julho 2011

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– A vó mandou perguntar se você tá namorando.
– Não, mãe, não tou.
– Então deixa eu perguntar: e paquerando, você tá?

Eu me pergunto sempre que diabos minha mãe quer dizer com eu estar paquerando alguém. Ela tá querendo saber do cara que pediu meu telefone no mercado ou do provável futuro namorado que vai finalmente desocupar os armários onde ela guarda meu enxoval?

Sim, eu tenho um enxoval.

Eu não sei se eu já tinha escrito a palavra alguma vez na vida. Olhando assim pra ela, sinto até um certo calafrio. Mas é fato: tá lá, na casa da minha mãe. Panos de prato com detalhes em ponto cruz, toalhas de mesa crocheteadas, lençóis com bordado inglês. Tem até toalhas de banho que eu, moça prendada, bordei – ninguém me disse, na época, que eu só poderia usar quando casasse.

Acredito que já deve ter sido muito chique ter um grande estoque de cama-mesa-e-banho. Toalhas fofinhas que secariam o seu benzinho, guardanapos que limpariam aquela boquinha que você ia encher de beijo, cobertores para esquentar o casal de pombinhos. Enxoval era uma coisa caramelo, doce e cheia de açúcar.

Hoje, um enxoval é muito mais que o kit básico para o amor recém-casado. É a esperança de que haverá um casamento. Um dia. Com festa, vestido branco e bolo com noivinhos. Com arroz na saída da igreja e um sermão que a noiva não vai prestar atenção pra não chorar e borrar a maquiagem. Enquanto houver cobertores peludinhos e toalhas com bico de crochê, sempre pode haver casamento.

É por isso que minha mãe não deixa eu mexer no meu.
– A mãe ainda acha que você casa.
– Mãe, pode ser que eu não case nunca.
– Vamos esperar mais um pouco.

E assim vai. Eu titubeio pra responder se estou paquerando alguém, mas acabo admitindo que sim. E lá vão mais uns lençóis pro armário da minha mãe…

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Texto originalmente publicado em 13/04/2008, quando este blog era hospedado no Portal RPC.