agosto 2014

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Eu sempre li que quando nasce uma mãe, nasce uma culpa. Continuo acreditando nisso, mas cada vez mais eu percebo que quando nasce uma mãe, nasce uma acusadora. Uma fiscal do parto alheio. Uma reguladora da mamada vizinha. Uma vigilante da dieta alimentar. Não basta mais cuidar do seu filho, tem que verificar que todas as outras crianças do mundo estejam recebendo exatamente o mesmo cuidado que a sua.

E por “cuidado” quero dizer o mesmo sistema educacional do seu filho. Eu não dou açúcar pro meu filho, ninguém mais pode dar. Não importa o quão incrível e dedicada seja a mãe: “ela deu açúcar, ela não aaaaaama”. Esses dias eu li que “a cada miojo que uma mãe dá pra um filho, uma fadinha morre”. Só uma notação importante: não existem fadinhas, tá?

Tem a discussão de deixar chorando ou não no berço, colocar ou não no cantinho da disciplina, pegar no colo ou deixar no chão – as disputas são tantas que eu tenho preguiça até de pensar, porque me enrola as tripas. Eu acredito que, alguns anos atrás, antes dessa obrigação de toda mulher ser uma mãe absolutamente incrível e abnegada, existia uma mulher que iniciava a maternidade. E, nesse início, todo mundo ajudava: a mãe, a vizinha, a amiga da escola. Todo mundo aparecia, ninava, ajudava a fazer papinha. Não havia esse controle maluco de hoje porque a mãe não era cuidadora única. E devia ser bacana, porque de quebra a mãe podia tomar banho, lavar o cabelo e fazer xixi em paz. Olha que mundo bonito. Um filho era uma “obra coletiva”, por assim dizer. Ninguém se preocupava se o pimpolho ia pra casa da vizinha e ela ia botar Karo no pão – e Karo é um veneeeeeeeno, açúcar puro, por Deus, que mãe é essa.

Hoje, toda ajuda é fraqueza. Ah, aquela botou na escola. Ah, aquela tem babá. Ah, aquela deixa com a vó. É tipo um concurso de mãe mais dedicada. Vamos fazer umas planilhas no Excel, a gente começa a calcular quantas horas você se esforçou, com variáveis que rendem mais, tipo “teve cólica por quatro meses” ou “foi alérgico a lactose por um ano até os médicos descobrirem”. Ganha quem ficar mais tempo junto, inventar mais brincadeira divertida, reclamar menos e ainda cagar regra sobre a educação alheia.

Eu fico muito feliz se você consegue toda a alegria necessária pra sua vida só com seu filho. De verdade. Mas eu preciso mais. Eu preciso de amigos. Eu preciso de marido. Eu preciso de sexo. E tem horas que eu quero tudo isso sem criança por perto. Ontem, lendo uma matéria na Época sobre uma mãe que deu a guarda do filho de cinco anos pro pai, tudo que eu li era julgamento. “Tem gente que não serve pra mãe”, “por que que teve filho?”, “queria se livrar da criança” – é isso que se pensa da mulher que tem a audácia de assumir que quer fazer um happy hour. Como se um filho fosse fruto exclusivo de uma mãe e o pai fosse um elemento externo a isso tudo. Como se a mãe tivesse deixado a criança de lado e nunca mais fosse vê-la nos próximos 68 anos.

A maternidade é tipo aula de yoga, cada um vai até onde pode. Tem gente que vai abraçar os pés com a maior facilidade, tem gente que mal vai conseguir botar a mão no joelho. E ninguém é pior por isso (nem melhor, desculpe). O mundo é esse lugar legal porque cada um é criado de um jeito. Aceitar as diferenças faz tudo muito melhor.

Mais amor e menos julgamento, por favor.

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eu assumo aqui minha culpa: durante um tempo, fui fiscal da mamada alheia e me envergonho disso. ainda bem que a gente aprende. desculpa e um abraço bem apertado.