junho 2010

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{ Copa? Ahn? }

Eu não ligo a mínima pra Copa do Mundo. E não faço questão de assistir a jogo algum – nem mesmo aos do Brasil.

Eu não me importo se é a primeira vez que o Paraguai se classifica para as quartas-de-final ou se o Cristiano Ronaldo não jogou nada. Que se dane se a Holanda não ganha do Brasil desde 1974, se o Chile não derrotava Honduras desde 1962 ou se o Elano só vai voltar a jogar na final. Aliás, eu nunca queria ter sabido disso (mas eu também sei letra de música da Kelly Key, então abstrai).

Se você assiste a todos os jogos do seu time (partindo do princípio que você torça por algum time), sabe a escalação e gosta do blablablá dos jogadores, eu compreendo que você considere a Copa um evento genial. De verdade. E é fácil entender porquê (coerência, querido, coerência).

Mas a namorada do cara passa o ano todo reclamando que ele quer ir ao estádio ao invés da festa da tia-avó, não sabe a definição de impedimento e é incapaz de dizer o nome do goleiro do time pelo qual ela diz que torce. Ah, não tente me convencer que faz sentido.

E olhe que eu sei o que é impedimento.

{ Casamento }

Houve uma época em que eu achava que, para existir casamento, era preciso não existir rotina. Você sabe, eu disse naquela noite. Na segunda. Eu queria alguém pra me embriagar em companhia e, ao chegar em casa, dormir no tapetinho da porta porque nenhum dos dois era capaz de enfiar a chave na fechadura. Fim.

E hoje nós estamos aqui e eu peço pra ficar em casa. E você fala do livro que está lendo, eu conto que a vizinha tem um timbre de voz inacreditavelmente agudo, a gente discute o que não tem para o almoço e você pede um café. E eu choro, não porque eu não queira fazer ou não goste de café, mas é porque, às vezes, é assim que eu sou.

Um band-aid e uma cara de preocupação acompanham quando eu corto o dedo. E fazia tempo que eu não cortava. Você levanta e vem correndo ao invés de só perguntar se eu estou bem. Eu sei que você enlouquece trancado em casa, mas você aceita. E mente jurando felicidade, só porque você me ama.

Porque é isso que o amor é. Você de pijama, a gente vê um filme triste, um filme fofo e um filme ruim. E no próximo eu já estou dormindo no sofá aconchegada em você, que é uma das coisas que eu mais gosto de fazer no mundo todo. Só porque eu te amo.

Não fazer nada, fazer o que quiser. Sexo, carinho no cabelo, cosquinha, risada. Porque você me faz rir enquanto eu choro e isso quase me faz parecer doida. Não mais que você atazanando a gata, que era minha e agora é nossa. O que antes era meu, só meu, é nosso. Meus dias, inclusive.

No fim, a rotina não faz a menor diferença. Ficar, sair. Porque quando você passa a semana toda fora, eu não quero mais nada a não ser que você volte. Se eu estou aqui, não é por mais nada além de você. E é tão bom.

Semana que vem você escolhe o que fazer.

{ Meninos e meninas }

Levantou, lavou o rosto com sabonete específico para pele oleosa e passou o gel antiidade. Hidratante com protetor solar. Notou um pêlo fora da linha das sobrancelhas e, cuidadosamente, tratou de exterminá-lo com a pinça. Um pouco de pomada nos cabelos.

Era ele. Um moço. XY.

Não dá. Desculpa. Homem nenhum no mundo devia saber que existe uma gosma de uso capilar chamada “pomada”. No máximo, pomada serve pra passar na frieira. Para hidratante, só existe uma classificação – e não faz a menor diferença se é pro corpo, pro rosto, pras mãos ou pros pés. É tudo “creme”.

Eu não gosto de menino com cara de menina. Eu quase gosto de meninos que sabem combinar roupa – mas não muito, por favor. E, claro, agradeço o banho e a barba aparada, mas não tenha mais de seis produtos cosméticos no banheiro. Xampu, condicionador, espuma pra barba, loção pós-barba, perfume e desodorante. Acredite, é só disso que um homem precisa.

