março 2014

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{ O homem sem mulher }

No apartamento 507, ele levantou da cama com o barulho do pressurizador de água do apartamento ao lado. Cinco e quarenta, esmurrou a parede. Nada. É hoje que mata esse cara. Abre a gaveta do criado-mudo, pega a arma, vai pro corredor do prédio. O vizinho cantarola. Ele toca a campainha.

– Cinco e quarenta não é hora de ninguém ser feliz, meu chapa.

E atira.

Acordou num pulo, o pressurizador de água do vizinho ainda ligado. A cabeça latejava. Precisava tomar jeito, mas não conseguia nem arrumar a gaveta de cuecas – que dirá botar ordem na vida. Era assim desde que ela foi embora levando os discos do Odair José. “Felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes”.

Não tinha roupa limpa pra usar. Duvidava que no apartamento ao lado o engomadinho não tivesse uma camisa passada e cheirosa. Ou aspirina na caixa de remédio. Ele olhava a sala parecendo um armário, tamanha a quantidade de roupa: nunca ia achar a maldita aspirina. Coisa de mulher isso de juntar tudo que diz respeito num lugar só. Se você quiser saber se um homem tem uma mulher em casa, procure uma caixa de remédios.

Ele via o epocler no braço do sofá e o eno junto aos copos. Será que as aspirinas acabaram e ele não sabia? A vida é isso mesmo, lidar com o que você achava que tinha e não tem mais. Um eterno tomar ônibus pro sentido errado.

Eram felizes, ele achava. Ela o largou por causa de dinheiro. Não é que não quisesse lhe dar mais, só não podia. Suspirou e rumou pro banheiro. Sentado, olhava o mofo acenando no azulejo à sua frente. Não tem mais papel. Como se isso não o abalasse, foi pra debaixo do chuveiro.

Abriu a torneira e logo sentiu cheiro de fumaça. A água quente agora fria. Parece com ele. Precisava encontrar uma mulher. Ia resolver isso hoje. Sozinho não ficava.

O celular apitou. Ele sempre esperava que fosse um sinal dela pedindo pra voltar, mas era mensagem avisando uma data comemorativa. Insatisfeito com a existência de 52 segundas-feiras no calendário, alguém ainda decidiu decretar 13 de novembro dia do mau-humor. Avisar pra que? Já não andava ranzinza o bastante?

Ele queria trabalhar como inventor de datas comemorativas. Ainda ia criar o dia da aspirina. Enxaqueca desgraçada desde que ela se foi. Vestiu a roupa suja mesmo. Chegou ao corredor e olhou a porta do vizinho. No apartamento 508, o cheiro de café passado invadindo o lugar todo.

Vida em condomínio é assim: não dá pra ser infeliz em paz. Escreveu um bilhetinho e passou por debaixo da porta: “entre no clima da data e seja mais um amargurado. uma merda de dia do mau humor pra você”. Vai que. Mas não, a mulherzinha, o cafezinho, o vizinho cantarolandinho às cinco e quarenta da manhãzinha. Ele também ia arrumar uma mulher, ia ver.
Chegou ao trabalho e já pegou o classificado e o telefone.

– Ahm, oi. Quanto você cobra? Aham. E o que tá incluído nesse preço? Sei. Isso também? Uau. Tá bom pra mim. Anota o endereço.

Passou o dia ansioso. Derrubou café na roupa. Prendeu o dedo na porta do carro. Xingou a prima dela em Cotia, que foi quem lhe botou na cabeça loira a ideia de ir embora. Chegou em casa às 18h30. Cinco minutos depois, a campainha.

Ela fez tudo que ele esperava. Dona Judite lava, passa, cozinha, guarda as cuecas arrumadinhas, vai ao mercado, desencarde o banheiro e chama o eletricista. De quebra, ainda administra uma caixinha de remédio na gaveta da cozinha.

Felicidade existe sim, Odair José.

{ Hoje não }

Olhava todo dia pra janela do vizinho. Aqueles dois tão felizes que dançavam juntos no meio da sala de vez em quando. Você deve saber quanto isso é difícil. Tirar pra dançar assim, sem música, alguém com quem você casou há oito anos. Eles riam usando pijamas, que é o traje mais maligno que alguém pode usar: de manhã, atormentando a falta de esperança do dia; à noite, carregando nos bolsos a folhinha de mais um dia insosso no calendário.

Os vizinhos eram felizes usando pijamas.

