maio 2015

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{ Cinza }

Em muitos dias eu tenho essa vontade de desistir. Ela me faz querer ficar deitada na cama, abraçando meus joelhos sem pensar em nada. Não é exatamente um sofrimento, é só um desejo de não existir. De não pensar, de não comer, de não me vestir. De não subir nesse grande trem chamado vida. Me deixa ficar aqui, não faz diferença mesmo. 

Mas o marido me beija, a criança me chama e então eu já não estou mais na cama. E vou fazendo o café, porque é o que eu faço todas as manhãs, e assim eu já não escolho mais. Como não escolho levar a criança na escola ou levar a gata ao veterinário. Eu só faço. Eu não gosto de pensar nesses dias, porque tudo tenta me convencer a desistir.

Quando todos saem, a única que ainda insiste é a gata. Eu não posso dizer que ela me entende, mas ela se enrola nas minhas pernas pedindo comida e não esmorece até que eu me levante. Hoje eu não fiz o café. Devo ter desistido antes de sair da cama. Às vezes eu só desisto mais tarde, quando fico presa a esse não fazer nada que me abraça. E converso aqui comigo que é difícil mesmo e que não vale a pena.

É como uma vontade de morrer um pouquinho. Não completamente, não de verdade. Morrer só por umas horas, enquanto estou sozinha, deitada na cama e abraçando meus joelhos sem pensar em nada. Mas, você sabe, não existe isso de morrer só um pouquinho. Meu corpo inteiro sabe disso: meus maxilares travam e meus ombros se contraem e minha cabeça dói e de repente eu penso que hoje não vai dar.

Normalmente não dói. Incomoda quando eu preciso inventar atividades pra não ter que responder pro marido “hoje eu não fiz nada, mas pelo menos eu continuo aqui”. Hoje eu quase desisti. São 17h e a louça do café continua na mesa, mas eu fiz o que realmente precisava ser feito.

Eu continuo aqui e continuo tentando. Vai ser melhor quando o sol voltar.