{ Correspondência alheia }

Oi oi! Tudo bem contigo, tio?

Aqui tudo em ordem. Deve estar quase tão quente quanto aí. Mentira. Tem gente morrendo de calor aí na Europa – mas o povo morre por muito menos aí (gente chique, não pode ficar suando). Em compensação, a lua cheia daqui está de tirar o fôlego. Afe! Dá até vontade de parar no meio da rua e começar a uivar. Perdeu, perdeu. O Flávio até fez umas fotos dia desses, acho, mas eu não vi como ficaram.

Finalmente fui para o sétimo período do Cefet. O último de aulas. Parecia que não ia chegar nunca, credo. Contei minha idéia do trabalho de conclusão de curso pra professora de História do Design, que comprou fácil a idéia. Disse que, muito provavelmente, vou me ferrar fazendo. Tudo bem, sempre curti mais as coisas que parecem impossíveis. Veremos se começo com e-mails tímidos pra uma universidade lá em Havana – e espero que El Comandante resista até que eu vá pra lá…

Como está Paris? Torre Eiffel, croissant, cafés… já vi tudo. Bidê, maître, abajour, soutien, mon amour, ballet, tricot! Ah, não vou gastar todo meu francês com você. Mas estou aprendendo a fazer tricô, parece bom pra não pensar em coisas que não dá pra parar de pensar. O problema é que de vez em quando você esquece de não pensar e perde um monte de pontos, tem que desfazer tudo. Droga. Mas não desisto dos meus talentos domésticos, especialmente agora que aprendi a fazer arroz branco direito.

Tá, esse e-mail não faz sentido. Eu também não faço. É que já cantam os moços do Los Hermanos, “não te dizer o que eu penso já é pensar em dizer”. Que seja. Não ia dizer mesmo, mas pensei.

E só pra não dizer que eu não disse nada do que eu pensei: saudade de você.

***

Estou aprendendo a fazer tricô. Eu sei lá porque diabos. Talvez eu queira tricotar sapatinhos de lã pros filhos que eu não tenho. Só espero não acabar fazendo roupinhas pra cachorros.

Eu nem queria pensar nesse assunto. Mas, nos últimos dias, várias pessoas que eu adoro me falaram sobre o medo de ficarem sozinhas. Sobre a possibilidade de simplesmente não terem alma gêmea perdida no mundo. Ou, como disse uma amiga, “o homem da minha vida existe, só que está na Groenlândia. Estou esperando que ele derreta”. O meu deve estar junto – e é por isso que somos a favor do aquecimento global.

Tá, falando sério. Eu estou aprendendo a fazer tricô. E não vou me casar com o primeiro moço que eu possa apresentar à minha mãe, só pra provar que eu sou capaz de arranjar alguém. E que se dane o que as pessoas achem de mim.

Eu faço tricô, e isso me basta agora.

E em breve terei um cachecol pra usar ano que vem!

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