{ Feminista, eu?* }

Eu nunca fui bonita.
Correção: eu nunca me achei bonita. Isso não fez de mim uma feminista, mas me fez perceber que mulheres têm mais a oferecer do que um corpo sarado e um cabelo bem cuidado.

Dei meu primeiro beijo com 11 anos, em 1992. Minha mãe disse que eu ia virar “vassourinha”, que passava de mão em mão. Tive o primeiro namorado com 15. Tive 8 namorados (com direito a título de namorado mesmo, de verdade – o que, segundo minha cunhada de 18 anos, é bastante). Saí com tantos caras que não me lembro o nome de alguns.

Eu sempre fui esperta. Aos 14 anos, um menino do colégio inventou que a gente tinha transado. Já me achei feia, mas nunca me achei burra. Negar fofoca nunca levou ninguém a lugar nenhum: eu contei, chateada, que desejava muito, mas na hora ele não conseguiu. Eu podia ser biscate, mas ele ia ser broxa.

Aprendi muito cedo que as pessoas podem dizer as piores coisas a seu respeito e que isso não faz a menor diferença. A atitude é tão perceptível que se reflete em respeito. Acredite: eu tinha notas ótimas, cabelo curto, era gordinha e usava óculos – e ninguém se metia comigo.

Eu cresci com preconceito de mulher bonita. Beleza e cuidado passaram a significar falta de preocupação com coisas mais importantes: uma vida, por exemplo. Morei sozinha durante seis anos. Eu saía, festava, bebia, trabalhava, pagava minhas contas, fazia uma segunda faculdade e eu consigo contar nos dedos de uma mão quem acreditava que eu ia me casar.

Nos idos de 2003, eu comecei a fazer terapia e me tornei feminista.

Tudo antes não era feminismo. Era um machismo ao contrário. Mulheres devem ter direitos iguais aos homens porque, antes de sermos macho ou fêmea, somos pessoas. Assim como negros, japoneses, islâmicos, espíritas, gordos, loiros ou feios. Mas, não, nós não somos todos iguais. E foi uma das maiores lições que eu tive nos quatro anos de terapia.

No lançamento do filme Sex And The City 2, os fóruns na internet desdiziam da modernidade do quarteto porque, no fim das contas, todas procuravam um marido. Eu prefiro dizer que elas procuravam o amor, assim como pelo menos 90% da população do mundo (numa estatística puramente inventada). Ninguém me disse que, na pretensão de ser moderna e independente, eu teria de ser sozinha. Eu, mulher moderna, não posso me casar. Eu, mulher feminista, não posso ter cabelo arrumado e não posso fazer a unha toda semana.

Hoje, o sexo feminino tem independência financeira, vota, usa anticoncepcional e eu realmente agradeço a todos (todas?) que lutaram para que esses direitos fossem alcançados. Mas não concebo que isso se transforme em dever, ou, ainda, que me retire direitos que eu já tinha. E se eu quiser me dedicar exclusivamente à minha família? E se eu não quiser trabalhar fora? E se eu quiser casar? Isso faz de mim uma pessoa que não acredita no poder, na inteligência ou na liberdade da mulher?

Lá na década de 90, o jogador de vôlei Tande se casou com a atriz global Lisandra Souto; ela deixou a carreira para cuidar da família. Eu me lembro porque horrorizei e maldisse umas sete gerações da pobre moça. Onde já se viu um negócio desses? Deixar a vida profissional por causa do marido? Nunca pensei na possibilidade dela querer aquilo. Não, eu realmente não era feminista.

A meu ver, feminismo é um conceito muito mais amplo, que permite às mulheres realizarem tudo aquilo que desejarem, não só porque são capazes – mas, essencialmente, porque as torna felizes. Sim, nós temos direito.

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*a Lola, do Escreva Lola Escreva, montou um concurso de blogueiras com o tema “A origem do meu feminismo”. Essa é a minha história.

  1. Carola’s avatar

    Ao defendermos a liberdade de se fazer escolhas, e não interessa qual será, mas apenas esse direito que todos temos, deixamos de ser sexistas, de defender gêneros, machismo e feminismo deixam de existir.

    O problema é, se é um homem defendendo tal direito, ele é chamado de machista. Se é uma mulher, ela é feminista. E tudo pela falta de compreender a finalidade do protesto. Não é uma causa de gênero!

