junho 2015

You are currently browsing the monthly archive for junho 2015.

Dirigia sozinha meio sem saber pra onde ir agora que ele tinha ido embora. Só queria voltar e não podia. Ele ainda estaria lá, mas não pra ela.

Agora havia outra, talvez mais bonita. Talvez mais inteligente. Talvez só alguém menos bagunçada por dentro. Era dia dos namorados e a vontade era ir aos restaurantes apagar todas as velas e cortar todos os balões de coração. Tacar fogo nos motéis. Estilhaçar vidros de floriculturas. Gritar que o amor não existe e vocês estão sendo enganados.

Enganados como ela foi. O amor é o engodo mais satisfatório que existe. Lembrou da forma como ele passava os dedos nas suas costas quando estavam juntos. Pensou em fazer a curva e parar em frente ao prédio dele só pra dizer o que devia ter dito antes. “Eu sei que você me avisou que não estava disponível, mas eu te amo” e ele que se virasse com isso. Nunca foi capaz. Era a primeira regra do não-relacionamento deles: ele não estava disponível.

Ela era do tipo que seguia as regras, mesmo que não gostasse. Então entrou no carro e foi embora sem nem chorar. Ela era do tipo que não fazia cena. Chorava sozinha no carro, enquanto dirigia e pensava em derrubar a porta do apartamento dele. E abraçá-lo e beijá-lo até que ele percebesse o tamanho do erro que tinha cometido. Gostava de acreditar que era possível voltar, ainda que soubesse que ela era uma péssima escolha.

Acabou na garagem de casa, meio sem coragem de entrar e olhar todas aquelas coisas que a fariam lembrar dos detalhes. Ah, os detalhes. Foi com ele que entendeu que podia ser mais feliz. Talvez não merecesse. Talvez fosse um castigo por todos aqueles dias dos namorados com caras que ela nunca amou. Foram tantos que quase achou que nunca poderia amar de verdade. Eles disseram que a amavam e ela respondeu. Só uma mentira inofensiva, pensava. Existe amor se só um dos lados é sentimento? Se o outro não é nada, então não é só um grande pedaço de dor flutuando entre minha casa e a sua?

Eles nunca chegaram a falar sobre isso. Agora havia outra, talvez mais corajosa. Talvez mais merecedora. Talvez ele esteja dizendo o quanto ama a outra nesse exato momento. Talvez a disponibilidade para um relacionamento fosse problema seu, não dele.

Ela entra em casa com a luz apagada, fecha a porta e senta no chão. É dia dos namorados, mas o amor não existe. Não mais.

{ Estejam preparados }

Às vezes as pessoas me perguntam sobre esse negócio maluco que é ter filho. Imediatamente eu digo: é complicado. E eu listo uma grande variedade de problemas e chatices e aporrinhações que a vida ganha quando você bota uma criança no mundo.

Eu falo sobre a rotina da qual os pequenos precisam e que me faz querer morrer lentamente. Sobre aqueles domingos em que tudo o que eu quero é dormir ou ler ou ver um filme e eu não posso porque Alice quer muito brincar ou fazer qualquer outra coisa. Eu explico que tudo fica diferente e que, em alguns momentos, eu penso “mas por quê, meu deus, por quê?”. Se continuarem insistindo, eu ainda posso contar sobre as birras, as preocupações e o dinheiro envolvido. Ou o choro de bebê, as noites sem dormir e a sensação de culpa que eu sinto tantas vezes.

Não me entendam mal. Eu digo isso porque espero que eles estejam preparados. Porque essa maternidade algodão doce, pelo menos aqui em casa, não existe. E tudo que eu ouvi, minha vida inteira, sobre ser mãe ou pai se resume em: é maravilhoso. E é. Mas não o tempo todo.

A verdade é que é meio chato mesmo, especialmente se você quer ser o tipo de pessoa que sabe viver sem os filhos por perto. Porque é bem fácil viver em função deles – mas, para mim, não é prazeroso. É meio obrigatório abrir mão de algumas coisas que faziam sua vida feliz e nem sempre é fácil se entender durante o processo. Eu ainda acho complicado me encontrar no meio desses papéis todos, entre o que esperam que eu seja e o que eu consigo ser. Ou, pior, o que eu quero e o que eu consigo ser. Porque todo mundo sabe criar o filho alheio (opa, Bela Gil manda beijos): eu queria ser uma mãe dedicada e paciente e acho que nunca estive tão distante disso. E eu continuo tentando entender o que é minha personalidade e o que pode ser modificado sem que eu me sinta fingindo ser um personagem qualquer.

Ter um filho pode mudar tudo. E, sabendo disso, esteja preparado. Para ouvir eu-te-amo no meio da noite, quando você leva um copo d’água. Para receber o abraço mais apertado e sentir que dá pra carregar seu amor inteirinho no colo. Para ouvir as respostas mais engraçadas e inesperadas. Para estar morrendo de cansaço na hora de colocar a criança na cama, mas não conseguir sair do quarto depois de vê-la dormir porque a sensação de estar ali é tão maravilhosa. Para perceber como ela é esperta, como as calças já estão curtas, como ela sabe desenhar bonecos palitos e as letras do seu nome. Esteja pronto para ser amado mesmo depois de ter gritado sem necessidade ou de pedir desculpas. Para o momento em que ela gosta da mesma música que você. Para as histórias infinitas sem pé e nem cabeça, mas que fazem ela rir – e você também.

Esteja preparado pra pensar “mas por quê, meu deus, por quê?” e descobrir a resposta cinco minutos depois: porque ela tem o sorriso mais lindo e o cabelo que faz cachinhos nas pontas. Porque ela dá bronca se você fala de boca cheia. Porque ela cobre as bonecas e as enche de beijinhos. Porque ela constrói castelos maravilhosos com os blocos. Porque ela faz xixi sozinha, dá descarga e lava as mãos. Porque ela é tão brava e teimosa quanto você. Porque ela se oferece para cuidar dos seus dodóis.

Ter um filho é muito parecido com aqueles altos e baixos das grandes paixões. Eu amo aquele cretino. Eu odeio aquele cretino. É apaixonar-se um pouquinho mais todo dia.

E aí eu volto a brigar pra ela comer a fruta do café da manhã, senão vai pra escola sem comer nada. Do mesmo jeito que eu brigo todo santo dia. Todo. Santo. Dia. E penso “mas por quê, meu Deus, por quê?”.