{ Sobre mudanças e aprendizados }

Sempre achou que sua estação preferida fosse o inverno. Até se mudar para uma cidade onde, diziam, era inverno sempre. Dias frios e cinzas. Pessoas cinzas e frias.

Pensou que sua cor preferida era o preto, até que um dia começou a usar verde. E azul. E agora gosta muito do rosa. E pintou as paredes do apartamento de cores bizarras, como verde limão. Seu estilo de música preferido era a MPB das antigas, bossa nova, aquela galera legal como Baden Powell, Carlos Lyra, Vinicius de Moraes e Tom Jobim. Hoje, apesar de continuar gostando dos caras, descobriu que curte mesmo é indie rock. Mesmo que cometa deslizes e se pegue ouvindo muita música ruim, de vários estilos, só porque a faz sorrir.

Aprendeu que sabe fazer uma mudança de tom na música do Los Hermanos que deixa o companheiro de trabalho dela com inveja, mesmo que não seja lá muito afinada. Mas já perdeu a vergonha de sair cantarolando no meio da rua, mesmo que a chamem de maluca.

Pensou que as pessoas cinzas e frias da cidade onde morava eram todas assim – cinzas e frias. E descobriu gente vermelha, colorida, quente e pulsante. E se apaixonou por várias delas. E até por uma delas, várias vezes – mesmo que ele, como ela, também não fizesse parte da fauna natural da cidade.

Iludiu-se achando que era capaz de esquecê-lo só porque ele foi parar muito longe. Mas não, ele continua lá, ocupando aquele espaço dentro dela. Aprendeu a dar valor às intuições e descobriu que se ferrar faz parte do processo de estar viva.

Durante toda a vida, sempre procurou paz e sossego – e, quando encontrou, morreu de tédio. Mas limitou o tamanho das encrencas em que entra hoje, porque ainda existe aquela encrenca-mor que ocupa uma boa parte da vida dela. Mesmo que tenha aprendido a fingir que não.

Caiu a ficha de que nasceu pra ser livre e se prometeu não fazer mais o que vai contra seus princípios, só pra satisfazer alguém. Aliás, provou a si mesma que tem princípios, quando disseram a ela o contrário. Teve a certeza de que a alegria das coisas existe nas menores coisas, mesmo que seja a comicidade das situações em que se mete. Porque, quando a vida é como um seriado enlatado americano, é fundamental aprender a rir – mesmo quando se acorda com o olho inchado, igual a uma bola de tênis.

Não tem mais vergonha das coisas que faz, mesmo que não sejam tão boas quanto gostaria. E se orgulha do que faz bem-feito. Só continua sem responder aos e-mails atrasados (viu, Reynaldo?), mas jura que vai dar um jeito nisso logo.

E, mais que isso tudo, aprendeu que nada disso realmente importa. Porque, amanhã, tudo vai estar diferente mesmo…

(talvez por isso ainda espere que as pessoas mudem…)

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