    Muito bom o texto, Le!

    Beijos!

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  2. Patty’s avatar

    concordo.. gênero, número e grau… se for machismo rever seus planos para seguir seu amor até o outro lado do mundo, gostar que abram a porta do carro ou receber flores, eu sou muito machista… o feminismo nos trouxe a independencia de escolher o que queremos e como queremos ser felizes!

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  3. Fabíola’s avatar

    Boa sorte no concurso, muito bom o texto. Adorei!

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  4. Liber’s avatar

    Questões de gênero são delicadas. Já participei de grupos de discussão de gênero, com feministas assumidas, de carteira, porte de arma e permissão para matar. Essas moças sempre me pareceram profundamente ressentidas com algo e senti na pele esse ressentimento, quando um dia fiz um comentário “inocente”. Disse que, como eu moro sozinho, eu mesmo cozinho e lavo louça e tals. “Ah, mas então, se você tivesse uma mulher, ela é que lavaria a louça?!!!” E me descascaram.

    Com razão.

    Porque por trás dos discursos, do ressentimento, dos sonhos de casamento e tal, tem anos de um condicionamento cultural e social que desencadeia uma sutil, porém indiscutível, supressão de igualdades.

    Ser uma dona de casa, mãe, talvez agora esteja sendo considerada uma opção. Mas antes significava a única opção de sucesso de uma mulher. Ficar sozinha, sem filhos, significava fracasso. “Ficar pra titia”. E talvez ainda seja assim, pra muita moça por aí. Condicionamento serviçal? Sei lá, posso estar falando besteira, me desculpem…

    (E homens solteiros? O que são?)

    A verdade é que realmente não somos iguais. Pode ser que a camiseta do casamento fique muito bonita em algumas pessoas e em outras não. Pode ser que a gente ache outras camisetas, outras peças de roupa, que não são necessariamente melhores ou piores e que nos sirvam muito bem.

    Pode ser que o amor seja real e o casamento dure uma vida feliz. Ou o amor passe e tudo vire simplesmente uma situação de comodismo. Mais fácil continuar com alguém que já conhecemos e estamos acostumados do que termos que nos acostumar com nós mesmos de novo…

    Mas seja lá qual for a realidade, o que importa é no que acreditamos hoje, no que sentimos hoje, quem está ao nosso lado hoje e, principalmente, o que vemos quando olhamos pra nós mesmos.

    Amanhã, se for diferente, a gente vê o que faz.

    E quanto à você ser bonita…

    Afinal, você visitou a Biblioteca Nacional? É bacana? O acompanhante fica do teu lado enquanto você lê?

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  5. Clare’s avatar

    Só pra constar: sinto o maior orgulho de tê-la tido como colega de escola…

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  6. Cecília’s avatar

    Eu tb beijei com 11 anos e minha mãe tb disse que eu ia ficar falada, que não podia ser vulgar e etc. Hoje em dia penso que se eu tivesse sabido ser um pouquinho mais vulgar teria sido bem mais feliz na adolescência.

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  7. san’s avatar

    Já tinha lido, agora reli (como todos, sempre releio haha.. mto bons)..
    Adorei o texto…!
    E que venha logo o casamento da Tati pra conhecê-la pessoalmente..
    Vi um posto do Twitter.. “e que vire livro”.. concordoo.. comprarei vários, simplesmente AMO.. nada como uma Mulher que nos entenda e coloque tudo isso no papel! Perfeito!!! Bjos

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  8. Isa’s avatar

    Gostei muito da sua visão, Le! Concordo! O feminismo permite às mulheres realizarem o que querem porque elas têm direito, sim!

    Boa sorte no concurso!
    E achei engraçado o “Eu podia ser biscate, mas ele ia ser broxa”. Demais!

    Beijos!!!

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  9. Carolina Pombo’s avatar

    Oi! To lendo agora os textos do concurso e gostei muito do seu. A questão da liberdade é delicada, porque mesmo considerando que as mulheres podem querer abrir mão de uma carreira para seguir o marido, não podemos deixar de denunciar a pressão cultural para que tal “escolha” seja feita. É claro que você pode ser feminista e casada, mas se assim for, certamente fará escolhas distoantes da maioria. Por exemplo, ter um marido que está disposta a abrir mão da carreira estável numa grande empresa para seguir a esposa numa aventura acadêmica na europa pode soar absurdo para nossos padrões culturais. Uma mulher que espere isso do marido é então muito diferente daquela que nem sonha em construir algo próprio porque vai ter que acompanha-lo… Quando não se tem liberdade para sonhar e desejar algo autêntico, as alternativas são fruto das escolhas alheias, e às vezes, nem se dá conta disso.

