maio 2010

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Ela é independente. Paga as próprias contas, sai quando quer e não precisa de ninguém para trocar a resistência do chuveiro.

Ela é sexualmente bem resolvida. Arranja um ou outro namorado, se enrosca com um ou outro cara, dorme com quem quer, quando quer. Sabe o que gosta e o que não gosta.

Ela é divertida. Nos bares, tomando seus drinques, fazendo piada e não levando a vida muito a sério.

Se você está noiva, não é uma mulher moderna. Casada também não. Estar realmente envolvida com alguém implica em dividir coisas: contas, cama, bebedeiras. E a mulher moderna não divide, porque é voltada só a ela mesma.

Eu faço o que eu quero, quando eu quero, porque eu posso.

Ser moderna é ser sozinha. Em casa, sem mais ninguém e sem uma garrafa de vinho, ser moderna é ser triste.

{ Argh }

Eu estou tentando me formar. Depois de sete anos, eu quero dar fim na saga que me fez conhecer todas essas pessoas fofas que eu adoro e que virou minha faculdade de verdade, mesmo sendo a segunda.

Na verdade, eu não tenho mais saco pra isso.

O problema é que eu não moro mais em Curitiba. E que a burocracia da universidade exige que eu assine umas folhas dos infernos pra agendar a defesa do trabalho. E os Correios não entregam o Sedex 10 no prazo – são 14h53 e eu nem sei se meu envelope já chegou a Curitiba, que dirá no endereço que devia chegar.

Para manter minha sanidade mental, invisto em uma dieta de 8.900 calorias diárias, rica em gorduras e açúcares. Esse cardápio delícia resulta em aumento das camadas adiposas, e a sanidade mental vai embora gritando que eu preciso emagrecer. Não satisfeita, eu como mais porque me sinto pressionada.

Ó, se o motorista não parar o mundo agora, vou vomitar aqui dentro mesmo.

O que começa mal tende a acabar mal.

Afinal de contas, não era disso que falavam todas as canções de amor? Do que foi. Ou do que teria sido. E dos olhos-brilhantes-lábios-úmidos-peito-arfante-respiração-entrecortada-mãos-pés-cabelos. Ufa.

No quarto, a luz do abajur de repente apagava, para logo voltar a acender. Ela lia – ou tentava ler, já que as letras pareciam se embaralhar e escorrer pelas páginas. Impossível se concentrar. Como?

Afinal de contas, o tal do amor não era só uma reação química completamente inexplicável? Não, isso é paixão. Amor é uma coisa mais sem graça. Não é como estar embriagada todo o tempo, nem se arriscar a tudo por, aparentemente, coisa nenhuma.

Ah, tá.

Não queria falar sobre ele. Sentou no chão, uma lata de cerveja e um monte de idéias. Duas linhas sobre cada assunto. Impossível concatenar o pensamento e unir duas frases sobre o mesmo tema. Política, economia, eleições, Copa do Mundo, a obesidade enquanto epidemia. Nada disso importava. Ele sempre voltava ao pensamento.

Ela não o amava mais. Isso não. Mas havia nisso tudo um quê de perseguição, aquela com que sonhava já há algumas noites. Como naquele sonho da noite passada, em que encontrou a arma a dois palmos, engatilhou e mirou. Três tiros: testa, peito e barriga. E que não mexesse mais com ela. Nunca mais.

Acordada, os prazos começavam a vencer e ela não conseguia trabalhar. Decidiu que aquela história precisava ter um fim. Tomou coragem e mais um gole de cerveja. As idéias agora começavam a fazer sentido.

Entre eles tudo sempre foi assim, meio difícil de definir. Algumas vezes, ficaram juntos sem nem saber, sendo acordados pelo motorista do táxi ao chegar em casa. Em outras, eles sabiam exatamente o que estavam fazendo, mesmo que fingissem que nada aconteceu. Era o tal do amor. Não, amor não, que é muito sem graça. Paixão.

Calçou sua sandália e pegou a chave do carro. Hoje aquela maluquice ia ter que acabar. Não dava pra continuar pensando nele o tempo todo, no que foi e no que teria sido. Agora ele estava com outra, como quando começaram a se encontrar. E tudo o que começa mal tende a acabar mal.

