{ Dia dos não-namorados }

Dirigia sozinha meio sem saber pra onde ir agora que ele tinha ido embora. Só queria voltar e não podia. Ele ainda estaria lá, mas não pra ela.

Agora havia outra, talvez mais bonita. Talvez mais inteligente. Talvez só alguém menos bagunçada por dentro. Era dia dos namorados e a vontade era ir aos restaurantes apagar todas as velas e cortar todos os balões de coração. Tacar fogo nos motéis. Estilhaçar vidros de floriculturas. Gritar que o amor não existe e vocês estão sendo enganados.

Enganados como ela foi. O amor é o engodo mais satisfatório que existe. Lembrou da forma como ele passava os dedos nas suas costas quando estavam juntos. Pensou em fazer a curva e parar em frente ao prédio dele só pra dizer o que devia ter dito antes. “Eu sei que você me avisou que não estava disponível, mas eu te amo” e ele que se virasse com isso. Nunca foi capaz. Era a primeira regra do não-relacionamento deles: ele não estava disponível.

Ela era do tipo que seguia as regras, mesmo que não gostasse. Então entrou no carro e foi embora sem nem chorar. Ela era do tipo que não fazia cena. Chorava sozinha no carro, enquanto dirigia e pensava em derrubar a porta do apartamento dele. E abraçá-lo e beijá-lo até que ele percebesse o tamanho do erro que tinha cometido. Gostava de acreditar que era possível voltar, ainda que soubesse que ela era uma péssima escolha.

Acabou na garagem de casa, meio sem coragem de entrar e olhar todas aquelas coisas que a fariam lembrar dos detalhes. Ah, os detalhes. Foi com ele que entendeu que podia ser mais feliz. Talvez não merecesse. Talvez fosse um castigo por todos aqueles dias dos namorados com caras que ela nunca amou. Foram tantos que quase achou que nunca poderia amar de verdade. Eles disseram que a amavam e ela respondeu. Só uma mentira inofensiva, pensava. Existe amor se só um dos lados é sentimento? Se o outro não é nada, então não é só um grande pedaço de dor flutuando entre minha casa e a sua?

Eles nunca chegaram a falar sobre isso. Agora havia outra, talvez mais corajosa. Talvez mais merecedora. Talvez ele esteja dizendo o quanto ama a outra nesse exato momento. Talvez a disponibilidade para um relacionamento fosse problema seu, não dele.

Ela entra em casa com a luz apagada, fecha a porta e senta no chão. É dia dos namorados, mas o amor não existe. Não mais.

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