{ Vida fitness }

Deu de correr. É assim agora: acorda, toma café e vai. Os joelhos, sempre podres, tendem a piorar. Ela não liga, corre.

Começou pra provar que podia. Mais uma das tantas coisas que a teimosia a levou a fazer. Queria mostrar pra ela que era capaz. Dar um passo adiante. Dar vários passos. Rápidos. Cada batida do calcanhar no asfalto era um sofrimento e um alívio. Os joelhos ardiam, a respiração ofegava. Mas continuava, porque tem gente que prefere chamar teimosia de perseverança.

E era assim que os dias começavam: com dor. Não seria diferente de alguns outros dias, quando não saía da cama. Chegava em casa destruída, encharcada e sorrindo. Superar os próprios limites faziam dela alguém que podia tudo. Como se tudo sempre dependesse só dela, o tempo todo. E, por ser teimosa, queria ser capaz de fazer tudo sozinha.

Então corria. Pra escapar do que não dependia dela. E a corrida virou uma fuga desesperada, pra não pensar nos mortos-vivos que acham que a vida dela é cemitério de filme B. No que atordoa quando ela tem que responder se está tudo bem. Está tudo bem demais, e isso assusta. Talvez fosse mais tranquilo quando a desgraça estava feita.

As árvores, as pessoas. As casas. A velhinha sentada na varanda. O cara consertando o carro. Com o tempo, decidiram se mover e correr, enquanto ela ficava parada. As coisas passavam por ela, e, embora ainda ouvisse o barulho do pé no asfalto, estava parada – era a sensação que tinha quando calçava o tênis e saía. Ia flutuar e já voltava. Mesmo que às vezes doesse. Que o joelho insistisse em se fazer notar. Que a perna falhasse uma pisada de vez em quando.

Mas ninguém te julga quando você é uma pessoa que flutua. E agora ela corre só pra sorrir depois.

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