    Boa reflexão!

    Beijos

    Responder

  10. Tati Reis’s avatar

    Feminista de araque que me sugere fazer um bolinho pro marido! hehehe
    Ele gostou!!!!! =)
    Thanks pela dica!!!

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  11. Tati Reis’s avatar

    Fui seguir o conselho da San e reli e quero fazer uma observação:
    Vc é bonita, tia!!!
    Onde já se viu que a clone da Tereza Collor seria feia…

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  12. Sil’s avatar

    Concordo com a Tati (2o comentário) e complemento: Miss Caloura não tem como ser feia!
    Beijão!

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  13. Lidiane Andrae’s avatar

    Leleca!!!! all we need is love! e ser feliz. Só isso. E se você se sente bem trabalhando, ou não trabalhando. fazendo ou não as unhas. porque se preocupar com o mundo. Sabe ´eigual a música “o mundo”: Se eu for ligar pro que é que vão falar não faço nada! porque a partir do momento que vc aprende a ser mesmo mais você, a parecem trilhões pra quere puxar o teu tapete, ma é só se segurar no corrimão, o tapete pode até ser puxado, mas vc fica firme, em pé e o que é melhor, segura do que é e do que te feito. o segredo é incomodar, mas porque vc é boa no que faz, seja lá o que faça!

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  14. Denise’s avatar

    O feminismo está na possibilidade de poder fazer o que realmente tá afim. Se é ser dona de casa, ok, vc tem esta opção! Quando minha irmã mais nova anunciou que o mais queria da vida era “casar com um marido rico e descansar”, quase morri! Ainda mais com o argumento ‘olha vc aí, só se ferra na vida!’ foi de matar! Mas enfim, a gente aprende, bate a cabeça várias vezes e sempre está buscando a felicidade. cada uma do seu jeito.
    =)

    Responder

  15. Mara’s avatar

    Oi Letícia!
    Sou a @marinha, que elogiei seu blog semana passada!
    tive que fazer um post sobre um texto seu, e linkei vc, segue o o link, ok?
    se tiver algum problema, me avise!
    http://mentequebloga.blogspot.com/2010/08/historias-sem-fim.html
    bjs
    Mara

    Responder

  16. Camilla’s avatar

    Passando rápido pra comentar esse post que me traz duas coisas importantes: concordo totalmente com voce: feminismo é reconhecer a igualdade, mulheres são pessoas. O que não significa ter que abdicar que desejos outros… escrevi sobre isso outro dia e agora que li aqui fiquei feliz com a coincidencia. http://wonderwoman-bra.blogspot.com/2010/08/pelo-direito-de-usar-clearheels.html
    Outra coisa: eu tambem fiquei absolutamente sem compreender na época a história da Lizandra… E veja só, eu tambem, tempos depois fui me dar conta, ela estava apenas exercendo um direito de todo cidadão: ESCOLHER.
    Adorei tudo.
    beijos

    Responder

  17. caso me esqueçam’s avatar

    “eu contei, chateada, que desejava muito, mas na hora ele não conseguiu. Eu podia ser biscate, mas ele ia ser broxa.” nossa, hahahahaha muito bom! porque era exatamente isso que eu faria. tou rindo aqui da coincidencia, porque juro pela minha mae que eu pensei nisso essa semana (porque minha irma me contou que tah namorando seu primeiro namorado e eu fiquei meio preocupada, achando o guri pudesse inventar uma coisa dessas pra cima dela) mas enfim, divago.

    gostei do post! eh tao dificil pra gente encontrar um equilibrio, nao? se se casa, eh a coitada submissa. se nao se casa, eh a infeliz que nao foi querida por ninguem. credo! dificil!

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  18. Yoshi’s avatar

    Adorei o post, mas acho que não partilho de suas idéias. :(
    O feminismo, assim como racismo é, por si só, um tipo de preconceito. Adotar um rótulo “feminista” ou “ativista da causa negra” demonstra exatamente o mesmo preconceito.

