{ Desabafando }

“Não tenho dúvidas de que ‘garotas direitas’ correm menos risco de abuso sexual.” – Rodrigo Constantino, na segunda revista semanal mais lida do mundo (sim, do mundo)

Deixa eu te contar uma história. Eu tinha 11 ou 12 anos. Tinha cabelo curto. Não usava maquiagem. Eu mal tinha menstruado pela primeira vez. Usava uma camiseta larga e comprida e uma legging, como toda boa adolescente que odeia seu corpo.

Tinha ido ver uma partida de basquete dos meninos da minha turma da escola nos Jogos Estudantis ou algo que o valha. Eu morava bem perto do ginásio de esportes, numa cidade com uns 100 mil habitantes. Morava num condomínio fechado e, pra chegar até ele, eu só precisava cruzar um terreno aberto e andar um quarteirão.

E foi aí que, com 11 ou 12 anos, passaram por mim dois meninos um tanto mais velhos que eu que me cercaram e me passaram a mão em todos os lugares. Todos. Deve ter durado uns 30 segundos, porque eu me debati e corri e eles não me seguraram, mas pareceu muito mais. Muito mais. Eu nunca tive tanto medo. Eu nunca me senti tão suja. Nunca.

Entrei em casa, tomei um daqueles banhos em que a gente esfrega tudo como se tivesse passado o dia pelado numa piscina de piche. Eu chorei. Eu não contei pra ninguém. Eu guardei isso lá num dos cantos escuros da minha cabeça porque, de verdade, eu não queria ter que lidar com isso.

Então surgiu a grande movimentação pelo “Chega de Fiu-Fiu”, que eu já falei aqui. E tem gente defendendo o direito de elogiar moças na rua. Quando eu disse que me sentia intimidada – talvez em especial por causa desse episódio –, eu escutei que eu não posso desconfiar de todo homem que passa por mim. Mas agora surge a pesquisa do IPEA sobre o estupro e tem gente (seriam os mesmos?) dizendo que eu tenho que saber que há muito perigo no mundo e eu não posso sair na rua usando decote.

Olha, tá difícil entender vocês. Eu poderia pensar “beleza, vou me enfeiar bastante e ninguém vai me encher o saco” (isso, claro, se eu acreditar na possibilidade que a maior parte das mulheres estupradas são lindas, gostosas e/ou arrumadas). Mas então essas mesmas pessoas vão dizer que eu tenho que me cuidar e me amar e ficar bonita, porque eu sou mulher e tenho que ter vaidade.

Eu sei que pode parecer difícil pra alguns de vocês entenderem, mas uma mulher não é um rolex que você exibe quando quer e guarda na caixinha quando não quer. Mulheres são mais do que isso – tem gente até que defende que elas têm tanto direito quanto os homens. Que coisa.

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Moça direita corre menos risco de abuso sexual: tenho uma amiga que quase foi estuprada pelo marido.

Moça direita corre menos risco de abuso sexual: um cara contando que, das últimas cinco vezes que pegou ônibus, viu dois casos de homens que propositadamente se esfregaram em mulheres. Dá-lhe gente sensualizando no transporte público, hein.

Moça direita corre menos risco de abuso sexual: mas isso não é culpabilizar a vítima, é só uma constatação sobre o mundo real. “Não estamos numa Suíça”, dizem. Se continuarmos a pensar assim, nunca estaremos.

  1. Lidix’s avatar

    Bravo! Bravo!

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  2. Hilger’s avatar

    Só pra piorar a situação: não são só mulheres adultas que são vítimas de estupro. Existem adolescentes, crianças, inclusive de quaisquer sexos.
    Não sei as estatísticas, só estou apontando que o negócio é pior, é mais embaixo. Não só a mulher com decote não está pedindo, como a criança não está pedindo, nem o adolescente não está pedindo, nem NINGUÉM está pedindo.
    Se NINGUÉM está pedindo, porque ainda acontece? De quem será que é a culpa?

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    1. Letícia’s avatar

      Pois então. O problema é que, além de ser uma opinião completamente tacanha, como eu disse no Facebook, é que é um puta desserviço. Como é que você espera que a mulher denuncie o abuso quando tem gente defendendo abertamente que isso não é coisa de “mulher direita” na revista mais lida do país? Não basta só a humilhação do abuso, ainda tem a humilhação de ser considerada “não direita”, seja lá o que isso for.

      Que bosta, viu.

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    2. Gabriela’s avatar

      Essa opinião não é por causa do decote ou da saia justa, ainda vivemos em uma sociedade machista. Isso é desculpa para o “homem de bem” exercer seu “direito” de concertar a mulher “promiscua”. Não é atoa que a grande parte da agressão ocorre contra a mulher (de qualquer idade) e os homens que sofreram esse tipo de abuso (em sua maioria) eram crianças, idade que não se distingue muitos traços masculinos.

      Enquanto não entendermos, isso independente do sexo, que ninguém tem direito sobre o corpo e vida de seu semelhante, nada vai mudar. O que começa com chacota de vídeo compartilhado tem chances de terminar na rua com uma agressão real.

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