outubro 2010

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Eu acho engraçada a tal evolução das coisas.

No princípio, o homem tinha que correr atrás da caça quando queria se alimentar. Não devia ser uma coisa muito divertida de se fazer, especialmente quando se está com fome. Mas era assim que funcionava. O ser humano era nômade – quando acabava a comida em um lugar, ele catava suas coisas e seguia o trecho.

Até que, um dia, alguém (reza a lenda que foi uma mulher) descobriu que dava pra fazer uma hortinha ali do lado de casa, e ninguém mais precisava se mudar. Pra quê! A mulher passou a ficar em casa, cuidando da plantação, enquanto o marido ia caçar.

Concordo que uma coisa mudou há pouco nessa linha de evolução: o fato da mulher ficar tomando conta da casa e das crianças enquanto o homem bota a comida na mesa. Mas isso é assunto pra outro dia.

Eu sei lá quem foi o primeiro maluco que se arriscou a tanto, mas o fato é que algum corajoso resolveu montar num quadrúpede qualquer e aprendeu que era possível domar cavalos, mulas, jegues, camelos e até elefantes. E logo o ser humano quase não andava mais a pé: subia na sua montaria e ia fazer o que devia ser feito.

Li um texto do Drauzio Varella no fim do ano passado que dizia que o ser humano é preguiçoso por natureza. Se existe a possibilidade dele não fazer alguma coisa, ele não fará – especialmente exercícios físicos. Hum. Está explicado.

Depois disso vieram automóvel, batedeira, vidro elétrico, liquidificador, máquina de lavar, controle remoto, disque-pizza. Tudo para você se movimentar o mínimo possível. Porque, resumidamente, a tal de evolução nada mais é inventar um jeito novo e prático de você não fazer absolutamente nada.

Dizem que a necessidade é a mãe da invenção. Discordo. A preguiça é que dá origem a tudo.

Numa tarde qualquer dessas, eu me ponho em frente à televisão e vejo um canal desses de venda pelo telefone. Esteiras, aparelhos para auxiliar na feitura dos exercícios abdominais, bicicletas ergométricas, “uma academia em sua casa!”. Me caiu a ficha: por que a gente faz tudo pra economizar o gasto de caloria se, depois, vai ter que inventar um jeito novo de gastá-la?

Por que evita baixar o vidro do carro com a tecnologia da manivela e não levanta pra trocar o canal da televisão se, no final das contas, vai se matar na academia durante duas horas, pulando feito besta numa caminha elástica? Mais que isso, por que agora que não é mais preciso passar fome, tem tanta gente sem comida e um outro tanto que tem o que comer mas não o faz porque está de dieta?

Essa evolução não parece fazer muito sentido pra mim.

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Publicado originalmente no jornal Hora H, de Curitiba, em 15/2/2006.

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Eu queria escrever sobre o rodeio das gordas da Unesp , mas não vai dar tempo agora. Se essa barbaridade ainda for assunto semana que vem, faço um post. Eu só queria que tratassem os culpados como boi por um dia – com direito a castração.

Curiosa a tendência do ser humano ser um perdedor. Não, não do jeito que você está pensando. Mas note: a cada dia, uma coisa nova se perde. Também se ganha, afinal, a vida não é só derrota. Nem que seja uma lição de moral.

É que, se olhar bem, alguma coisa sempre está sendo perdida. Nesse exato momento, você pode estar deixando de aproveitar um dia bacana porque tem que trabalhar, um filme ótimo porque não deu tempo de ir ao cinema. Um texto que você recortou no computador e nunca foi colado em lugar nenhum. Um telefone importante, como o da menina que não beijou, mas deixou um número num guardanapo de boteco. Sem falar nos guarda-chuvas, nos botões desprendidos, nas pastas de papéis e nas dentaduras postiças, como bem já observou Mario Quintana.

Mais que objetos, uma das coisas que me incomoda muito é perder sonhos. Esses que a gente tem quando criança, de ser astronauta, motorista de ambulância e jogador de futebol. De ser rico e poder comprar todo o chocolate do mundo, de ter todos os trabalhos de matemática feitos miraculosamente de um dia para o outro. De ser feliz daquela maneira prosaica de quando se tem oito anos, que é tomando sorvete e jogando videogame.

A gente cresce e perde um pouco da ingenuidade e da sinceridade infantis. Perde também a virgindade – nem sempre com a pessoa certa –, o namorado, vários namorados, o marido, vários maridos. Fica sem noção, sem cabeça, às vezes até sem rumo.

Perde-se a coragem de assumir que se gosta de alguém, o chão, o tampão da cabeça e a caixa preta, especialmente depois de um daqueles porres homéricos em que, de maneira geral, perde-se além da memória, o tato, o bom senso e o pudor. Já vi gente perder a vergonha e a vontade.

