julho 2010

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{ Um conselho }

– Ela disse pra eu não ir atrás porque ele é canalha.

– Arram, é a primeira que eu vejo na vida. Toda mulher gosta de homem que não vale nada, criatura. Presta atenção.

– Ah, eu também não gosto de homem mulherengo.

– Sei, e o cara antes dele?

– Aconteceu.

– Nada. Sabe quando você faz regime, doida por um chocolate, e decide não comer pra manter a linha?

– Ahm.

– O chocolate deixa de ser gostoso por isso?

– É até mais.

– Homem mulherengo também. Você só decide não comer pra manter a linha.

– E qual é o pior tipo de homem então?

– O que dobra.

– Ahm?

– O homem que dobra. Quando Marvin Gaye estiver cantando, as taças postas na mesa de cabeceira e seu vestido no chão, ele vai tirar e dobrar as calças. Cuidadosamente. E apoiá-las em algum lugar em que não amassem. E depois vai dispor as meias, esticadinhas, uma sobre a outra: dobra e dobra.

– Não tou entendendo.

– Nunca haverá roupa espalhada pela casa, minha cara. Nunca.

– Mas e…

– Não discuta. Ligue pro canalha.

{ Anima Mundi }

Não sei porque animações me fascinam tanto. Ou teatro de bonecos. Acho que gosto da sensação de tudo ter vida própria – até o que não existe.

Eu gosto de limpar a mesa de vidro e ouvir aquele barulhinho, como se a mesa tivesse cócegas. Quando dou sinal pra mudar de faixa no trânsito, eu ouço o “tic-tic” da seta e imagino o carro dizendo “dá licença, dá licença” (como a gente faz no meio da balada, carregando a cerveja, a comanda e o amigo bêbado). Eu guardo meus livros do Veríssimo ao lado dos da Clarice Lispector, que é pra ver se ela se diverte um pouco, coitadinha.

Gosto de pensar que as histórias se escrevem sozinhas, que bonecos se mexem sem ajuda e que cachorros discutem a relação, como nesse aqui. Devo ter uns cinco anos e não percebi.

Você conhece um cara. Perfeito. Tem certeza que ele é o cara que vai esquentar suas orelhinhas nos próximos invernos. E ele nunca mais te liga.

Você decide fazer uma plástica. Adeus, barriga; alô, peitos. Até já se imaginou desfilando de biquininho na praia. E descobre que nunca vai poder pagar pela cirurgia.

Você compra um vidro de palmito. Finalmente vai fazer aquela receita genial que está marcada há quatro meses na sua lista de favoritos. E o palmito tem um gosto estranho.

É isso. Algumas histórias só tem começo.

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Trinta anos e não tinha casado. É como ser a última escolhida pra formar o time de queimada. Não é desespero: é só a sensação de que todo mundo comeu bolinho e não sobrou mais nenhum.

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Uma agulha bem fina entrando na cabeça – atravessa a têmpora direita e espeta bem no meio do cérebro. Três e meia da manhã. Deve ter sido alguma coisa que eu comi. Deve ter sido algum moço que eu beijei. A cabeça latejando.

Não dá pra dormir com esse silêncio todo.

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Saia da zona de conforto. Pegue o telefone e diga que o ama. Faça dieta. Corte o cabelo. Mude de emprego. Seja otimista. Vire dona de casa. Aprenda a costurar. Volte a estudar.

Todo dia eu dou as mesmas desculpas para continuar fazendo as mesmas coisas. E não terminar nenhuma delas.

{ Coisas de Amélia }

Ah, a independência doméstica! Uma casa só sua, pra lavar, passar e cozinhar como bem entender. Quer dizer, mais ou menos. Apresento quatro frases batidas que devem ser consideradas caso você pretenda se tornar Amélia, uma mulher de verdade:

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1. Sempre alerta!

As pessoas que escrevem sobre vida doméstica querem fingir que você tem uma vida. Não acredite. Nunca cometa a sandice de deixar a roupa (ou a louça) lavando na máquina para realizar qualquer outra atividade a mais de 100 metros de distância. Nunca. Eu sei, eles vão dizer que é seguro e totalmente aplicável no dia-a-dia – eles estão errados.

Máquinas de lavar são seres vivos carentes dotados de vontade própria. Quando notarem que você não está por perto, soltarão as mangueiras de escoamento de água, transbordarão espuma, farão barulhos estranhos e mancharão suas roupas de graxa.

Seja amoroso e mostre sempre que está por perto.

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2. Decepção não mata, ensina a viver.

A receita dizia que seu caldo de galinha ia levar meia hora pra ficar pronto. Sua amiga disse a mesma coisa pelo telefone. Você acredita, mesmo que todos os chefes de cozinha do mundo tenham dito que esse é um processo lento e doloroso. Seis horas depois (eu disse seis horas!), você obtém o suco de uvas Gummy dos risotos – um caldo de galinha com aparência bacana.

A primeira reação é acreditar que, por ter gasto cinco horas e meia a mais que o previsto, esse será o almoço mais incrível da história. Faço as apresentações: você, decepção; decepção, você. A cozinha, como o futebol, é uma caixinha de surpresas. Ambicionar acertar o ponto de qualquer coisa, do ovo frito à panna cotta, trará frustração em 90% dos casos.

Seja desapegado: lave suas caçarolas e comece tudo de novo.

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3. Desgraça pouca é bobagem.

A vida doméstica é como um relacionamento amoroso: exige exclusividade. Não a desmereça. Não traia seu fogão com uma soneca enquanto os biscoitos assam, nem com uma conversa prolongada pela internet. Se fidelidade não é seu forte, sugiro um curso de primeiros socorros e procedimentos de emergência com a vizinhança – você não vai querer que a velhinha de 75 anos da porta ao lado ligue o ventilador para dissipar o gás que vazou enquanto você sonhava que Ivete Sangalo era sua amiga íntima (e vocês tomavam café e comiam bolinhos).

