março 2015

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(ou: o tormento do processo criativo)

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Sabe, as vezes eu fico tempo demais sem escrever aqui.

Eu poderia dizer que é porque eu estava muito ocupada, mas não seria verdade. Eu já estive infinitamente mais cheia de coisas pra fazer e eu ainda escrevia. Eu poderia dizer que falta inspiração, mas eu penso em textos o tempo todo e algumas vezes eles se escrevem sozinhos dentro da minha cabeça, de onde nunca mais saem.

A verdade é que eu me escondo. De coisas que eu não quero pensar ou não quero sentir e que eu sei que virão à tona se eu me sentar aqui e deixar esse silêncio na minha cabeça conversar. Eu estou logo ali, embaixo da cama, esperando que ninguém me encontre e eu continue fingindo que está tudo bem, quando há uma angústia que eu não sei de onde vem e eu só quero fazer de conta que não vejo.

Então eu não escrevo.

Eu não escrevo porque eu me sinto burra. Minha impressão é que todas as pessoas do mundo estão por aí fazendo coisas maravilhosas, mestrados, doutorados, viagens, cursos, aventuras, livros, trabalhos incríveis, e eu continuo aqui. O que eu tenho? O que eu consegui? Como diria um amigo com quem eu conversava ontem, “eu durmo no mesmo quarto desde criança”. Eu não durmo mais, mas é essa a sensação que eu tenho. Que talvez eu tenha feito escolhas que não me levam aonde eu quero, ainda que eu não saiba exatamente pra onde ir. Ou que eu simplesmente tenha pressa demais pra conseguir coisas que levarão a vida inteira até eu ter um pequeno vislumbre do seu acontecimento. Ou, pior de tudo, que talvez eu tenha desistido.

Talvez eu tenha acreditado nas pessoas que me disseram que eu não podia, quando eu sempre soube, desde criança, que eu vim a esse mundo pra escrever – bem ou mal, não sei, mas era isso que eu sempre soube que eu devia fazer. E eu não fiz. Ou não estou fazendo.

Eu falava disso com o marido esses dias, sobre a dificuldade em sentar a bunda nessa cadeira em frente a esse computador e simplesmente deixar as coisas acontecerem, como sempre foram. Porque eu sei que eu vou me sentar aqui e vou chorar, que é o que acontece em pelo menos metade das vezes em que eu decido que vou publicar algum texto. E é pesado. Provavelmente porque, hoje, eu só venho aqui quando tudo parece completamente insustentável e eu considero me explodir em um milhão de pequenos pedacinhos. Se eu liberasse um pouco dessa dor com mais frequência, eu sei que chegaria o momento em que tudo seria leve de novo. E eu faria o que eu preciso fazer, que é escrever.

Quando acabamos de conversar, eu e o marido, sobre nossa missão divina nesse mundo ou seja lá como isso se chamar, nós assistimos a esse vídeo aqui, que eu recomendo fortemente que você gaste 20 minutos da sua vida vendo se estiver envolvido em projetos criativos (especialmente se houver sofrimento criativo):

“E o que eu digo a mim mesma quando eu fico realmente enlouquecida com isso, é: não tenha medo. Não desanime. Apenas faça o seu trabalho. Continue a comparecer para fazer sua parte, seja ela qual for. Se seu trabalho é dançar, dance. E se o gênio divino e maroto que foi designado para acompanhar o seu caso permitir que através do seu esforço aconteça um lampejo maravilhoso, então, ‘Olé’! E se não, faça a sua dança, do mesmo jeito. E ‘Olé’ para você da mesma forma. Eu acredito nisso e acho que devemos ensinar isso uns aos outros. ‘Olé!’ para você, apesar de tudo, simplesmente por possuir esse puro amor humano e a teimosia de continuar aparecendo para fazer a sua parte.” – Elizabeth Gilbert

Então eu virei fazer a minha parte. Porque de todas as coisas que me doem, a pior é pensar que nada está acontecendo porque eu quis assim. Eu já tive medo demais e, no fim, eu estou aqui, não é mesmo?

Ou, em resumo, aguardem textos ruins pro caso do meu gênio divino estar muito ocupado lavando suas meias.

(E assim eu finalmente escrevo minha primeira resolução de ano novo)