E é tanta coisa que se vai. Pai, mãe, amigos, gente que nunca deveria ir embora, mas vai. E então perde-se o sono e a fome. E a vontade de viver. Tem quem perca no futebol, tem gente que se perde na vida.

O que eu nunca vi ninguém ficar sem foi o medo. Alguns passam, está certo. Os primeiros a ir embora são aqueles meio bobos, de escuro e de bicho papão. Depois de crescido, de dirigir, de avião, de se envolver, do que os outros vão dizer. Mas alguém que não tenha medo de nada, disso eu nunca tive notícia.

Impossível dar fim em todos os eles, acho. Mas quanta coisa a gente deixa de fazer por conta disso. Paradoxalmente, a única coisa que não se perde é a que mais nos faz perder.

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Publicado originalmente no jornal Hora H, de Curitiba, em 2/8/2005.

{ Memorex }

Existe uma frase que diz “uma consciência limpa é, não raro, sinal de memória fraca”.
(ou coisa que o valha; esse é um texto sobre falta de memória, não exija esse tipo de informação)

Sou péssima pra datas, nomes e rostos. Absolutamente incapaz de fazer sinopses de filmes e resenhas de livros. Fatos que eu quero esquecer me perturbam a cabeça todos os dias durante uma semana, para serem perdidos para sempre – queria algum pra exemplificar, mas não me lembro. Não posso fazer parte de fã-clubes porque não consigo lembrar o nome completo de cinco pessoas que eu não conheço. Sei o nome dos quatro Beatles, mas não me peça os cinco Stones – mesmo que eu quase goste mais destes últimos. Nunca sei a ordem dos livros de O Senhor dos Anéis e Harry Potter.

Pessoas não muito próximas que mudem o corte de cabelo serão ignoradas. Não é porque eu te beijei que lembro o seu nome. Posso ter jurado amor eterno e não fazer a menor idéia do seu nome. Mesmo. Em dias de casamento, me apresento a noivas com quem já tomei cerveja alguma vez, mas, ahm, esqueci. Assim como eu não faço mais a menor idéia de quais são os pontos do tricô.

Mas eu recordo o telefone do namorado que eu tinha em 1997 e o endereço da casa que eu morei em 1991. Sei o RG da minha irmã. Consigo declamar “Via Láctea”, do Olavo Bilac. Posso dizer o nome da filha da Carla Perez. Devo ser uma das quinze pessoas do mundo que lembra da página dos hamsters dançantes, um dos primeiros virais da internet.

A letra de Sandra Rosa Madalena, os jingles de cremogema, guaraná e cotonetes. A placa do carro que eu não tenho mais e a musiquinha do aniversário do Papai Smurf. Fofocas cretinas de subcelebridades em geral. Disso tudo eu lembro.

Chamar minha memória de “seletiva” é, no mínimo, uma ironia.

Eu sou do tempo em que se fervia leite. Se você desse as costas pro fogão, ele fervia e derramava todo. Hoje, se o ritual ainda fosse necessário, arrisco dizer que metade da população abandonava a média e passava a tomar café preto.

A gente não sabe mais esperar. Janta a comida feita em quinze minutos, encontra o amor na balada em dez, decide que ele não é o cara em cinco e devora o pote de sorvete em dois. Pra começar tudo de novo no dia seguinte. E se todos os dias não forem felizes, e se todos os dias não forem cheios, e se eu não for e você não se tornar, então é que não esperaremos mesmo. Mesmo que seja só depois de amanhã.

Até ver que algumas pessoas valem a pena serem cuidadas para florirem uma vez ao ano por duas semanas. Regadas semanalmente, adubadas semestralmente, só para exibirem o melhor de suas flores vermelhas. Coisa pra se aprender com quem vive de esperar: a melhor ação, no melhor momento, pode não valer nada se o tempo não ajudar. E se por isso o agricultor desistir antes de começar, não haverá trigo, nem cana e nem cevada – e a espera no bar será ainda maior.

A espera pertence às partes emocionantes. É Dona Morte e Dona Cegonha sentadas no banco olhando para o relógio de parede. Uma delas pronta pra levantar ao andar do querido em sua direção, às tentativas de concepção, aos três segundos de susto antes de saber se está tudo bem.

A gente sempre acha que tá atrasado. Se não valer a pena agora, não valerá nunca. Se falta paciência pra encher a garrafa d’água, imagine encher uma vida. Moça, faz favor: me vê um amor, um casamento, um par de filhos e um emprego. Mas é pra já porque eu tou com um pouquinho de pressa.

Coloque o leite pra ferver, amor. Eu espero.

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E esperar elevador? Avião? Na fila?

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Ainda preciso fazer um texto sobre os “sou do tempo que”.
Putz, tou ficando velha!