    O ponto é: somos iguais. Não em termos fisiológicos, mas somos iguais. Para mim isto se traduz em:
    1 – termos o direito a buscar a felicidade
    2 – temos o dever de exercer este direito.

    De fato devemos agradecer a todos que lutaram pelo direito a viver e ser feliz. Mas vale lembrar que isto se manifesta de várias formas. Eu, por exemplo, seria queimado em uma fogueira por ser canhoto. Curiosamente, mesmo resolvido este problema com a igreja, meu pai, também canhoto, foi obrigado a aprender a escrever com a mão direita – apenas mais uma faceta do preconceito.

    Orientação sexual, feminismo/machismo, preconceito racial e tantos outros são apenas diferentes manifestações da mesma coisa: Pessoas que se sentem no direito de impor a outros o que acha correto. E eu agradeço a todos que se manifestam contrários a isso em pequenas atitudes diárias, que são o que realmente fazem diferença.

    E eis porque descordo de você: o feminismo não é mais amplo. O que você descreve, embora voltado para mulheres, é direito de todos. Restringir a mulheres é favorece-las sobre outros.

    O feminismo que você chamou de mais amplo é algo que eu chamo de Humanismo e, ao invés de aplicar sobre as mulheres, eu acho mais correto aplicar a todos.

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  19. Nathália’s avatar

    Ai, meus sais! Você é “má” (mentira, é genial mesmo) e decidida… eu adorei! Texto muito divertido, de verdade! Esse concurso é 10, to lendo composições de gente inteligente e bem articulada… arrisco-me a dizer que isso tá melhor que chocolate!

    Responder

  20. Maris Stela’s avatar

    Letícia, conheci seu blog pelo Rubens… não sei onde escrever, pois queria comentar não sobre feminismo, mas sobre seu subtítulo… nada mais errado. Até onde li do que vc escreve, não vi nada sem sentido e muito menos que não faz diferença… faz sim!
    Não quero ser metida, mas… vc pensa mesmo que faz discussões sem sentido a respeito de assuntos que não fazem a menor diferença?

    Adorei seus textos e escreveria exatamente o que escreveu sobre… não exatamente o feminismo, mas sobre ser mulher e sobre – sobretudo – ser pessoa.

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  21. Laurinha’s avatar

    Amei o post muito bom… Adorei a provocação que você fez com o menino fofoqueiro aos quatorze anos, rsrs… aliás, acho que usar machismo contra homens machistas talvez é até uma arma pra ajudar a conscientizá-los e passarem a abominar conceitos machistas.
    Queria ter sido mais assim como você. Na adolescência eu era cheinha e permitia que algumas pessoas fizessem brincadeiras sem graça, porque não tinha auto-confiança na época e além de ser a gordinha, eu achava que ia ser isolada se revidasse… besteira isso, iam era me respeitar, mas não concluí isso na época.
    Eu adoro Sex and city, adoro a busca das quatro, cada uma quer algo diferente e à sua maneira e também acho que as pessoas estereotipam demais, querem colocar como apenas femininas, algumas coisas que podem se aplicar à maioria das pessoas, como a busca por um relacionamento legal, isso não faz ninguém menos feminista, é uma coisa humana, que algumas pessoas desejam e outras não.
    Adorei suas idéias, também acho que é bem por aí.

    Bjus

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  22. Patricia Scarpin’s avatar

    Fiquei feliz quando soube que vc tinha testado uma receita lá do blog, e agora mais ainda, pois assim pude descobrir o teu. Que delícia de leitura. Vc ganhou uma leitora nova. ;)

    Adorei o texto – também acho que um dos grandes lances do feminismo é poder escolher: se eu quero ou não pintar a unha não me fez menos ou mais feminista do que alguém que não pinta. Se eu pudesse optar por ficar em casa cuidando dos filhos e os educando – filhos esses que decidi não ter justamente porque não quero ser mãe de final de semana – ficaria mesmo. E não acho que isso me faria menos feminista.

    Beijo!

    Responder

  23. Norma’s avatar

    Nossa, Leticia, que perfeito.
    Isso da vassourinha, de ter atitude anti-machismo de um jeito não articulado como feminismo. Identifiquei-me absurdos.
    Obrigada

    Responder

  24. Gus Carvalho’s avatar

    mas voce é uma mulher exemplar mesmo, hein? parabéns :)

    Responder

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