{ Pode ser que nunca mais }

“Quero uma chance de tentar viver sem dor”. Mudou a estação do rádio. Era um dia daqueles comuns, com o espaguete cozinhando na panela enquanto ele, sentado no balcão da cozinha, tomava uma taça de vinho vigiando a massa. Em que não queria pensar em nada, pra não se lembrar dela. Nem que estava sozinho. De novo.

A verdade é que tinha, lá no fundo, a esperança de que ela aparecesse como quem não quer nada. Com seu cheiro de banho recém-tomado e o frescor das manhãs de outono, que finalmente pareciam ter chegado. Trazendo o sorriso que ele tanto queria ver e mais uma garrafa de vinho.

E seria mais uma daquelas tardes que se arrastavam até a manhã do dia seguinte, em que eles se enrolavam um no outro o dia todo, ouvindo B. B. King, Lenine e Seu Jorge. Sem fome, “matando a sede na saliva” (sim, também ouviam Cazuza).

Mas ela não foi naquele dia. Nem no seguinte. O macarrão deu a passar do ponto, e o vinho virava vinagre assim que era aberto. “Eu sei que parece muito estranho, meu sonho resolver me abandonar”. Amaldiçoou as traduções de Seu Jorge sobre as músicas do Bowie.

Não era a primeira vez que ficava sozinho. Para ser sincero, já tinha se acostumado, até o dia em que ela surgiu. Em que eles se olharam e sabiam o que ia acontecer, sem que nenhum dos dois dissesse palavra. Foram dias felizes, mas que nunca voltariam a se repetir.

Ele nunca mais ouviu o toc toc dos passos dela no corredor.

Nunca mais sentiu o cheiro dela. Aquele cheiro que lhe dava vontade de arrancar a roupa dela em qualquer lugar, fosse na cama ou entre as prateleiras de enlatados do supermercado.

A risada alta, que ele gostava tanto, mesmo que às vezes sentisse vergonha da atenção que ela chamava em qualquer lugar.

Os olhos pretos e grandes, que sorriam sem que ela precisasse mexer os lábios.

Nunca mais a ouviu gemendo enquanto se espreguiçava pela manhã, nem enquanto faziam amor. Nem as reclamações sobre as piadas sem graça que ele fazia, ou a manha que ela insistia em fazer nos dias de tensão pré-menstrual.

“E vem o sol fazer ficar tudo bem”. Vários dias de sol vieram, mas ela não voltou a fazer parte da vida dele – a não ser nos sonhos que ele tinha, acordado ou dormindo, durante todo o dia. Durante todos os dias em que ela esteve longe dele.

Ele decidiu que precisava ter com ela.

Passou na floricultura e comprou as flores do campo mais bonitas que encontrou. Eram suas preferidas: simples, mas capazes de alegrar uma vida toda. Como ela.

Perguntou ao porteiro onde ele poderia encontrá-la. Rua C, quadra dois.

Parou em frente ao túmulo. Deixou as flores e pediu desculpas por deixá-la ir. Agora estavam os dois sozinhos.

Post mortem:

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