{ Ouvindo a conversa alheia }

Não é bonito, eu sei. Nada bonito, como diria minha mãe. Mas o fato é que escutar a conversa dos outros pode não ser educado, mas muitas vezes é bem educativo. Ou, na pior das hipóteses, divertido.

Ela entrou no ônibus e fez questão de sentar próxima a um casal de namorados um pouco afastados. Com experiência no ramo de prestar atenção no papo alheio, sabia que namorados melosos raramente rendem mais que um “ah, amor, eu te amo”, “meu biluzinho lindo” e “oh, vou ficar com saudade essa meia hora sem você”. Gostava dos que estavam de cara virada, porque significava uma daquelas discussões de relacionamento extensas, com argumentos furados e entretenimento pra quem escuta.

Ficou lá, esperando. E nada. Nem uma só palavra. Tinha vontade de se virar e pedir para que conversassem e resolvessem os problemas, “onde já se viu um casal tão bonito assim, brigado”. Os dois se levantaram e desceram no ponto seguinte. Nem um beijinho. A coisa devia ser séria.

O lugar logo foi ocupado por duas senhoras muito faladeiras.

“Ah, e viu que o Seu Ademar faleceu, coitado?”.

“É verdade, um homem tão bom…”.

Pausa. Uns dez segundos de silêncio meio incômodo, a última continua: “é, mas eu ouvi dizer que ele tinha um caso com a moça que serve lá no bar, será que é verdade?”.

“Ah, eu acho que é, sempre percebi que ele ficava olhando demais pras reboladas dela”.

“Coitada da Dona Judite, um homem safado desses dentro de casa.”

“Coitada nada, agora ele morreu mesmo! Bem feito pra ele.”

Em pé, junto à janela, duas meninas por volta dos 17 anos.

“Mas é um cachorro mesmo. Ai, se eu pego! Eu mato!”

Observando a cena, ela se perguntou se as meninas novas também conheciam o Seu Ademar. Mas depois pensou que não, afinal, esse agora estava falecido e já era poupado o esforço de matá-lo.

Ela olha pra frente. Entra no ônibus um homem por volta dos 30 anos, camisa e calça social. Conversa com um rapaz pouco mais novo, por volta dos 25.

“E isso tudo é coisa do diabo! Que a mulher que tem Satanás no corpo atenta o homem, que tem que ser bravo e resistir. Mas a culpa é dela, em primeiro lugar, porque instiga a luxúria num homem sério e trabalhador.”

Pronto, até advogado o falecido Seu Ademar já tinha achado. A culpa era da moça do bar, veja só. Aquela provocação ambulante.

Na verdade, ela descobriu logo depois que o tal homem que falava do capeta tentava argumentar seu próprio pecado, numa comparação meio manca com a história de Adão e Eva. Mas a culpa não era dele, isso não. Nem deveria ser do Seu Ademar.

As senhoras continuavam no papo animado, e ela chegava perto do ponto de descida. Levantou-se, pronta para descer. Mas antes de saltar, interrompeu a conversa das mulheres e mandou os pêsames para Dona Judite. Coitada.

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