{ Uma história sobre varais }

Num domingo à noite, Café do Teatro, conversavam sobre qualquer coisa que ela não lembrava. Estava há um bom tempo olhando pela janela. Fundo de um prédio de apartamentos, um varal. Ela tentava identificar as peças. Não conseguia, estava muito longe. Um pedaço de pano vermelho chamava a atenção, grande demais para ser uma calcinha, muito pequeno para ser uma blusa.

Tentava descobrir. Um lenço de homem? Uma camiseta de criança? Não sabia dizer. Engoliu a vergonha e confessou: olhava varais alheios.

Existem vários meios de se observar pessoas. Ela gostava de todos eles. Quando mais nova, lia a “Comédia da Vida Privada”, de Luiz Fernando Veríssimo, e criava todas as cenas na sua cabeça. Até que viraram episódios na televisão, e ela confrontava sua versão com a exibida. Era uma apaixonada por olhar a vida dos outros.

Ele falou na possibilidade de revirar o lixo – o que a ela parecia muito trabalhoso, mas a técnica foi usada em uma das histórias de Veríssimo. Varais eram tão mais práticos. Diziam quem morava naquela casa. Se usava meias coloridas, esportivas ou sociais. Se havia crianças. Se as cuecas eram furadas, se as calcinhas eram grandes.

Sempre teve a mania de olhar os outros. Uma das maiores diversões era andar olhando pra cima. Deviam achar que era uma maluca. E daí? Descobriu bananeiras nas coberturas do Rio de Janeiro. Viu pessoas normais vendo tevê no início da noite. Gente lendo na sacada. Muita gente fumando nas janelas.

Aliás, tinha descoberto que fumantes também gostavam de observar outras pessoas. Porque sempre que tinham que fumar na janela, acabavam exercitando seu lado voyeur de viver a vida. Eram os fumantes que a enxergavam dentro do carro, quando ela, parada no sinal, procurava sinal de vida nas janelas dos prédios. Os únicos.

Ela não fumava. Mas gostava de olhar pessoas. E adorava varais. Ele disse sobre uma exposição de fotografias que tinha varal como tema. Várias fotos, panorâmicas. Grandes varais, repletos de possibilidades.

Mas ele não pensou nisso, só viu as cores e achou bonito. Uma pena. Ela teria criado uma história para cada foto. Com cenas de amor e ódio. Roteiros complexos, cheios de tramas. Mesmo que fossem só pessoas com o cotidiano mais comum que se pode imaginar.

E qual seria a graça em imaginar que todo mundo leva uma vida besta?

Pegou o copo de cerveja e tornou a olhar o varal. Talvez o pano vermelho fosse só um guardanapo. Ou um lenço de pirata usado naquela festa à fantasia, quando se beijaram pela primeira vez. Quem sabe?

Ou então…

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