{ Fugindo da chuva }

Corre, corre, corre. Sai correndo pela cidade cinza que insiste em lembrar tanta coisa. Era uma noite como essa, só que mais quente. Tão cinza quanto. Tão vazia quanto.

“Você acha que dá pra esquecer tudo? Como se nada disso tivesse acontecido um dia?” Ela se manteve calada. Preferia acreditar que eram sonhos e pesadelos, revezando-se noite após noite na cama quente. E que uma hora acordaria, pronta pra descobrir que isso definitivamente nunca existiu.

Mas agora, corre, corre, corre. Debaixo de chuva. A luz do semáforo ilumina os pingos de chuva. Luz vermelha, para lembrá-la que é preciso parar. Mas ela não pára. Corre o mais rápido que pode, antes que a chuva a alcance. A música toca na cabeça, o tempo todo, num looping infinito. A música que ela ouviu naquela noite, tão cinza e vazia quanto essa – só que mais quente.

Foge, antes que as memórias a alcancem. Não quer ser inundada por essas lembranças que, como a chuva, correm atrás dela.

“A questão, minha cara, é que razão e sentimento são opostos. Isso você sabe, e todos os teóricos concordam. Você pode até decidir o que fazer. Mas não há como fugir do que aconteceu.” Não há. Ótimo. Então o esforço todo é à toa?

Continua a correr. Escuta, agora, o apito do trem. Vem em direção a ela, de maneira que ela não pode impedir. O som se mistura à música que não toca em nenhum lugar, a não ser dentro da cabeça dela.

Ofegante, o coração saindo pela boca. Encontra pelo caminho um realejo. Um palhaço, um malabarista. Que diabo é isso no meio do caminho, em plena noite cinza? Corram, a chuva vai pegar vocês também. Não estão vendo?

Corre, corre, corre. Quer chegar em casa, se enrolar na manta e tomar um café quente, como se nada disso nunca tivesse acontecido. Antes que a chuva chegue. Antes que as lembranças a peguem de jeito e a arrastem como numa correnteza para um lugar onde não há como se apoiar.

A luz amarela em sua direção. A chuva logo atrás. O semáforo vermelho pisca, alternado, indicando que vem trem por aí. O apito ensurdece, a chuva logo atrás. Corre, corre, corre. Não pode parar, ou a chuva a alcança. Um pé no trilho, a luz do trem na cara.

É preciso parar, antes que o trem passe por cima. Ela arrisca e aumenta o passo. Antes que consiga alcançar o outro lado do trilho, o palhaço a puxa e ela fica. A um palmo do trem. A chuva a alcança e ela ouve um estrondo.

As lembranças. Atropeladas, moídas no trilho. Ela senta, ao lado da ferrovia. O palhaço, aquele que é o mais triste dos seres, sorri pra ela – que, tão triste quanto, retribui.

chuááááá…

Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *