janeiro 2014

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{ Não falemos disso }

Tudo começou com esse cara. Eu tinha estacionado ali perto do Incra, em Curitiba, pra entregar uns papéis. Ele me disse pra só escutar.

Eu vim aqui porque me prometeram trabalho. Mas eu cheguei e não consigo encontrar a pessoa. Eu sou de Andirá (interior do Paraná) e consegui com a assistente social uma passagem pra voltar, mas eu estou sem comer há três dias. Eu tentei o máximo que eu pude, eu tou com vergonha, mas eu não consigo: você pode comprar um almoço pra mim?

Andirá. A cidade que eu nasci. Se o cara inventou essa história, escolheu o lugar muito bem. Eu olhava pra ele, um homem tão alto, parecendo um menino de cinco anos pedindo uma bola. Eu tinha pressa e entreguei uma nota de dez reais – ele disse que conseguia almoçar com cinco. Eu respondi que então ele almoçasse e jantasse. Dos meus arrependimentos na vida, ter confiado na minha memória quando ele me disse onde morava. Quando fui pedir que uma prima minha ajudasse, já não sabia mais como indicar. Hoje já não lembro nem o nome.

Acho que foi depois disso que eu dei de querer de saber da pessoa por trás do pedido. Ainda que eu não ajude, eu tento escutar. Tentar falar e não ser ouvido é aflitivo. Não conseguir nem pedir ajuda deve ser infinitamente mais.

A gente aprende, em jornalismo, que ter um personagem dramatiza a história. Tá lá a tragédia, vamos contar a história do moço que perdeu tudo. Vamos contar que ele tem dois empregos e cinco filhos e agora não tem comida pra comer nem cama pra dormir. É impossível, ali, assistindo ao noticiário, não pensar “podia ser eu”. É difícil não tentar se colocar no lugar do outro. É tática manjada, todo mundo faz.

Mas não falemos deles.

Do catador de papelão que não tem como comprar leite em pó pro filho, do outro cara que faz panfletagem o dia inteiro durante toda a semana e ainda assim não ganha o suficiente pra duas pessoas comerem. Eu soube de um senhor que tinha a mesma história do primeiro – veio pro Rio a trabalho e desencontrou da pessoa. Ele se ofereceu pra qualquer conserto, pintura ou trabalho como pagamento. Mas não.

Não falemos dos seis ou oito meninos que estavam no mercado no final do ano, pedindo biscoito. Falemos que é preciso chamar a polícia, falemos que alguém arrancou o colar de uma senhora na rua hoje cedo, falemos que é motivo pra espancar um desses. Não falemos dos funcionários que fecharam os caixas e dos clientes que se negaram a sair enquanto eles estivessem na porta.

Só por um minuto, imagine. Você entra em um lugar, os caixas fecham, todo mundo faz cara de pânico. Você é seguido, convidado a se retirar e escuta as pessoas dizendo que você não pode estar ali. Se isso não é violência, então eu não sei o que mais pode ser. Mas, agora que já se passou um minuto, não falemos disso.

Naquele dia, eu prometi dois pacotes de bolacha pros meninos e pedi pra que esperassem do lado de fora. Eu não conseguia pagar porque as senhoras estavam decididas a não sair enquanto eles estivessem ali. Os meninos não iam embora porque esperavam a bolacha que eu ia pagar. Enfim, resolvi a balbúrdia entregando os biscoitos, deixando eles irem e pagando depois. Eles saíram gritando.

Eles gritavam realmente alto. Tão alto que não havia como deixar de ouvir. Eles gritavam “obrigado, tiááááá”. Meninos malvados. Mas não falemos disso. Falemos que eles devem voltar pro morro, onde é o lugar deles.

Naquele dia eu chorei. E no outro e no outro. Eu não consigo imaginar que infância é essa. Eles tinham entre seis e doze anos, arrisco. “Sua mãe devia comprar seu biscoito!”, uma senhorinha disse a um deles, recebendo um sonoro “vai tomar no cu”. Sim, falemos disso.

Eu queria saber dele. Eu queria saber se ele tem mãe.

Ele tinha uns sete anos e já tinha cara de ladrão.

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Você sabe como é: todo mundo tem cara de alguma coisa. O gordo tem cara de preguiçoso. A mulher tem cara de motorista ruim – a de calça comprida, claro; a de saia curta tem cara de outra coisa mesmo. O gay tem cara de gay – opa, não pode isso não. O negro tem cara de pobre. O pobre tem cara de ladrão.

Todo mundo tem cara de alguma coisa. Menos você, branco, homem, hetero, com dinheiro no banco ou com uma ou outra conta pra pagar. Você pode tudo. Em todo lugar. Divirta-se.

Mas, ainda que não tenha cara de nada, não seja um insensível.