sobre homens e meninas” e esse texto, agora. Nesse, eu tive que comentar: bah, me sinto bem assim!

    Não tenho a resposta, mas tu não está sozinha (nem eu) na pergunta. Acho que não acabou. Do ponto de vista (não muito otimista) budista, temos ainda doença, velhice e morte pela frente (eu sei, parece horrível). Mas, também temos esse momento, Agora, e podemos curtir ele.

    No fim, acho que a vida é mais sobre os outros do que sobre nós. Quero dizer, o que fazemos pelos outros, como contribuímos. De qualquer forma. Se somos parte do problema ou da solução.

    Mesmo que hoje, no meu caso, seja só lavar a louça e deixar a casa habitável, é isso que eu faço, por enquanto. E deixar esse recado aqui para te animar e te agradecer pelos textos.

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