{ Eu tô falando de amor }

“Mas são tão loucas as coisas que fazemos para ser felizes, que amar deve ser só mais uma delas”.

Elas conversavam. Porque realmente não dava pra viver ao lado de um bêbado o tempo todo. E eu ainda sou muito nova pra agüentar tudo isso, credo.

Eram três mulheres na mesa. Duas taças de vinho, uma bandeja do McDonald’s. Alternavam-se na discussão a mais velha e a mais nova. Com relacionamentos amorosos recém-terminados, falavam sobre os ex-namorados – mesmo que para se convencer da escolha que tinham feito.

Falavam de família. De filhos, marido, morar junto.

Uma das mulheres, naquela mesa, não conseguia acompanhar a conversa. Pensava no quão longe é do outro lado do Atlântico. É longe o bastante para esquecer alguém? Ou só o suficiente para querer estar muito mais perto do que se está?

Perguntou-se o que ia acontecer agora que a distância entre eles realmente ia existir. Durante todo esse tempo, mesmo quando afastados, eles sabiam que podiam se encontrar a qualquer momento – desde que os dois concordassem com a idéia.

Ah, porque não dá pra agüentar essa proximidade toda. Morar junto é um saco. Chega uma hora em que você passa em frente à pessoa quinze vezes e ela nem percebe. É como se a gente fosse mero objeto de decoração, sabe como? A mais nova concordava com a cabeça.

Na verdade, a que só ouvia a conversa não sabia. Sempre que se encontraram, tudo o que nunca aconteceu foi nada. Sempre foi intenso demais – e, por isso, talvez, nunca tivessem um relacionamento nos moldes usuais.

Eu não quero gostar de ninguém, agora vou cuidar só de mim. Só quero caras que me dêem tudo o que eu preciso, amor, carinho, cuidados. “Homens de verdade, sabe como?”, dizia a mais nova. A mais velha concordava.

A outra, sem dizer palavra, lembrou que seu homem de verdade era um menino. Com idade e emprego de gente grande, mas só um moleque. E era o que ela mais gostava nele. Aquela irresponsabilidade responsável, de quem sabe quando pode enlouquecer e quando tem que seguir o caminho certo.

O vinho acabou. Sobrou o milk shake de baunilha. Vamos fazer compras? Preciso me presentear, me reerguer. Acabei de sair de um relacionamento, eu mereço!

Vamos.

Enquanto a mais nova e a mais velha olhavam botas, a outra decidiu. Se não achar nada que acabe com esse aperto no peito, aproveita e compra uma passagem pra cruzar o Atlântico.

Arram…

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