{ É Carnaval }

Uma máscara. Era assim que ele se definia a quem perguntasse (não que alguém efetivamente o fizesse). Como se todos os dias fossem Carnaval, como se a fantasia fosse roupa de civil, de todo dia, de ir ao trabalho, à feira e ao cinema.

Vestia sua roupa de pierrô, com lágrima escorrendo no rosto e sorriso rasgado na cara, e ia interagir naquele grande baile de máscaras chamado mundo. Ninguém parecia se incomodar com a fantasia alheia. “Cada um é o que aparenta ser”, era a regra. Fazia todo o sentido encontrar Cleópatra na fila do pão ou o homem das cavernas no bar. Eram máscaras, e nada mais. Para levar a existência de forma que ninguém se perguntasse o porquê.

Mas Drummond estava certo e tinha uma pedra no meio do caminho. Naquela manhã – que ele não se lembra se era de sol ou de chuva –, alguém parou em frente ao pierrô e o olhou nos olhos, por trás do disfarce. O palhaço, que a mim sempre teve um quê de triste com sua obrigação de rir e fazer rir o tempo todo, gelou. Dentro dele, todas as lágrimas disfarçadas corriam livremente, como num rio.

(No silêncio completo da noite, era possível ouvir o murmurar desse rio que corria dentro dele, quando a máscara finalmente ficava jogada no chão do banheiro. Durante o dia, carros de som, buzinas, ônibus, gritos, televisão, nunca ninguém era capaz de ouvir o som das lágrimas que o percorriam.

Nunca, até aquele momento.)

Arrisco dizer que, por alguns segundos, o rio dentro dele parou de correr. Alguém se dignou a transpor aquela barreira que o protegia do mundo.

“Por quê?”. Foi só o que disse, para sumir entre aquele estranho baile de máscaras. O pierrô não lembra de ter visto fantasia, mas preferiu acreditar que aquele ser era um anjo (como preferiu acreditar que todos os responsáveis por fazê-lo tão triste eram demônios).

Era mais fácil acreditar num cotidiano fantástico, onde todos têm papéis bem definidos; o canalha, a pervertida, a santinha, o vagabundo. Todos sabem do que são capazes – e o pierrô sabia o que esperar de cada um deles.

(Nesse mundo repleto de máscaras, a definição do que somos se torna elemento vital e facilitador.)

Alguém quebrou a barreira e encontrou o homem por trás do palhaço. Ficou a pergunta. “Por quê?”

Decidiu se despir ali, no meio da rua. Não fosse o pierrô e fosse um nu. Um maluco no meio do baile. Não seria mais o palhaço. Não, isso não. Seria o que procura a pessoa por trás da máscara. Que faz a música parar por um segundo, para olhar nos olhos de outro e perguntar: por que?

Alalaô ooô ooô…

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