{ It´s only rock´n roll }

Decisão tomada num momento completamente perdido, daqueles dias sem dinheiro e sem amor, em que a gente se pergunta o que diabos está fazendo na Terra. Eu inventei a resposta: “estou esperando o show dos Stones”.

Eu fui. E ainda não voltei.

Segunda, resolvi ver a apresentação do U2 na televisão. Ouvi duas músicas e desliguei. Eu ainda não voltei do Rio de Janeiro.

Eu cheguei de viagem às quatro da manhã, tomei banho, fui pra aula, fui trabalhar. Mas ainda estou no show dos Stones.

Continuo meio catatônica, como quando vi Mick Jagger, calça preta e jaqueta prateada, entrando no palco ao som de Jumpin’ Jack Flash. Troquei o óleo do carro hoje cedo, mas sigo ouvindo Wild Horses ao fundo.

A única pessoa que podia me trazer de volta de lá, preferiu me deixar no Rio de Janeiro. Com a imagem do palco gigantesco e de um décimo da multidão que eu acho que consegui enxergar. Então eu continuo no show, olhando para tudo e para todos fixamente, mal me mexendo. Captando o máximo de informação em duas horas. Desviando dos ambulantes e alheia aos gritos de “três refri é cinco real”.

Ainda consigo ver a multidão pulando e eu, parada no chão, simplesmente sem conseguir me mover. Eu travei. Continuo travada, até agora. Porque eu estou em Curitiba, mas ainda não voltei do Rio.

Não foi tranqüilo, isso é fato. A aglomeração de espectadores era gigantesca e a dificuldade dos bombeiros em transitar naquele mar de gente era visível. Quase desesperador, eu diria. Foi nesse momento que levaram meu celular, numa onda de furtos embasbacante: praticamente uma tentativa a cada 30 segundos, durante uns cinco minutos. Ufa. E o show nem tinha começado.

A entrada daqueles senhorinhos sexagenários muda tudo. Não vi brigas e não vi roubos. Aliás, não vi nada: só os Rolling Stones. Sexagenários o diabo. Pareciam todos ter 20 anos, inclusive o guitarrista Keith Richards, que assume os vocais em duas músicas. O mundo é roqueiro. Até o ambulante ao meu lado respeita, e grita somente nos intervalos entre uma música e outra.

O show acabou há mais de três dias. Mas não pra mim. Eu continuo lá, na praia. Eu e um milhão de pessoas.

Segunda à noite, tentei assistir ao show do U2 na televisão. Impossível. Todas as imagens se transformavam e eu acabava vendo os Rolling Stones. E eu até queria ter ido pra São Paulo pra ver Bono Vox e companhia.

Não sei quanto tempo vai demorar pra eu fazer o caminho de volta para a vida real. Eu ainda consigo sentir as lágrimas de quando o show acabou e meus amigos incrédulos me perguntaram se valeu a pena.

É claro que valeu a pena. É um show eu assisto há mais de 72 horas, mesmo dormindo. Porque eu ainda estou lá.

But I like it!

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