abril 2013

You are currently browsing the monthly archive for abril 2013.

Minha filha tem um ano e oito meses. Quando ela nasceu, eu me perguntava cotidiana e insistentemente onde eu estava com a cabeça pra decidir ter um filho. Ela chorava. Chorava muito. Eu perdi muito sangue no parto e estava com uma anemia bem severa, então tudo o que eu queria era dormir. Eu não queria amamentar, não queria acarinhar, não queria segurar no colo. Eu queria dormir e ela chorava.

Isso durou umas duas semanas. A pediatra dizia que “é assim mesmo, criança chora”. Só depois eu descobri que meu leite levou 15 dias pra descer – e é por isso que a pequenininha chorava tanto. Eu chorava também. Chorava muito.

Depois vieram as cólicas e ela abria o berreiro durante umas três ou quatro horas seguidas, todos os dias, durante três ou quatro meses. Eu fazia de tudo: colo, massagem, chá de erva doce, bolsa de água quente. Nada adiantava. E então a gente chorava.

As pessoas me perguntavam sobre a vida de mãe e eu queria responder “é uma cilada, Bino”, mas me censurava. Que tipo de mãe eu seria, afinal de contas? Ainda assim, se você entrasse no meu perfil do Facebook, veria o que eu sou: uma mãe. Muitas fotos da filha, poucas fotos minhas.

Eu estava acima do peso, com olheiras, muitas olheiras. A roupa sempre larga, sempre cheirando a leite azedo, usando cinta pós-parto e calçolas imensas, tendo que lidar com um curativo e uma cicatriz numa parte do corpo que eu nem sequer conseguia enxergar. Celulite, as varizes nas pernas e as manchas no rosto por causa da gravidez. O cabelo que caiu. Eu era uma mãe.

Eu não era feliz. Todos os dias, o marido me dizia que a pequenininha devia ir pra creche, que eu devia ter tempo pra mim. Eu briguei. Imagine, ela tem uma mãe disponível, por que iria pra creche?

Porque eu também precisava ser feliz. Eu precisava de mim. Eu juro que eu era legal antes de ser mãe. Nem eu acreditava mais nisso.

A criança finalmente foi pra creche. Só chorei uma vez, mas tive essa dermatite nervosa bacana que lacera meu couro cabeludo. Culpa. E os dias ficaram vazios. Eu não sabia o que fazer. Eu não sabia pra onde ir. Minha filha tinha 10 meses e eu não sabia o que fazer com meu tempo livre. É meio triste. Eu juro que eu era legal antes de ser mãe.

Eu podia ter passado o resto da vida assim. É muito tempo, mas passa rápido. Eu sei que passa. A gente tem que fazer a comida orgânica fresquinha, dar banho, brincar, inventar brincadeiras pra criança não assistir à televisão, ensinar coisas, não deixar brincar com coisas tecnológicas que prejudicam o desenvolvimento, não subir ali porque machuca, não isso, não aquilo. É muita regra pra pouca criança. É muita regra pra pouca mãe. Eu decidi que todo mundo tem que ser feliz: eu, a criança, o pai da criança.

Pouco depois que a pequena completou um ano, fiz uma tatuagem. Chorei, chorei, chorei. De repente, eu não era mais a mãe. E fiz isso da maneira mais violenta que eu podia: uma tatuagem no braço, onde todo mundo podia ver, e um porre desgraçado a uns 800 km de casa. Eu ainda existia. Desde então, é isso que eu me obrigo a fazer todos os dias. Ser eu mesma. Não a mãe, a pessoa. Eu estou quase lá.

É difícil esse negócio de maternidade, sabe. Mas é muito melhor quando isso deixa de ser função pra ser sentimento. Hoje, o amor que eu sinto pela minha filha é tão grande que eu nem sei como não demonstrar. E então eu sorrio.