{ Paredes }

O cimento da espátula percorre o tijolo. Aquele som tão comum, que eu ouvia tanto quando criança. Filha de engenheiro civil assim, vez ou outra ia acabar na obra.

Diversão era apelido. Brincar nos montes de areia, se esconder nas construções inacabadas, papear com os pedreiros. Sim, os pedreiros, esses que são seres únicos na sua maneira de ver e viver o mundo. Mesmo quando se é criança, é fácil notar que eles são diferentes.

Lembro do cheiro das marmitas, das montanhas de pedrinhas, das roupas imundas na volta pra casa.

Depois de grande, o som continua trazendo todas as lembranças. De tudo que foi minha infância, de tudo de bom que eu vivi, de todas as molecagens e artes que fiz – segundo a própria moça que cuidava que cuidava de mim e que eu reencontro agora, uns 15 anos depois.

Só que agora as ocasiões são tristes. O som do cimento sendo alisado, hoje, vem de mais perto do que eu gostaria. Logo à minha frente, quem maneja a espátula e ergue a parede não é um dos pedreiros que tanto me divertiram. Hoje, a parede erguida me separa para sempre, fisicamente, do meu avô.

Mas as lembranças, essas nunca serão esquecidas.

Levantadas ou derrubadas…

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