abril 2014

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{ Como tudo começou }

– Vou te contar do começo.

– Sabe que já ouvi essa história umas mil vezes.

– Impossível, eu nunca te contei mil vezes. Então, foi aqui que tudo começou.

Ajeitou o corpo na cadeira e sacudiu os ombros. Tirou o maço de cigarro do bolso da camisa. Fez gesto pro garçom. Não sabe se ele viu.

– Lembro a primeira vez que botei os olhos nela: uma deusa tomando café enquanto coçava a pontinha da orelha, concentrada sabe lá em quê. Eu sentado naquela mesa ali, onde tá aquela velha com o carrinho. De costas pra mim, eu só via a penugem loira da nuca e o esmalte vermelho das unhas. Um vestido azul tão convidativo que a gente não sabia se tirava ou se enrolava nele.

A voz chegava a encompridar as sílabas da lembrança. Tinha esperança que durasse mais tempo. Achou que o garçom não tinha visto seu sinal e chamou de novo. Ele continuou.

– No dia seguinte, eu não resisti e voltei no mesmo horário pra ver se encontrava com ela. Pimba. Na lata. Opa, Arnaldo! Vê dois chopes aí.

– Dois sucos de laranja, Arnaldo.

– Já sou bem grande pra escolher o que beber, hein. Ele toma o que quiser, eu quero um chope.

Tirou um cigarro do maço e revirou o papel procurando o isqueiro.

– Você sabe que não devia fumar.

– Eu sei mais coisa do que você imagina e, acredite, não faz a menor diferença. Então, voltei no outro dia e ela aqui. Sentei atrás dela de novo. Jurei que ia casar com aquela penugem loira. Mas não tive coragem de falar com ela. Você não sabe quanto tempo eu demorei…

– Sei, doze dias. Eu disse que já conheço essa história.

– … levou doze dias pra eu conseguir falar com ela. Doze. Dia que ela não aparecia era uma tortura, achava que tinha perdido a chance pra sempre. Você sabe o que eles dizem: a gente só se arrepende das coisas que não faz. Levantei do meu lugar, desejei um bom dia e pedi licença pra sentar com ela.

O garçom chegava com dois sucos de laranja. Recebeu um olhar de reprovação. O outro agradeceu sacudindo a cabeça de leve e avisou:

– Não adianta discutir.

– Nem isso eu posso mais. Nem beber, nem fumar, nem discutir.

Botou o cigarro na boca e tentou o isqueiro umas cinco vezes antes de praguejar. Finalmente acendeu, e ele retomou o discurso.

– Vou te dizer: sempre interpretei essa frase do jeito errado.

– Eu disse que não ia discutir.

– Não é disso que eu tou falando. “A gente só se arrepende das coisas que não faz.” Eu achava que era importante fazer tudo que desse na telha. Acho que é um problema de semântica. Como é que alguém se arrepende se não fez? Não fazer é sonho, é perfeição, é a penugem da nuca e a orelha sendo acariciada pelos dedos de esmalte vermelho.

– E lá vamos nós…

– Na verdade, a gente tá sempre se lamentando pelo que deu errado, isso sim. Não importa se feito ou não feito. Esse negócio de “mas eu tentei” só serve pra confortar cagada que a gente faz. Eu nunca devia ter ido falar com aquela mulher. Nunca. Maior burrada da minha vida. Só tenho um arrependimento nessa vida: não ter ficado sentado naquele dia.

– Acho que tá bom da gente ir embora. Arnaldô, amanhã a gente volta!

Deixou o dinheiro em cima da mesa e fez sinal de positivo pro garçom. Os dois já levantavam.

– Se eu nunca tivesse falado com aquela mulher, sonhava com ela até hoje. A penugem loira, o esmalte vermelho e o vestido azul.

– Pai, você casou com ela.

– Por isso mesmo. Se nada disso tivesse acontecido, ela ia ser o grande amor da minha vida.

{ Desabafando }

“Não tenho dúvidas de que ‘garotas direitas’ correm menos risco de abuso sexual.” – Rodrigo Constantino, na segunda revista semanal mais lida do mundo (sim, do mundo)

Deixa eu te contar uma história. Eu tinha 11 ou 12 anos. Tinha cabelo curto. Não usava maquiagem. Eu mal tinha menstruado pela primeira vez. Usava uma camiseta larga e comprida e uma legging, como toda boa adolescente que odeia seu corpo.

Tinha ido ver uma partida de basquete dos meninos da minha turma da escola nos Jogos Estudantis ou algo que o valha. Eu morava bem perto do ginásio de esportes, numa cidade com uns 100 mil habitantes. Morava num condomínio fechado e, pra chegar até ele, eu só precisava cruzar um terreno aberto e andar um quarteirão.

E foi aí que, com 11 ou 12 anos, passaram por mim dois meninos um tanto mais velhos que eu que me cercaram e me passaram a mão em todos os lugares. Todos. Deve ter durado uns 30 segundos, porque eu me debati e corri e eles não me seguraram, mas pareceu muito mais. Muito mais. Eu nunca tive tanto medo. Eu nunca me senti tão suja. Nunca.

Entrei em casa, tomei um daqueles banhos em que a gente esfrega tudo como se tivesse passado o dia pelado numa piscina de piche. Eu chorei. Eu não contei pra ninguém. Eu guardei isso lá num dos cantos escuros da minha cabeça porque, de verdade, eu não queria ter que lidar com isso.

Então surgiu a grande movimentação pelo “Chega de Fiu-Fiu”, que eu já falei aqui. E tem gente defendendo o direito de elogiar moças na rua. Quando eu disse que me sentia intimidada – talvez em especial por causa desse episódio –, eu escutei que eu não posso desconfiar de todo homem que passa por mim. Mas agora surge a pesquisa do IPEA sobre o estupro e tem gente (seriam os mesmos?) dizendo que eu tenho que saber que há muito perigo no mundo e eu não posso sair na rua usando decote.

Olha, tá difícil entender vocês. Eu poderia pensar “beleza, vou me enfeiar bastante e ninguém vai me encher o saco” (isso, claro, se eu acreditar na possibilidade que a maior parte das mulheres estupradas são lindas, gostosas e/ou arrumadas). Mas então essas mesmas pessoas vão dizer que eu tenho que me cuidar e me amar e ficar bonita, porque eu sou mulher e tenho que ter vaidade.

Eu sei que pode parecer difícil pra alguns de vocês entenderem, mas uma mulher não é um rolex que você exibe quando quer e guarda na caixinha quando não quer. Mulheres são mais do que isso – tem gente até que defende que elas têm tanto direito quanto os homens. Que coisa.

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Moça direita corre menos risco de abuso sexual: tenho uma amiga que quase foi estuprada pelo marido.

Moça direita corre menos risco de abuso sexual: um cara contando que, das últimas cinco vezes que pegou ônibus, viu dois casos de homens que propositadamente se esfregaram em mulheres. Dá-lhe gente sensualizando no transporte público, hein.

Moça direita corre menos risco de abuso sexual: mas isso não é culpabilizar a vítima, é só uma constatação sobre o mundo real. “Não estamos numa Suíça”, dizem. Se continuarmos a pensar assim, nunca estaremos.