Seja fiel ao funcionamento do seu forno; dedique-se exclusivamente a vigiá-lo (cantar “I’ll be watching you” durante o processo é opcional).

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4. Se conselho fosse bom, não se dava…

Contrate alguém que faça isso tudo por você. E vá ao cinema.

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ilustração: Chantal Wagner Kornin

Deve ser difícil ser fã nos dias atuais.

Quando eu era adolescente, havia o surto histérico dos meninos do vôlei – a seleção brasileira masculina de vôlei, campeã olímpica em 1992. Era um tal de Giovane pra lá, Maurício pra cá, com a adolescência enlouquecida tentando conseguir de tudo sobre os caras. Mas não havia tanto material. Sem internet e sem revistas de fofoca, tudo o que você sabia é que, bem, os caras existiam (pelo menos eu acho que existiam).

Eu cometi lá as minhas vergonhas adolescentes. Comprei o livro do Zé Roberto, técnico da equipe. Pior: eu mandei um cartão pro Marcelo Negrão. É, eu sei, eu sei. Deve ter alguma coisa a ver com hormônios (como se já não bastassem as espinhas). E foi só.

Hoje, para ser um bom fã, é preciso acompanhar blog, twitter, orkut, facebook, myspace e, se der tempo, mandar umas mensagens de eu-te-amo-você-é-o-ovo-da-minha-marmita. Defender os caras em comunidades eu-odeio-essa-banda, fazer campanha na internet e criar um nome de usuário que exprima todo o seu amor (e que seja inédito).  Se o ídolo for internacional, todo esse empenho será multiplicado pelas horas despendidas em tradutores online.

Até seu objeto de amor idílico enlouquecer e distribuir guarda-chuvadas em fotógrafos. Ou o galã desfilar com o relógio caríssimo dado pelo novo namorado. Ou o jogador ser acusado de matar alguém.

São tempos difíceis pra quem só quer dar amor.

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Dúvida 1: se eu quisesse fazer uma carta de sete quilômetros cheia de marca de beijo com batom de todas as cores, eu teria o número de uma caixa postal pra enviar?

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Dúvida 2: alguém ainda canta o ai-aiaiai-em-cima-embaixo-puxa-e-vai?

{ Dos meus amores }

Aqui onde eu moro tem mar. Mas eu troco essa água salgada toda por uma bolinha gigante de papel pra poder jogar na Pati (especialmente agora que ela tá de cama e não pode correr, hohohoho).

Aqui onde eu moro faz calor. Mas eu prefiro o frio, se puder ir pro bar tomar uma cerveja com a Tati. Mesmo que eu fique tentada a tomar um vinho ou que eu esteja de dieta pela milionésima oitava vez.

Aqui da minha janela eu vejo o azul do oceano. Mas eu troco pelo meu apartamento com vista pro vizinho, se a Ana for lá toda terça-feira e cuidar de mim. E falar dos parentes todos como se eu realmente entendesse a árvore genealógica da família dela.

Aqui na minha cidade tem o Cristo Redentor. Mas eu nem ligo. Queria poder ir buscar a Si lá na França, essa cretina que quer se amarrar ao farol de Biarritz (ainda que, no momento, ela esteja em Genebra).

Aqui quase sempre faz sol. Mas eu não me incomodaria com os dias cinzas, se eu pudesse ver a Dani falando pelo sovaco quando toma umas a mais. Tra-van-do as sílabas daquele jeito que só ela consegue e que me faz rir até doer as bochechas.

E se aqui tem feijoada em Santa Tereza, lá onde Karlinha mora tem acarajé de Cira. Eu não me incomodo de substituir por aipim com bacon, só pra poder ouvir o sotaque curitibano mais baiano que eu conheço.

Aqui tem Lapa, samba, Copacabana, Pão de Açúcar, mas não tem a Jenny, a Lica, a Chan e a Geli.

Aqui tem ele. Minha saudade toda fica aí com vocês.

{ Conversa }

Era uma menina miudinha. Abraçava a boneca de cabelo desgrenhado enquanto falava.

“Eu tenho um namorado, tia. Um não, eu tenho dois.” Dei risada, ela também. “Eu gosto mais de um, mas o outro veio e disse que gosta de mim, então eu namoro ele também”.

Achei engraçada a lógica filantropo-amorosa. Se alguém gostava dela, como não corresponder? Chegou o prato de sopa e ela encheu a boca. Falou cuspindo a comida. “Mas eu já sei com qual eu vou casar, tia. Eu vou casar com o mais bonito!”

Devia ter uns seis anos. Vida boa: mal sabia ler, já tinha dois namorados. E sabia com qual casar. Faria inveja pra algumas amigas minhas. Tagarelava mastigando, a boneca caída no chão. “O que eu gosto, tia, é da minha classe. Ele me empresta o lápis de cor quando eu preciso e disse que gosta de mim, mas eu não vou casar com ele porque vou casar com o outro”. Danada de ligeira.

Falava mais que o homem da cobra. Matraqueava tanto que não sei como conseguiu esvaziar o prato tão depressa. Eu quis saber do outro. “Ah, ele veio um dia e falou que eu ia ser namorada dele pra sempre.” Catou a boneca do chão. Perguntei se ele era da escola.

“Não, tia, eu vou casar com meu pai. Ele vai me dar um neném, sabia? Ele que disse.”

A sirene tocou e a turma saiu correndo. Nunca mais eu vi a miudinha.