agosto 2010

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{ Carta ao Rubens }

Ele não me olhou e disse que meu texto era uma droga. Não era. Que a faculdade era dinheiro desperdiçado e que eu devia fazer outra coisa da vida. Não sei. Só uns três anos depois eu tive vontade de lhe acertar uma cusparada entre as sobrancelhas – naquele instante, eu só voltei ao meu lugar.

A gente cresce aprendendo o que não ser. Não seja chato com seu irmão, não mexa nisso, não seja preguiçoso. Seu texto não é bom, não use essa roupa na entrevista de emprego, não deixe verem que você é tatuada. O que não foi negado também não significa ser aprovado: aguarde e ouça que também não pode.

Eu acabei o curso; nunca ganhei um centavo com qualquer texto meu. Fui fazer outra coisa, ao lado de um monte de gente que escrevia. Eu só sabia o que não ser. Eu não era jornalista e não era outra coisa.

Quando você não é, existir não é uma coisa que faça sentido. E foi assim que a gente se encontrou. Eu já estava aqui, mas não assinava meu nome (eu não existia, você sabe). Primeiro, eu só via o muro. Depois, os prédios. Parece que sempre chovia e sempre fazia frio, enquanto ele fumava e eu falava. E aqueles lírios-da-paz atormentados.

Ia começar a publicar uma coluna às quartas em um jornal de segunda. Meu nome e minha foto. Ele me disse que já era hora de tirar o saco de mercado da cabeça.

É por isso que eu existo. Eu quase arrisco dizer que tudo que aconteceu depois é por causa dele. Na verdade, era só eu existindo.

Ao meu guru e meu gênio da lâmpada, o melhor de toda e qualquer existência.

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Uma hora ele vai ter um texto melhor que esse. É só que eu tenho saudade.

{ Feminista, eu?* }

Eu nunca fui bonita.
Correção: eu nunca me achei bonita. Isso não fez de mim uma feminista, mas me fez perceber que mulheres têm mais a oferecer do que um corpo sarado e um cabelo bem cuidado.

Dei meu primeiro beijo com 11 anos, em 1992. Minha mãe disse que eu ia virar “vassourinha”, que passava de mão em mão. Tive o primeiro namorado com 15. Tive 8 namorados (com direito a título de namorado mesmo, de verdade – o que, segundo minha cunhada de 18 anos, é bastante). Saí com tantos caras que não me lembro o nome de alguns.

Eu sempre fui esperta. Aos 14 anos, um menino do colégio inventou que a gente tinha transado. Já me achei feia, mas nunca me achei burra. Negar fofoca nunca levou ninguém a lugar nenhum: eu contei, chateada, que desejava muito, mas na hora ele não conseguiu. Eu podia ser biscate, mas ele ia ser broxa.

Aprendi muito cedo que as pessoas podem dizer as piores coisas a seu respeito e que isso não faz a menor diferença. A atitude é tão perceptível que se reflete em respeito. Acredite: eu tinha notas ótimas, cabelo curto, era gordinha e usava óculos – e ninguém se metia comigo.

Eu cresci com preconceito de mulher bonita. Beleza e cuidado passaram a significar falta de preocupação com coisas mais importantes: uma vida, por exemplo. Morei sozinha durante seis anos. Eu saía, festava, bebia, trabalhava, pagava minhas contas, fazia uma segunda faculdade e eu consigo contar nos dedos de uma mão quem acreditava que eu ia me casar.

Nos idos de 2003, eu comecei a fazer terapia e me tornei feminista.

Tudo antes não era feminismo. Era um machismo ao contrário. Mulheres devem ter direitos iguais aos homens porque, antes de sermos macho ou fêmea, somos pessoas. Assim como negros, japoneses, islâmicos, espíritas, gordos, loiros ou feios. Mas, não, nós não somos todos iguais. E foi uma das maiores lições que eu tive nos quatro anos de terapia.

No lançamento do filme Sex And The City 2, os fóruns na internet desdiziam da modernidade do quarteto porque, no fim das contas, todas procuravam um marido. Eu prefiro dizer que elas procuravam o amor, assim como pelo menos 90% da população do mundo (numa estatística puramente inventada). Ninguém me disse que, na pretensão de ser moderna e independente, eu teria de ser sozinha. Eu, mulher moderna, não posso me casar. Eu, mulher feminista, não posso ter cabelo arrumado e não posso fazer a unha toda semana.

Hoje, o sexo feminino tem independência financeira, vota, usa anticoncepcional e eu realmente agradeço a todos (todas?) que lutaram para que esses direitos fossem alcançados. Mas não concebo que isso se transforme em dever, ou, ainda, que me retire direitos que eu já tinha. E se eu quiser me dedicar exclusivamente à minha família? E se eu não quiser trabalhar fora? E se eu quiser casar? Isso faz de mim uma pessoa que não acredita no poder, na inteligência ou na liberdade da mulher?

Lá na década de 90, o jogador de vôlei Tande se casou com a atriz global Lisandra Souto; ela deixou a carreira para cuidar da família. Eu me lembro porque horrorizei e maldisse umas sete gerações da pobre moça. Onde já se viu um negócio desses? Deixar a vida profissional por causa do marido? Nunca pensei na possibilidade dela querer aquilo. Não, eu realmente não era feminista.

A meu ver, feminismo é um conceito muito mais amplo, que permite às mulheres realizarem tudo aquilo que desejarem, não só porque são capazes – mas, essencialmente, porque as torna felizes. Sim, nós temos direito.

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*a Lola, do Escreva Lola Escreva, montou um concurso de blogueiras com o tema “A origem do meu feminismo”. Essa é a minha história.

É fácil! Coloque 250 ml de água (filtrada ou mineral, de preferência) para ferver.

Aproveite esses minutinhos e vá checar seu twitter. Acompanhe a polêmica do momento e atualize-se sobre todas as possíveis piadinhas (para contar aos amigos no bar). Responda suas caixinhas pulantes de MSN.

Volte à cozinha. Note que há uns 50 ml de água na chaleira que, por muito pouco, não teve o fundo sapecado. Recoloque a água fervendo no utensílio medidor e complete com água (filtrada ou mineral, de preferência) até atingir a marca de 250 ml. Leve ao fogo e observe atentamente o aquecimento da água.

Se o telefone tocar, atenda e proseie com sua amiga que ligou para contar da cirurgia da avó, perguntando pela saúde da velhinha e estimando melhoras. Não esqueça de contar que vai viajar na sexta-feira – e ainda precisa lavar roupa!

Retorne rapidamente à cozinha. Note o nível baixo de água na chaleira. Recoloque o líquido fervendo no utensílio medidor e complete com água (filtrada ou mineral, de preferência) até atingir a marcar de 250 ml. Leve ao fogo e, peloamordeDeus, observe atentamente o aquecimento da água.

Com um olho na cozinha e outro na área de serviço, coloque a roupa para lavar, com o cuidado de separar as peças por cor. Encha o compartimento da máquina com sabão em pó e amaciante. Ligue o equipamento eletrodoméstico.

Corra para a cozinha. Despeje o conteúdo da chaleira no utensílio medidor e sorria ao notar que há 250 ml de água fervente. Acrescente o envelope de gelatina (é necessário abri-lo antes) e mexa até a total dissolução do pó. Complete com água gelada até a marca de 500 ml. Leve para gelar.

E eu nem gosto de gelatina.