agosto 2015

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Eu voltava do dentista com Alice quando um cara, num carro parado no sinal, começa a desfiar um blábláblá pra mim. Eu continuo conversando com ela, mas tenho que parar na esquina pra atravessar a rua. Aí ele vem. Faz a curva o mais devagar que pode. Eu olho pro chão porque, queridão, não sou obrigada a olhar pra ninguém, mas eu quero tanto que ele vá embora que levanto o olhar um pouco rápido demais. Ele tá com a cabeça fora do carro, olhando pra trás. Visão periférica, que inferno.

– Ele disse “parabéns, mãe”, mas você não é mãe dele, né?
– Não, filha.
– Você é minha mãe, né?
– Isso.
– Ele disse porque achou você bonita, né? – e sorri.

Eu queria explicar porque não era aceitável que uma pessoa que eu não conheço passasse num carro e me dissesse que eu sou bonita, mas, se você parar pra pensar, as pessoas fazem isso com ela o tempo todo. E a gente só pede pra ela agradecer. Acabei não dizendo nada.

Uma quadra e meia depois, o cara reaparece. Vai me acompanhando com o carro – eu e minha filha de quatro anos. Vai falando e eu não digo nada.

– Não posso achar bonita?
– Pode, mermão, mas se você começa a seguir as pessoas na rua, pode parecer que você é um psicopata, sabe?

Era o que eu queria ter respondido. Mas só disse “pode”. Eu tive medo de terminar. Gosto de pensar que eu teria completado a frase se eu estivesse sozinha, mas eu não sei se teria.

Meu prédio. Fico na dúvida: se entrar, ele fica sabendo onde eu moro. Se não entrar, então pra onde eu vou? Entro, dou um sorriso meio torto pro porteiro. Chamo o elevador, o carro parado lá fora. O elevador demora, o carro continua parado. O porteiro se levanta, fazendo menção de atender o cidadão, e eu digo “não sei quem é essa pessoa; ele tava me seguindo”. O porteiro para por uns segundos e volta pra cadeira. Eu entro no elevador, o carro continua em frente ao prédio.

Foi só quando o medo passou que eu entendi o exemplo que eu acabei de dar pra minha filha. Um homem pode passar por uma mulher, pode falar coisas pra ela, pode segui-la. E nós olharemos pra baixo e torceremos para que ele não pare, não desça e que tudo fique bem.

Tá tudo errado, minha filha. Desculpa.