{ Como tudo começou }

– Vou te contar do começo.

– Sabe que já ouvi essa história umas mil vezes.

– Impossível, eu nunca te contei mil vezes. Então, foi aqui que tudo começou.

Ajeitou o corpo na cadeira e sacudiu os ombros. Tirou o maço de cigarro do bolso da camisa. Fez gesto pro garçom. Não sabe se ele viu.

– Lembro a primeira vez que botei os olhos nela: uma deusa tomando café enquanto coçava a pontinha da orelha, concentrada sabe lá em quê. Eu sentado naquela mesa ali, onde tá aquela velha com o carrinho. De costas pra mim, eu só via a penugem loira da nuca e o esmalte vermelho das unhas. Um vestido azul tão convidativo que a gente não sabia se tirava ou se enrolava nele.

A voz chegava a encompridar as sílabas da lembrança. Tinha esperança que durasse mais tempo. Achou que o garçom não tinha visto seu sinal e chamou de novo. Ele continuou.

– No dia seguinte, eu não resisti e voltei no mesmo horário pra ver se encontrava com ela. Pimba. Na lata. Opa, Arnaldo! Vê dois chopes aí.

– Dois sucos de laranja, Arnaldo.

– Já sou bem grande pra escolher o que beber, hein. Ele toma o que quiser, eu quero um chope.

Tirou um cigarro do maço e revirou o papel procurando o isqueiro.

– Você sabe que não devia fumar.

– Eu sei mais coisa do que você imagina e, acredite, não faz a menor diferença. Então, voltei no outro dia e ela aqui. Sentei atrás dela de novo. Jurei que ia casar com aquela penugem loira. Mas não tive coragem de falar com ela. Você não sabe quanto tempo eu demorei…

– Sei, doze dias. Eu disse que já conheço essa história.

– … levou doze dias pra eu conseguir falar com ela. Doze. Dia que ela não aparecia era uma tortura, achava que tinha perdido a chance pra sempre. Você sabe o que eles dizem: a gente só se arrepende das coisas que não faz. Levantei do meu lugar, desejei um bom dia e pedi licença pra sentar com ela.

O garçom chegava com dois sucos de laranja. Recebeu um olhar de reprovação. O outro agradeceu sacudindo a cabeça de leve e avisou:

– Não adianta discutir.

– Nem isso eu posso mais. Nem beber, nem fumar, nem discutir.

Botou o cigarro na boca e tentou o isqueiro umas cinco vezes antes de praguejar. Finalmente acendeu, e ele retomou o discurso.

– Vou te dizer: sempre interpretei essa frase do jeito errado.

– Eu disse que não ia discutir.

– Não é disso que eu tou falando. “A gente só se arrepende das coisas que não faz.” Eu achava que era importante fazer tudo que desse na telha. Acho que é um problema de semântica. Como é que alguém se arrepende se não fez? Não fazer é sonho, é perfeição, é a penugem da nuca e a orelha sendo acariciada pelos dedos de esmalte vermelho.

– E lá vamos nós…

– Na verdade, a gente tá sempre se lamentando pelo que deu errado, isso sim. Não importa se feito ou não feito. Esse negócio de “mas eu tentei” só serve pra confortar cagada que a gente faz. Eu nunca devia ter ido falar com aquela mulher. Nunca. Maior burrada da minha vida. Só tenho um arrependimento nessa vida: não ter ficado sentado naquele dia.

– Acho que tá bom da gente ir embora. Arnaldô, amanhã a gente volta!

Deixou o dinheiro em cima da mesa e fez sinal de positivo pro garçom. Os dois já levantavam.

– Se eu nunca tivesse falado com aquela mulher, sonhava com ela até hoje. A penugem loira, o esmalte vermelho e o vestido azul.

– Pai, você casou com ela.

– Por isso mesmo. Se nada disso tivesse acontecido, ela ia ser o grande amor da minha vida.

  1. Tiago Lobão’s avatar

    Amei. Amei.

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