{ De amores e galochas }

Eu não sei o que eu estou fazendo acordada a essa hora. Não é tarde e não é cedo. E eu cogitei voltar a dormir.

Mas ele vem, me pega pelo braço e me traz até aqui. Pra não fazer nada, ficar aqui e esperar por ele, que é só o que eu tenho feito desde que eu conheci – mesmo que eu finja que não. Os dias de janeiro têm sido muito cinzas. E sempre me trazem o calor dele, com todas as cores. Cores demais, às vezes. Culpa demais. Sorrisos o tempo todo.

Mesmo que eu trema do pé à cabeça ao lado dele. E que eu não saiba muito bem o que fazer – ou saiba tão perfeitamente que qualquer outra atitude pareça completamente sem sentido. Eu fico parada olhando, pensando em tudo. Pela janela, a razão acena ao escorregar pra dentro dos bueiros, junto com aquela água toda. Se despedindo. Ele me traz aqui só pra lembrar dele. Pra sair da caixinha onde ele dorme quando eu tenho paz.

E quem diabos quer paz? Eu quero a pele, os dedos, os cabelos. O cheiro e o gosto. Às favas esse negócio de serenidade.

Chuva e garoa, por dias inteiros. Eu penso em comprar galochas. Pela primeira vez em muito tempo, eu não tenho nada a perder – a não ser meu tempo. E eu já gasto meu tempo cinza em coisas que valem tão menos a pena. Quando até a gata resolve me atacar, mais arranhões parecem fazer todo o sentido. Talvez você não entenda. Talvez goste da sua vida comum, com dias comuns, cheios de calma e sossego. Eu sou contra o sossego. O meu e o seu.

Porque se é pra chover, então eu quero estar ali fora e pegar a chuva toda. E que se dane o resto todo.

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