{ A tortura telefônica }

O telefone às vezes nos faz mal
E sem querer acaba uma paixão
Eu me chamo Zé, pois é, fiz a ligação
E ela disse “alô, João”
(Baden Powell)*

Ela esperou muito o telefone tocar naquela noite. Na verdade, conseguiu segurar os instintos por umas duas horas, quando tomou banho e dormiu esperando que ele ligasse. O relógio insistia em fazer andar os ponteiros e o telefone insistia em continuar mudo.

Reorganizou tudo pela quinta vez. Deitou na cama com o cuidado de não amassar a roupa recém-passada. Ficaria ali, esperando. Porque ele ia ligar em breve. Ele prometeu, ela acreditou.

Estava tudo pronto. O vinho, o incenso, a roupa, a cama. Tudo planejado. Ela ficou ali, ao lado do telefone. Pedindo pra ele tocar. E então ele chegaria e eles teriam a mais agradável e inesquecível de todas as noites.

Mais quarenta minutos e nada dele. Ela começava a escorregar na cama, e a roupa começava a amassar. Mas é claro que ele ligaria. E então ela passaria a roupa de novo e faria o retoque na maquiagem e no perfume. Porque ele só deve ter se atrasado. Nunca a deixaria esperando tanto tempo. Ela cochilou. Mas só por uns minutos. Uns 17 minutos.

Acordou e viu a cara de sono no espelho. A roupa amassada. Achou melhor ficar acordada e fazer alguma coisa que a animasse. Tudo em seu devido lugar, só faltava o telefone tocar. Ansiosa, tamborilando os dedos no móvel, olhando aquela invenção fantástica de Graham Bell.

Ela começava a acreditar na intuição que teve de manhã. Ai dele se não telefonasse. Ela o picaria em pedacinhos. E ele teria a pior noite de toda a vida.

Mais meia hora, ela manda uma mensagem no celular dele. Ele simplesmente não responde. Ela inventa uma desculpa qualquer para o silêncio, porque realmente queria acreditar naquilo tudo. Queria continuar acreditando nele. E nela, em especial.

“O homem planeja, e Deus ri”.

Era isso, naquela hora Deus devia estar rolando de rir no chão do céu. Era um homem também, o maldito. Esperou mais 20 minutos e desistiu. O telefone não tocaria. Ela maldiz toda a raça humana do sexo masculino. Pensa na grana toda, na produção.

Furiosa, pensou em quebrar a garrafa de vinho – aquele maldito vinho – na cabeça dele, caso ele se desse ao trabalho de telefonar. Achou melhor não devolver a cama aos gatos ainda. Antes afastados para não presenciarem uma noite de amor, agora eram poupados de uma possível cena de tortura e assassinato.

Recebeu uma mensagem no celular desmarcando tudo à 1h15 da manhã. Desligou o aparelho. Desarrumou a cama, abriu uma garrafa de vinho e foi ver “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”. E jurou nunca mais esperar o telefone tocar.

*porque não é de hoje que telefones são instrumentos de tortura…

Riiiiiiiiiiiing!

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