janeiro 2015

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{ Explicando }

Tem coisas que eu acho triste ter que explicar. Acho triste ter que explicar que eu não gosto de piada que envolva o termo “estupro” porque esse é um medo que eu tenho constantemente. Que quando eu saio na rua, eu não temo ser assaltada, eu temo ser violada fisicamente. Eu acho triste ter que explicar que esse é um medo da maioria das mulheres e não é imaginário, tipo bicho-papão: uma em cada cinco mulheres sofre ao menos um episódio de estupro ou tentativa de estupro. Eu já sofri violência sexual quando tinha 11 anos, contei aqui. Eu já fui obrigada a beijar uma pessoa porque o braço dela era do tamanho da minha coxa e eu não tinha como reagir. Eu já fui cercada pelo pai de uma amiga quando tinha menos de 15 anos.

A cada vez que alguém me conta uma piada que envolve estupro, todas essas sensações voltam. O nojo. O medo. Os casos absurdos, como o da menina de 12 anos, em 2012, no Rio, estuprada num ônibus enquanto voltava da escola. Eu já tinha Alice, minha filha, e eu pensava que então é esse o lugar em que ela vai crescer. Eu penso nos casos de caras se masturbando enquanto se esfregam em mulheres no transporte público. Eu penso nas mulheres que tentaram fazer denúncias e foram ridicularizadas ou ignoradas em delegacias. Nas meninas que foram estupradas dentro de universidades como a USP e têm seus casos abafados porque a instituição precisa zelar pelo seu nome e reputação.

Eu não gosto de piada com estupro porque me lembra que, quando eu saio com uma amiga, a gente combina de avisar quando cada uma chegou em casa pra ter certeza que está tudo bem. Eu lembro que eu aprendi que tenho que vigiar se algum homem está me seguindo e carregar as chaves entre os dedos como se fosse um soco inglês, e torcer pra ter coragem pra bater em alguém se for necessário. Eu preciso prestar atenção e mudar de calçada e ver se o cara faz o mesmo, e então entrar num prédio ou num comércio até que ele vá embora. Eu aprendi que nem sempre ele vai embora. Eu não posso esquecer que gritar “fogo” atrai mais ajuda que “socorro”. Essas coisas que meninas têm que aprender se quiserem estar em segurança, mesmo em cidade do interior.

Eu queria esquecer as vezes em que me seguiram enquanto eu caminhava na rua. As vezes em que me acompanharam lado a lado, eu a pé e ele de carro, e eu achei que a coisa não ia acabar bem. Eu queria esquecer e não precisar dizer pro marido “o sol é muito forte pra caminhar pela ciclovia, mas eu acho que andar pelas ruazinhas com sombra pode ser perigoso”.

Mas, hoje, eu só queria não ter que explicar.
(e não deixar minha filha me ver chorar enquanto eu publico isso)