abril 2012

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{ Cheiro de Alice }

Vou te contar uma coisa, meu amor. A gente nasce sem cheiro de nada e é pra sentir essa falta de cheiro que eu enfio meu nariz no meio dos teus cabelos enquanto te faço dormir.

É por isso que criança não tem sovaqueira e não tem chulé. Dirão que a culpa é dos hormônios, mas é da vida mesmo. A gente cresce, a prova de matemática fica difícil, o menino mais bonito da sala não tá nem aí e a mãe não deixa sair à noite. Ah, não tem jeito: desodorante e talco pra chulé. Até você perceber que não precisa entrar em todas as batalhas, aquietar a emoção da juventude e abandonar o talco.

O cheiro de café à noite, de álcool de manhã, do moço que é outro mas continua nem aí. Cada dia que você vive junta um pouquinho a mais nesse aroma que é só seu. Dirão que é culpa do perfume, mas é a vida mesmo. Algumas vezes você vai respirar bem fundo e lembrar qualquer coisa. Eu espero que seja de mim, mas pode não ser. Pode ser desse moço maldito que eu encheria de tapa, se pudesse. Seu peito vai soltar uma faisquinha e seu cheiro aumentar um pouquinho mais.

Quando você tiver filhos, ou se você tiver filhos, eles vão reconhecer você só por isso. Aos 80 anos, vai ser tanto cheiro junto que os mais novos vão dizer que você tem um odor estranho. Dirão que é falta de banho, mas não é nada disso. São os moços, os trabalhos, as lembranças, as crianças, os cachorros e os arco-íris.

Eu enfio meu nariz nos teus cabelos pra sentir esse teu cheiro de vida inteira pra ser vivida. Aproveite, minha filha.