Nós não. Nós fomos soterrados pelas contas, pelos filhos, pelas noites em claro e até pelas noites felizes. Aquelas que continuavam prometendo uma felicidade que nunca desfez as malas, intimidada com a calcinha no boxe do banheiro. Nós tentamos nos levantar. Inventamos viagens, fingimos noitadas e nos arrastamos até aqui, de onde eu olho a janela do vizinho.

Nunca foi amor. Amor é o que enfrenta essa lerdeza toda de gabinete público e ainda tira o outro pra dançar no meio da sala. Eles nunca.

Sentiu falta das asas. De quando o telefone tocava de madrugada e ela ia se encontrar com ele. Queria os cigarros. Acordar sem saber onde. Quando a gente se apalpa tentando se descobrir vestido e está nu. Quando a gente olha pro lado, encontra o cabelo preto e entende tudo. Sorri, pra sair correndo em seguida, esquecendo um livro e arranjando uma desculpa pra voltar.

Fechou a janela. Não precisava, além de todo o resto, ver o vizinho erguer seus cabelos e beijar-lhe a nuca. Já não lembrava a cor da pele dela. Fez força pra tirar o gosto da boca. O cheiro desapareceu naturalmente, caminhando embora de braços dados com as tiradas engraçadas e os sorrisos abertos.

Sonhava com aqueles dias.

Queria os cabelos compridos que passavam por ele. A tempestade, porque liberdade não é feita de garoa. Como quando você reencontra o porre de anos atrás. Liberdade é beber como se não houvesse ressaca. Não há nada nesse mundo que não passe diante de umas aspirinas e umas idas ao banheiro.

Sentou na cama e amarrou os sapatos. Não se pode dirigir de chinelos. Que se dane. Desamarrou os sapatos e enfiou o dedão entre as tiras da sandália. O pé, esse oprimido. Sentiu compaixão. Venha que te levo pra um drinque no bar. Eu pago.

Entrou no carro, a janta na mesa. Às favas a carne magra, a salada de agrião e o arroz integral. Cento e noventa e oito dias de dieta e a promessa nunca cumprida de um coração melhor. Hoje não.

Hoje ia embora e não voltava mais.

Veja uma porção de queijo forte, meu bem. Não se preocupe, se esse casamento ainda não fez esse coração parar de bater, não há de ser o colesterol. Hoje não. Hesitou em telefonar, o fundo do copo lhe mandou ser macho. Não lembrava a data de nascimento da filha, mas ainda guardava o número daquela mulher de tanto tempo atrás sem precisar de anotação. Ligou.

Continuavam os mesmos. Dez minutos de completa inabilidade social e constrangimento indicavam que era um daqueles porres como os de anos atrás. Não sabiam conviver vestidos. Eles não sabiam nada um do outro.

Bebeu como se não houvesse quarta-feira, nem horário de expediente. E então os risos, as asas, os cigarros, os cheiros e os cabelos. O jeito que lhe lambia o espaço entre a boca e o nariz, limpando o bigodinho de suor. O resto não lembrava.

A mulher nua na porta. Não lembrava que ser livre era difícil e a primeira vez é sempre a pior. Passou na farmácia ainda tonto e comprou umas aspirinas.

Voltou pra casa no amanhã. Que se danem os vizinhos.

{ Parabéns, mulher }

Eu só queria ser chata – e provavelmente repetitiva – e lembrar que o Dia Internacional da Mulher não é sobre rosas vermelhas, saltos, perfumes e batons. Não tem a ver com comédias românticas ou parabéns. Ainda assim, se você quiser parabenizar alguém pela data, vão algumas sugestões:

Parabéns, seu salário é quase um terço menor que o de um homem.

Parabéns, você faz duas vezes mais trabalho doméstico que seu parceiro.

Parabéns, o mercado de trabalho exige que você estude mais que um homem para ser contratada.

Parabéns, a cada 12 segundos uma mulher é vítima de violência no Brasil.

Parabéns, para cada homem agredido há duas mulheres vítimas de lesão corporal dolosa.

Parabéns, de cada cinco mulheres no mundo, uma vai ser estuprada ou sofrer tentativa de estupro.

Parabéns, uma mulher é morta a cada uma hora e meia no Brasil.

Parabéns, 40% dos assassinatos de mulheres foram cometidos por um parceiro íntimo.

Os finais de semana concentram 36% das mortes de mulheres no Brasil. Parabéns por estar viva na segunda-feira.

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Feliz Dia Internacional da Mulher pra você também.