Admito o uso do protetor solar porque quase se encaixa como item de saúde. Inclusive peço pro marido usar – e ele se recusa veementemente. O moço pode se cuidar o quanto quiser pra você. Mas, pra mim, não faça as unhas, não se depile e não pinte o cabelo.

A grande bacanice do mundo é existirem homens e mulheres. Por favor, não me confundam.

Ah, a tecnologia. Até minha mãe tem endereço de e-mail. Ela, que nunca soube programar o vídeo-cassete, agora tem um computador só pra ela.

Nos primórdios da internet, uma das revistas de adolescente resolveu divulgar o endereço de e-mail do Brad Pitt. Era 1995. Época em que poucas pessoas no mundo sabiam que diabos era correio eletrônico. Mas, como toda boa e qualquer fã pirralha, a juventude queria demonstrar seu amor.

Minha amiga apareceu com o envelope:

Para:
Brad Pitt
bradpitt@hotmail.com

(sei lá qual era o endereço dele, mas, juro, ela queria mandar uma carta pro e-mail dele)

Eu tentando explicar: olha, isso aqui é um endereço que você manda por computador. Não, eu não sei como funciona. Eu vi no jornal, presta atenção: isso é um negócio que eles chamam de correio eletrônico!

Ela foi aos Correios com o dito envelope. Sei lá se eles aceitaram.

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Em 1996, eu descolei meu primeiro namorado: um moço nerd de 16 anos que trabalhava com alguma coisa de informática, tinha aulas de Cobol e me mandava cartas digitadas com temas ilustrados. Eram tão bregas que eu não tenho coragem de jogar fora. Uma delas era uma correspondência datada de 2010 (sim, no futuro!) – em que ele dizia estar numa conferência no Japão e aproveitava pra me mandar um e-mail.

Eu achava que ele era maluco, mas não tava de todo errada. A carta do futuro perguntava se o Leonardo, nosso filho imaginário, tinha melhorado da febre. Fora o inconveniente de escrever tudo no diminutivo, o que me fazia sentir uma formiga vivendo com elefantes. Mas uma coisa eu não posso negar: ele estava certo sobre os e-mails.

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Até praticamente o fim do primeiro grau, meus trabalhos da escola foram entregues em folhas de papel almaço. Era tudo feito à mão, com uma capa escrita com letras rebuscadas. Bom, era uma tentativa de parecer rebuscado. Eu tinha computador em casa desde os 11 ou 12 anos. Um daqueles de tela preta e letrinhas verdes, em que, pra acessar os programas, você precisava saber os comandos, não era só sentar e clique-clique-clique.

Eu tive cadernos de caligrafia. Preenchi vários. Minha letra é bonita, mas vocês nunca vão saber.

{ O clichê da data }

Dia dos namorados chegando e você ainda não pensou em nada? Já tá atrasado no cronograma, mas ainda há tempo.

Para agradar a namorada:

Programe, com uma semana de antecedência, o tipo de evento a ser realizado. Jantar? Queijos e vinhos? Fondue? Precisa reservar? Precisa ir ao mercado? Precisa aprender a cozinhar?

Compre o presente caro que ela queria. Namoradas dão dicas e namoram vitrines em véspera de datas que signifiquem consumo, portanto não diga que não sabe o que ela quer.

Encomende uma cesta de café da manhã e um ramalhete de flores bacanas. Nada de cesta dieta e meia dúzia de rosas, por favor.

Espalhe post-its pela casa explicando de onde vem tanto amor. Por que, ah, quem manda ela ser tão linda?

Encha a gaveta dela de paçoquinha AMOR. Só pra ser um docinho.

Invada o estacionamento e amarre balões em forma de coração no pára-choque do carro. Certifique-se que a mensagem do balão não seja “amorzinho do papai” ou similares.

