{ Carta ao Rubens }

Ele não me olhou e disse que meu texto era uma droga. Não era. Que a faculdade era dinheiro desperdiçado e que eu devia fazer outra coisa da vida. Não sei. Só uns três anos depois eu tive vontade de lhe acertar uma cusparada entre as sobrancelhas – naquele instante, eu só voltei ao meu lugar.

A gente cresce aprendendo o que não ser. Não seja chato com seu irmão, não mexa nisso, não seja preguiçoso. Seu texto não é bom, não use essa roupa na entrevista de emprego, não deixe verem que você é tatuada. O que não foi negado também não significa ser aprovado: aguarde e ouça que também não pode.

Eu acabei o curso; nunca ganhei um centavo com qualquer texto meu. Fui fazer outra coisa, ao lado de um monte de gente que escrevia. Eu só sabia o que não ser. Eu não era jornalista e não era outra coisa.

Quando você não é, existir não é uma coisa que faça sentido. E foi assim que a gente se encontrou. Eu já estava aqui, mas não assinava meu nome (eu não existia, você sabe). Primeiro, eu só via o muro. Depois, os prédios. Parece que sempre chovia e sempre fazia frio, enquanto ele fumava e eu falava. E aqueles lírios-da-paz atormentados.

Ia começar a publicar uma coluna às quartas em um jornal de segunda. Meu nome e minha foto. Ele me disse que já era hora de tirar o saco de mercado da cabeça.

É por isso que eu existo. Eu quase arrisco dizer que tudo que aconteceu depois é por causa dele. Na verdade, era só eu existindo.

Ao meu guru e meu gênio da lâmpada, o melhor de toda e qualquer existência.

___

Uma hora ele vai ter um texto melhor que esse. É só que eu tenho saudade.

  1. Liber’s avatar

    Bacana.

    Bacana mesmo.

    Sabe, eu acho que tem uma hora que a gente se liga que ocupa um lugar no mundo. A gente pode não desenhar tão bem quanto fulano, ou não escrever tão bem quanto beltrano, mas nem precisa. Esses caras já são eles mesmos, existem e não precisamos escrever como eles. Acho que é legal quando nos damos conta que no fim, nós somos os únicos capazes de escrever ou cantar ou desenhar do nosso próprio jeito. Quando a gente se dá conta disso, parece que tudo muda.

    Outra coisa engraçada e que a gente parece que não percebe é que vamos deixando nossas marcas por aí. Um texto teu pode alegrar o dia de uma pessoa que você nem conhece e talvez você nunca descubra isso. Acho isso muito mágico.

    Eu gosto muito dessa metáfora do saco de papel. Muito boa mesmo.

    Curti um bocado esse texto. Ele é honesto e despretensioso. Ele tá vivo. Inspira. Faz a gente sorrir.

    Não vá ficar convencida, hein?

    Responder

  2. Carola’s avatar

    “não seja convencida! mas também não seja simplória!” AAAAARRRRGGGGHHHHH!

    Será que um dia a gente acerta o meio termo entre o ser e não ser?!?

    Adorei, Le! Bjos.

    Responder

  3. Tati Reis’s avatar

    Ahhh o Rubens…
    Realmente parece que sempre chovia e fazia frio…
    E se aqueles prédios pudessem refletir a quantidade de coisas que eu pensei olhando pra eles.

    Tb tô com saudades do Rubens… e de vc, tia! =)

    Responder

  4. Lidiane Andrade’s avatar

    Ele se sentirá grato por isso, acredite. Amei o texto….

    Responder

  5. Isabela’s avatar

    Amei, amei, amei o seu texto. Me identifiquei muito com ele. E com os outros que continuo lendo… que delícia! Bj

    Responder

  6. Cecília M.’s avatar

    “ninguém nunca aprendeu nada sendo feliz.”

    Responder

Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *