{ Hoje não }

Olhava todo dia pra janela do vizinho. Aqueles dois tão felizes que dançavam juntos no meio da sala de vez em quando. Você deve saber quanto isso é difícil. Tirar pra dançar assim, sem música, alguém com quem você casou há oito anos. Eles riam usando pijamas, que é o traje mais maligno que alguém pode usar: de manhã, atormentando a falta de esperança do dia; à noite, carregando nos bolsos a folhinha de mais um dia insosso no calendário.

Os vizinhos eram felizes usando pijamas.

Nós não. Nós fomos soterrados pelas contas, pelos filhos, pelas noites em claro e até pelas noites felizes. Aquelas que continuavam prometendo uma felicidade que nunca desfez as malas, intimidada com a calcinha no boxe do banheiro. Nós tentamos nos levantar. Inventamos viagens, fingimos noitadas e nos arrastamos até aqui, de onde eu olho a janela do vizinho.

Nunca foi amor. Amor é o que enfrenta essa lerdeza toda de gabinete público e ainda tira o outro pra dançar no meio da sala. Eles nunca.

Sentiu falta das asas. De quando o telefone tocava de madrugada e ela ia se encontrar com ele. Queria os cigarros. Acordar sem saber onde. Quando a gente se apalpa tentando se descobrir vestido e está nu. Quando a gente olha pro lado, encontra o cabelo preto e entende tudo. Sorri, pra sair correndo em seguida, esquecendo um livro e arranjando uma desculpa pra voltar.

Fechou a janela. Não precisava, além de todo o resto, ver o vizinho erguer seus cabelos e beijar-lhe a nuca. Já não lembrava a cor da pele dela. Fez força pra tirar o gosto da boca. O cheiro desapareceu naturalmente, caminhando embora de braços dados com as tiradas engraçadas e os sorrisos abertos.

Sonhava com aqueles dias.

Queria os cabelos compridos que passavam por ele. A tempestade, porque liberdade não é feita de garoa. Como quando você reencontra o porre de anos atrás. Liberdade é beber como se não houvesse ressaca. Não há nada nesse mundo que não passe diante de umas aspirinas e umas idas ao banheiro.

Sentou na cama e amarrou os sapatos. Não se pode dirigir de chinelos. Que se dane. Desamarrou os sapatos e enfiou o dedão entre as tiras da sandália. O pé, esse oprimido. Sentiu compaixão. Venha que te levo pra um drinque no bar. Eu pago.

Entrou no carro, a janta na mesa. Às favas a carne magra, a salada de agrião e o arroz integral. Cento e noventa e oito dias de dieta e a promessa nunca cumprida de um coração melhor. Hoje não.

Hoje ia embora e não voltava mais.

Veja uma porção de queijo forte, meu bem. Não se preocupe, se esse casamento ainda não fez esse coração parar de bater, não há de ser o colesterol. Hoje não. Hesitou em telefonar, o fundo do copo lhe mandou ser macho. Não lembrava a data de nascimento da filha, mas ainda guardava o número daquela mulher de tanto tempo atrás sem precisar de anotação. Ligou.

Continuavam os mesmos. Dez minutos de completa inabilidade social e constrangimento indicavam que era um daqueles porres como os de anos atrás. Não sabiam conviver vestidos. Eles não sabiam nada um do outro.

Bebeu como se não houvesse quarta-feira, nem horário de expediente. E então os risos, as asas, os cigarros, os cheiros e os cabelos. O jeito que lhe lambia o espaço entre a boca e o nariz, limpando o bigodinho de suor. O resto não lembrava.

A mulher nua na porta. Não lembrava que ser livre era difícil e a primeira vez é sempre a pior. Passou na farmácia ainda tonto e comprou umas aspirinas.

Voltou pra casa no amanhã. Que se danem os vizinhos.

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