novembro 2015

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{ Astrologia }

Mais de um ano depois, se encontraram num café. Lugar aberto, dia ensolarado, calorzinho. Eles só tinham quinze minutos, então ele foi direto ao ponto.

— Por que você me escreveu?
— Porque eu fui alfabetizada, oras. Posso escrever pra quem eu quiser.
— Você entendeu.
— Porque eu fiquei curiosa.
— Mas…
— Não finja que não entende. Você respondeu por algum motivo. Provavelmente o mesmo.

Nesse momento, pensei que ele devia ser de Libra. Como pode tanta indecisão num corpo tão pequeno? Devia ser um tiranossauro rex pra ser digno, em tamanho, de metade de tanta dúvida. Justo comigo, que nunca gostei de dinossauros. Aquele quero-nãoquero-querodenovo-nuncaquis. Argh. Arrisquei.

— Que signo você é?
— Putz, você acredita nisso?
— Só quando eu não tenho mais alternativa.
— Ahm.
— Por exemplo, se o dia tá uma droga, se eu decido se mudo de emprego ou se eu quero saber se um cara vai me ligar. Talvez quando eu fique ansiosa ou entediada o bastante pra acreditar.
— Hoje você acredita, então.
— Não a ponto de ler o da Susan Miller, que é em inglês.
— E qual é o problema?
— Ler em inglês é como andar de bicicleta: posso fazer as duas coisas, mas nenhuma delas me dá muito prazer.
— E o que te dá prazer?

Era a deixa, eu sabia: tasquei-lhe um beijo. O gosto de café era, agora, tão diferente da primeira vez, com todo aquele formigamento alcóolico na língua. Ainda que não seja do meu feitio, preferi explicar:

— Eu não faço isso o tempo todo.
— Beijar pessoas?
— Isso. E escrever pra quase estranhos.
— Você escreve pra estranhos o tempo inteiro.
— Não individualmente.
— Não.
— Não vamos nos ver de novo, vamos?
— Não.

Nunca houve tanta certeza numa resposta. Descobri: libriano não era.