julho 2015

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{ É isso? Acabou? }

Eu tenho 34 anos. Estou casada. Tenho uma filha. As contas são pagas em dia e eu posso fazer coisas, do ponto de vista financeiro, que seriam impossíveis se eu pensasse na minha vida dez anos atrás. Tenho atividades que eu gosto, eventualmente eu me encontro com pessoas que eu adoro. Então eu me pergunto: é isso? Acabou?

No fim das contas, o que mais eu posso esperar da minha vida? Parece que é isso que eu me questiono todos os dias. Quando eu parei de trabalhar, uns cinco anos atrás, eu achava que o problema era esse. Eu me perguntava se eu devia ter um emprego e sair de casa e ganhar dinheiro. Ou, como dizem alguns, ocupar meu tempo. E passei muito tempo sofrendo porque, sei lá, eu devia saber o que responder quando perguntassem minha profissão. Eu achava que o que me faltava era ter essa resposta.

Hoje eu sei: não tenho um emprego, mas, bem, eu não preciso ter um emprego. Sou do tipo que acha que tudo vai dar certo e, se um dia tudo der errado, eu me levanto e faço o que for necessário (mas isso não precisa ser agora, certo?). O marido acha muito curioso que eu sempre diga que as coisas se ajeitam, mas é algo em que eu realmente acredito. E, ainda que eu não goste, um dos meus mantras é “ninguém aprende nada sendo feliz”, motivo pelo qual prefiro não odiar esses períodos em que tudo dá errado (um dos meus anos preferidos, inclusive, é 2005: o ano mais cagado da minha vida).

O problema, então, não é não ter um emprego. É a falta dessa resposta maior: por que diabos eu estou no mundo? Se eu já atingi o máximo que eu posso ter dessa vida, tudo bem se eu simplesmente morrer amanhã? É só continuar seguindo o baile? Então eu descobri que eu sinto falta da realização. Que eu, antigamente, traduziria em vender meu carro e tentar sobreviver um ano na Europa, trabalhando por comida e lar. Foi um plano que eu nunca realizei porque eu tinha um apartamento em Curitiba. E tinha a segunda faculdade pra acabar. E tinha um emprego. “Não dava” pra largar tudo, passar um ano fazendo sabe deus o quê e voltar fazendo algo ainda mais incerto.

Talvez esse plano, se realizado, tivesse feito eu me achar nesse grande universo de possibilidades. Mas eu fiquei. A minha sensação, ao fim de tudo, é que eu queria fazer alguma coisa relevante. Aquele lance de fazer a diferença, sabe? Então eu penso em ir pro Haiti ajudar a construir casas e em como isso é complexo quando você tem uma criança em casa (talvez sejam só desculpas). E meus amigos me perguntam se eu realmente preciso ir tão longe pra conseguir ajudar alguém. Eu continuo com esse sentimento de impotência. Nessas horas, eu tento me lembrar de um e-mail que eu recebi em 2011, que dizia

“Mas o real motivo desse e-mail é que eu quero te agradecer muito, você foi a trilha de literatura (trilha sonora só que de palavras) dos meus últimos 6 anos de vida.

(…)

Um grande abraço, sem você saber você foi mais que uma terapeuta, você foi a pessoa que escreveu perfeitamente o que eu estava sentindo mesmo antes de eu sentir.”

E eu tento acreditar que escrever aqui é importante pra alguém além de mim (é difícil, eu sei). Se isso aqui é, de alguma forma, significativo pra alguém, talvez eu tenha saudades dos meus amigos. Talvez por isso eu insista em construir uma propriedade pra todos vivermos juntos, naquele conceito de comunidade mais antigo. Talvez eu sinta falta de ter um vizinho pra dividir o bolo de milho (eu tentei no Rio, as vizinhas provavelmente acharam que eu era maluca, mas tudo bem). Talvez eu sinta falta daquele café, acompanhada, no meio da tarde. Daqueles dias em que eu finalmente fico quieta uns cinco minutos, pra poder dizer “se eu morresse, agora, morreria feliz”.

Eu continuo procurando o motivo de estar aqui. Eu me recuso a crer que a vida é isso e pronto. A vantagem é que parei de procurar os culpados e comecei a procurar as razões. Quem sabe ajude.

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Anteontem o blog completou 12 anos de existência. Eu poderia me sentir velha, mas me convenço cada vez mais que eu ainda sou muito adolescente.

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Mudamos de servidor e, por isso, o e-mail também mudou. O endereço direitinho tá ali do lado esquerdo. :)

{ Mini-história }

– Você tá nervoso?
– 
Eu tou. Você não?
– Tou, mas disfarço melhor.

A verdade é que eu não estava mais. Eu sabia que devia estar ali. Estive nervosa até quinze minutos atrás, quando mal conseguia engolir meu café. Até abrir a porta e te encontrar ali. Agora você já tinha sorrido pra mim e eu sabia que não devia estar em nenhum outro lugar do mundo.

Foi há tanto tempo, mas eu podia estar até agora abraçando você com as minhas pernas e beijando suas costas. Sentindo o seu cheiro. O meu cheiro em você. Mas nós sempre soubemos que não seria assim.

Você saiu, mesmo comigo pedindo pra ficar. Eu lembro que foi você quem falou em amor e faz alguma ideia da confusão que isso causou. O que você não sabe é que não precisava dizer que me amava pra eu estar lá, medindo as falanges da sua mão com a minha. Redesenhando seu rosto mentalmente, quase como aquele que eu fiz em carvão. A diferença é que eu te desenhei no papel pra te tirar de mim, e agora eu gravava seus detalhes pra devolver as memórias pro espaço que você deixou vazio.

Eu não o culpo por ter vindo e bagunçado tudo. Você me encheu de música. Talvez você espere que meu gosto musical esteja melhor em dez anos (não vai acontecer). Em algum momento eu acho que o agradeci por vir me salvar. Dias horríveis em que você me fez sorrir como era difícil há muito tempo. Agora você está calmo, eu não. 

Pego os lápis pra te desenhar mais uma vez. Ninguém quer ter a missão de salvar outra pessoa, eu sei.