{ Coisas pra contar }

Ele desliza os dedos pelo piano. Eu estudei piano quanto tinha lá meus oito anos ou coisa parecida. Aulas de piano clássico. Eu achava divertido, mas queria pular os livros de Leila Fletcher e sair tocando blues e jazz, como se soubesse o que era isso na época.

Eu sempre quis que as coisas fossem fáceis, e quando foram eu achei que não eram divertidas o suficiente. É por essas e outras que eu preferi pensar que amor é aquilo que dói, enquanto você se abraça numa garrafa de vinho e ouve as teclas do piano serem acariciadas. Aquilo que faz você chorar baixinho na cama, a cabeça entre os travesseiros enquanto se preocupa com o que os vizinhos vão dizer ao ouvir os soluços.

Que se danem. Amor é aquilo que entra como um saca-rolha bem no meio do peito pra levar um pedaço embora, especialmente quando esbarra com o bem-amado abraçado a alguém no meio da rua. Que faz amaldiçoar o vinho ter acabado e a música não. É Roberto Carlos cantando “a sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo”.

As grandes histórias de amor são sempre tristes. Não há roteiro que suporte a felicidade constante. E eu continuo ouvindo o piano e pensando que deve ser mesmo coisa de fazer dar tudo errado e ter sempre coisa pra contar.

Problemas são a minha especialidade – ao contrário do piano. Acho que “Danúbio Azul” foi tudo o que sobrou dos meus conhecimentos com esse instrumento de corda que é cheio de teclas. E é tão mais fácil ser triste…

Mas hoje cedo, escovando os dentes e ouvindo o piano, eu entendi. Pode ser que o piano não pare de tocar pra você me tirar pra dançar e a gente sair rodando por aí. Pode ser que o amor seja a gente andar de roda gigante sem nem chegar perto do parque de diversões. Sair assoviando na rua com as pessoas olhando e achando tudo muito esquisito.

De repente, amor não é aquilo que dói. Mas aquilo que faz feliz.

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Texto originalmente publicado em13/4/2008, quando este blog era hospedado no Portal RPC.

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