{ Três sílabas }

Tudo que eu disser vai parecer drama. E não é, ainda que pareça.

Ele chegou num sábado, sorrindo pra mim enquanto eu descia as escadas. Era diferente do que eu esperava. Não sei dizer como, mas era. Talvez mais vivo, talvez mais doce. E, sem dúvida, bem mais quieto.

Mas não foi naquela noite que ele me conquistou. Nem na seguinte. Mas uma semana depois, enquanto eu amaldiçoava a resistência do chuveiro e lembrava dele dizendo “deixa eu cuidar de você?”. Ele me entendeu muito rápido. Percebeu muito cedo que eu não faço sentido.

Eu fiquei no colo dele algum tempo, o suficiente pra me sentir aconchegada durante uma vida inteira. Ele diz que nunca mais eu fui tão frágil. Talvez ele nunca mais tenha percebido, não sei avaliar. Porque eu sei ser forte e consigo fingir ser forte, e ninguém acredita quando eu caio.

Ele se ofereceu pra fazer o que há muito tempo ninguém faz: cuidar de mim. As pessoas sabem que eu sou forte. Sabem que eu não preciso de ninguém. Ninguém quer a árdua tarefa de cuidar de alguém que não precisa ser cuidado. Ele entendeu. Não sei como, mas entendeu. Ou eu achei que tinha.

E quando ele me olhava, era como se eu sorrisse. Eram dois olhos verdes me olhando – e depois brigando comigo porque eu não falava, justo eu – e ele não era capaz de entender que aquilo me desconcertava. Do mesmo modo que eu não consigo entender, mas ele achava que eu o intimidava. Coisa demais junto. Acabávamos os dois olhando um pro outro. E, mesmo que eu sorrisse, nem sempre existia um sorriso de volta. Eu devia saber.

Sempre gostei dos braços. Fortes. Era tudo o que eu precisava, alguém capaz de me segurar. De amparar tudo o que eu sinto, mesmo que ele não saiba o que é tudo. Talvez nunca tenha sabido. E gostava de despentear o cabelo dele, só porque ele é sempre tão arrumadinho. E de rir quando ele ficava sério e brabo. Ele nunca me entendeu, eu penso agora. Ou resolveu misturar tudo. Não sei. Eu nunca soube nada sobre ele. Ele sempre foi muita imaginação. Talvez muito sonho. Precisava haver alguma coisa errada.

Em algum momento, alguma coisa que eu não sei o que é aconteceu. E eu vejo agora que eu não sei de mais coisas do que eu imaginava. Ele deve estar certo e eu realmente não sei de nada. Ele cozinhou pra mim. Riu comigo. Eu juro que fiz o que pude, mas eu não sei conviver com esse silêncio todo. Eu não sei falar sobre o que faz ciranda na minha cabeça e não ouvir nada de volta.

Em vários aspectos, ele era diferente do que eu considero homem ideal. E encaixava perfeitamente em outros. Somos tão diferentes… tão diferentes que seria difícil imaginar que nós dois estivéssemos juntos.

Vai ver é por isso que não estamos.

Update:

Gracias a Maga e Lu, pela super revisão que eu fui incapaz de fazer.

Não que eu não queira….

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