abril 2015

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Eu queria pedir desculpa a todos aqueles a quem eu disse que amei e era mentira.

Hoje eu sei que aquela vontade de não largá-los jamais era carência. Que era tão maravilhoso ouvir suas vozes porque vocês falavam sobre mim e eu gostava disso. Que o tempo que vocês ocupavam na minha vida me impedia de pensar nas coisas que me deixariam louca. E isso não tinha nenhuma relação com amor, ainda que eu repetisse exaustivamente que sim.

Peço desculpas porque nunca quis enganá-los. Acreditem, estava enganando a mim mesma também. Eu sei que vocês também erraram. Afinal, tínhamos todos os sintomas do amor, não é? Exceto que não era.

Ou era esse amor não-erótico, que resulta em “eu te amo, mas perdi o tesão”.

“Perdi o tesão” diz mais sobre mim do que sobre vocês, sabe? Ninguém devia ser animador do desejo alheio. Eu não devia ter que ser estimulada constantemente pra alcançar uma performance satisfatória na cama de ninguém (ou no sofá, ou na mesa da cozinha). Analisando friamente, eu notei que sou bem mais sexual solteira que em anos de relacionamento. E eu posso descobrir daqui a uns anos que eu estava errada — o que, aliás, parece ser a saga eterna da minha vida — mas, hoje, a sensação é que eu cuido mais do meu desejo quando eu estou sozinha. Eu penso mais no assunto. Eu procuro mais. Eu não espero que alguém venha e me entretenha.

Se eu não tenho desejo, talvez seja minha culpa. Talvez eu precise pensar a respeito. Talvez eu precise negar um pouco esse amor romântico e assumir o tesão em mim, em você ou no cara que passou por mim com aquele cabelo lindo. Esquecer essa conversa que mulher quase não pensa em sexo que as boas maneiras femininas sempre pregaram. Rasgar esse papel de que mulher tem que ser seduzida e conquistada.

Todo relacionamento é uma escolha, mas isso não significa que meu desejo seja só seu. E não é uma responsabilidade só sua, assim como o amor que eu também não tive por vocês.

As minhas mais sinceras desculpas.

{ Solitário }

Ele estava bêbado e há 24 horas sem dormir quando disse que nunca tinha ouvido um eu-te-amo. Eu não estava preparada pra aquilo. Fiz um carinho no cachinho do cabelo como quem tenta desatar um nó dentro do peito. Ele percebeu.

– Não precisa.
– Eu sei que não. Mas eu te amo.
– Você não me importa.

Eu já tinha ouvido tantos eu-te-amo, mas nenhum me importava como o dele.

Até hoje eu me pergunto que som teria e como sua boca se moveria pra me dizer. Se ele piscaria no meio da frase ou se me olharia fixamente. Mas não. Nunca. A improbabilidade desse fato é tanta que, a cada vez, imagino uma versão diferente. Uma roupa ou outra, às vezes nada. Com café ou cerveja, às vezes nada. Num monociclo, no lombo de um elefante, num jantar com o Neruda. Minha imaginação sabe que não pode criar uma história factível porque pode ser que eu acredite.

Eu arrisquei perguntar.

– Você quer que eu vá embora?
– Eu nunca quis.
– Mas também nunca me pediu pra ficar.
– Nem vou.
– É porque você não me ama?
– Eu também nunca disse isso.
– Você nunca diz nada.

Ele sorriu. Era sempre assim, sorria quando precisava fugir. Como se olhar pra todos aqueles dentes todos me desviasse da falta de resposta. Verdade seja dita, funcionou durante muito tempo.

– Me diga, o que você quer?
– Que alguém me ame.
– Mas não eu.
– Não.
– Por que não?

Eu acho que ele também não sabia. Nunca soube. Ele me queria lá, queria a pele, os cabelos, os bicos dos seios e a boca, mas queria que fosse outra.

Eu me levantei e fui embora. Ele não impediu. Eu voltei. Ele nunca disse que me ama.

Ele só queria que eu existisse.

{ Cíclica }

– Como você pode me amar se nem me conhece?

– Claro que conheço.

– Então quem eu sou?

– Uma mulher linda, inteligente, que gosta de ler.

– Eu conheço uma centena de mulheres que se encaixam nessa descrição.

– Você sabe que eu te conheço. As vezes em que eu sei o que você tá pensando ou fazendo.

– Eu não sei nada de você.

– Nada?

– Sei um monte de coisas, mas que hoje não me servem de nada.

– Como o quê?

– Que você prefere gato a cachorro. Ou que você adora pepino.

– Foi você quem perguntou isso do gato e do cachorro.

– Eu nunca vi você triste.

– E isso não é bom?

– Não se conhece alguém até ver como ela fica quando está triste.

– Eu também fico triste, eu juro.

– Eu acho que fiz as perguntas erradas.

– E olha que você é jornalista.

– Nunca fui. Só me formei. Eu disse que você não me conhece.

– E quais seriam as perguntas certas?

– As que me dessem um mínimo de previsibilidade a seu respeito.

– Ah, mas aí você ia se entediar. Não é legal não saber o que esperar?

– Não quando você se atira do trampolim sem saber se a piscina tá cheia.

– Eu te amo, é tudo o que você precisa saber.

– Como você pode me amar se nem me conhece?

{ Quinta-feira }

Semana passada eu perdi algo que eu nunca tive.

Eu tive um daqueles sonhos em que, quando a gente acorda, chora baixinho encostado no travesseiro porque não há mais nada a fazer. Que, se fosse possível guardar cinco minutinhos a mais daquela sensação, você agarraria o sonho com as duas mãos e diria pra ele nunca ir embora.

Mas ele vai. Vai porque precisa ir, dizem.

E você fica deitado, olhando para o teto, sem saber muito bem como levantar da cama e ir viver sua vida. Longe daquele sonho tão pequenininho que era impossível enxergar, assim, a olho nu. A gente diz “vai, sonho, virar realidade em outro lugar”, mas também não tem certeza se ele foi. No fundo, bem no fundo, quando um sonho se vai a gente não gosta de dizer que ele morreu. A gente só diz que acordou e volta a dormir, esperando sonhar de novo.

É como esquecer o caminho de casa. Como esquecer o nome de alguém que você amou. Como viver com alguém que não existe mais.

Semana passada eu acordei de um sonho que eu nunca tive.