Providencie uma massagem com óleos e um banho de espuma. Não quero saber se você não tem banheira, rapá!

Reserve uma noite num hotel bacana, com direito a kit de dia dos namorados. Hotel bacana, não esquece.

E prepare-se para ouvir reclamações por você não ter ligado na hora do almoço. Ou a desconfiança de que você é um maníaco obcecado por ela. Ou o desprazer de ser um arruinador de dietas. Não importa, ela vai reclamar de alguma coisa.

Para agradar o namorado:

Libere-o pra assistir os jogos da Copa do Mundo com os amigos.

(Brincadeira.)

Use uma lingerie sensual e libere-o pra assistir os jogos da Copa com os amigos. Leve uma caixa de cerveja e ele vai te amar pra sempre.

Dias de sol me lembram dias de infância. Não qualquer dia: aqueles passados na fazenda da minha avó, com um monte de gente que também era criança – e que hoje também é gente grande. A impressão que tenho é que nunca chovia quando eu tinha cinco anos, a não ser umas duas ou três vezes ao ano, quando eu tomava banho de chuva.

Vida de criança é boa até quando chove.

No Norte do Paraná, a fazenda da vó tinha aquela terra vermelha, de fazer encardir até dentro da orelha. Subíamos todos, meia dúzia de crianças, na caçamba da caminhonete que ia em direção ao paraíso: um monte de espaço, terra, água e bichos. E sol. A falta de segurança espantaria os pais modernos, mas todos sobrevivemos.

Uma das minhas diversões prediletas era brincar no meio dos tratores, quando todos fazíamos uma corrida imaginária com as máquinas estacionadas. Ninguém nunca se perguntou se devia ser perigoso, mas visto que alguém sempre se estrepava, completamente seguro não devia ser.

Lembro que, só uma vez, eu me atrevi a tentar colher algodão, mas não gostei dele não ser branquinho como o da farmácia. E foi dessa vez, bem no meio da plantação, que eu vi o avião pulverizando veneno bem em cima da gente. E os pais, desesperados com a cena, tentando tirar os filhos dali.

As pequenas coisas eram as melhores. Sentar no chão e chupar cana, correr atrás das galinhas d´angola, correr do cabrito. Brincar com as espigas de milho, sentir o cheiro do bolo assando, passear na carroça do entregador de leite. Na hora de voltar pra casa, eram meia dúzia de seres marrons, cobertos de terra até o pescoço. Nem propaganda de sabão em pó, que tira mancha de azeite e molho de tomate, limpava aquele bando de criança emporcalhada.

Não que fosse necessário ir até à fazenda para conseguir diversão – e sujeira. Quando se é criança, é preciso muito pouco pra ser feliz, e um saco de carvão fazia a alegria de meia dúzia de pequerruchos. O carvão era ralado na calçada e passado no corpo, até ficar bem pretinho. Coisa de criança sem juízo mesmo.

Os dias de sol trazem tudo isso de volta, como se eu nunca tivesse crescido. Talvez por isso eu tente manter essa felicidade infantil, de rir de tudo, mesmo quando tudo parece perdido. De me divertir com tão pouco, de chorar de tanto dar risada, até doer a barriga – como quando minha irmã me fazia cócegas e eu achava que ia morrer sem respirar. Porque vida de criança é sempre boa. Até quando chove.

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Depois de tanto tempo, vou voltar à fazenda da minha avó. Faz muitos anos que eu não vou até lá – arriscaria dizer uns 15. Muita coisa mudou. A meia dúzia de pequerruchos, agora, conta só com cinco integrantes – o mais novo da turma deixou de colher algodão aqui pra brincar com o algodão das nuvens, diretamente no céu. Tomara que lá seja tão branquinho quanto o da farmácia, para que ele não se desaponte. E que peça a São Pedro para mandar dias tão ensolarados como os de antigamente.

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Publicado originalmente no jornal Hora H, de Curitiba, em 30/11/2005.

ilustração: Chantal Wagner Kornin