Desceu do carro e foi à portaria. “Apartamento 111, por favor.” Parada em frente à porta, tocou a campainha. Ele a olhou com os mesmo olhos de sempre, por trás do cabelo preto. Um desses momentos em que a gente pára, congelada, e o mundo corre.

Beijaram-se como sempre, transaram como nunca. Beijar é coisa de quem se ama, e aquilo definitivamente não era amor. Porque o amor, você sabe, é aquela coisa sem-graça. Aquilo era paixão.

Estendeu o braço e remexeu a bolsa. Encontrou o que procurava. Descarregou a arma nele. E que não mexesse mais com ela, nunca mais.

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Publicado originalmente no jornal Hora H, de Curitiba, em 25/01/2006.

Porque não tá fácil pra ninguém.

Observar um pretendente no mercado é quase como revirar o lixo dele. Dá pra sacar muitas coisas sobre o hábito do escolhido, sem o inconveniente do mau cheiro (quer dizer, depende do pretendente).

Para reconhecer um bom partido, procure por cervejas/vinhos (em quantidade normal) e ingredientes gourmet, o que quer dizer que ele cozinha (e isso é sempre bom). Mas também pode realizar que o gajo é gay. Se ele estiver penteado e bem vestido, esqueça. Caras com muitas caixas de congelados provavelmente são sozinhos e podem valer o investimento – mas esteja certa de ter a grana do táxi caso ele decida que você deve virar uma pizza às 2h da manhã.

Absorvente higiênico no carrinho anuncia que o moço é comprometido – e muito comprometido, porque carece uma tal intimidade pra comprar absorvente pra alguém, cruzes. Se existirem dois pacotes diferentes, um noturno e um diurno, por exemplo, é porque a mulher manda nessa relação. Ou ele está acompanhado e você não notou: atente para a aparição de uma esposa em fúria, surgida do corredor de enlatados, armada com uma lata de feijoada e pronta para agressão. Hidratantes, demaquilantes, maquiagens e afins também são perigosos – se o pretendente não for casado, pode querer usar sua calcinha fio dental (só por diversão, arram).

Se houver muitos produtos marca própria, como o molho de tomate Mercadorama ou o papel higiênico Extra, esteja certa que você terá de dividir o preço do motel. Itens de higiene pessoal são sempre um bom sinal, afinal, moço limpinho foi bem educado pela mamãe. Finalizadores de penteado, géis e muitos produtos para o cabelo podem indicar um narcisismo não desejado – na hora da cantada, não adianta dizer que ele é bonito: ele vai dizer que já sabe.

A abordagem, aliás, é ponto importante. Dá pra engatar uma conversa em volta da banca de mangas, na seção de vinhos e até no corredor de amaciante e sabão em pó. Não são recomendadas as áreas próximas à peixaria – o moço sempre pode achar que o cheiro é seu.

E não procure um corredor “amor”. Você não vai achar. Camisinhas e lubrificantes, por sua vez, ficam logo ali, perto dos cotonetes. Esqueça que é sábado à noite e vá ao mercado.

ilustração: Chantal Wagner Kornin

{ Gangue }

Texto originalmente publicado em 30/05/2008, quando este blog era hospedado no Portal RPC.

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Um desses dias normais. Uma manhã cinzenta, típica de Curitiba. Mas não se anime: eles também não se intimidam com o sol.

Eles são violentos. Eles não têm piedade. Mesmo que você esteja preparado pro ataque e tente fugir, eles te alcançam. Quando consegue se dar conta, já está em poder deles. Sequestrado. Amarrado. Amordaçado.

“Nada de mau vai acontecer se você ficar quietinha”. Mando uma mensagem de socorro pelo celular. Nada. Ou eu não tenho crédito ou ninguém está preocupado comigo. Talvez já tenham pedido o resgate e os meus entes queridos estejam proibidos de fazer contato.

Começo a perceber que preciso de um plano. Eu que não vou ficar aqui sabe Deus até quando! Inicio uma análise de possíveis saídas e afins. Digo que preciso fazer xixi, assim posso observar melhor o ambiente. Um deles me acompanha – eu noto uma saída um pouco há frente. Ensaio uma corridinha estratégica quando eles parecem distraídos. É agora.

Cruzo o corredor triscando. Começa a perseguição. Eles atiram, e eu sinto que fui atingida. Olho pra trás e vejo os edredons em formação me atirando travesseiros e os lençóis logo ali no meu encalço.

Não tem escapatória. Eu volto pra cama pra dormir mais meia horinha.

É assim toda manhã. Os lençóis me amarrando na cama, os travesseiros ensaiando sufocamentos e os edredons na retaguarda. A gangue da cama quentinha ataca milhares de cidadãos todos os dias e ninguém faz nada. Cadê as autoridades? Cadê a polícia?

ilustração: Chantal Wagner Kornin

{ Tec tec tec tec }

Estava no fim da primeira frase quando percebeu uma migalhinha, ali do lado do a. Pegou a pontinha do lápis e cutucou embaixo da tecla.

Zzzwaas\\

Quebrou a ponta do lápis. Continuou a frase. Na primeira vírgula, encontrou o grafite. Ah, cretino, agora eu te pego.

., , lk,…

Não. Olhando com atenção, era possível observar toda uma comunidade de lixo vivendo no subsolo do teclado. A migalhinha era de bolacha de chocolate. Parece que era. Ali, encostadinha no a. Argh. Fazia uns três meses que estava de dieta, então essa migalha estava aí desde… Cutucou de novo.

zswaaz\\zax zzza\\zzzaazzzzzzzzzzza\aaasszzzszzsasasza\az\az\\zaa\saaaaaz\zsssssszzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzaaaaazzsfvszzzzzzzzzzzszszasaaaaaaaaaaaa

Teclado limpinho e nem mais uma letra digitada. Quem escrevia era a migalha de bolacha de chocolate embaixo do a.

“Busca aí seu nome no Google”. Um dos resultados era um link da NASA. Expliquei: um namorado, lá nos idos de 1998, descobriu que a nave Stardust ia levar um chip cheio de nomes pra ficar vagando no espaço. Lógica? Nenhuma. Mas, numa atitude mimosa de moço apaixonado, mandou meu nome e o dele.

Eu não tenho nada contra ex-namorados. Muito pelo contrário. Se você beijou o cidadão quase todos os dias, durante três anos, por que diabos ele não seria digno de um choppinho no final da tarde? “Porque ele era um cretino” – ok, eu nunca namorei essa espécime, é fato.

Não tenho contato com todos. Alguns, decerto, acham que eu sou uma cretina (mas eu não sou, sou uma gracinha). Conversamos, prestamos assessoria sentimental e damos risada. Não tenho problemas em conviver com pessoas com quem eu já me enrosquei. Eu me afasto, se assim for de sua vontade, mas gosto de pensar que só beijo gente legal que eu quero por perto.

O marido não reclama. No mesmo final de semana que ele soube da história do meu nome no site da NASA, me contou que a ex-namorada foi pedir indicações de pretendentes na faixa de 30 anos, porque o mercado tá difícil. Como não rir, bem?

Ex-namorado é pra isso. E eu acho bem divertido.

Não suportava os pêlos. Tão mais bonitos os moços lisinhos, aquela coisa higiênica e bem asseada. Até conhecer uns três ou quatro caras que mudaram tudo.

O primeiro foi falta de alternativa mesmo. Quando ameaçou acarinhar a nuca do gajo, encontrou aquele tufinho saindo pela gola da camiseta. Pedindo por ar, por expressão. Queriam ser amados, queriam ser livres! Ai ai. Não sendo de bom tom sair gritando “pêlos, pêlos, pêlos!” depois de beijar o moço, lá permaneceu. E nunca reclamou.

Os seguintes vieram com menos desespero, afinal, quem já tirou um pêlo da boca pode tirar dois, três… e, se quer saber, esse negócio de asseio a gente deixa pra entrevista de trabalho. Sexo é que nem comida chinesa: só é bom quando é sujo (Pedro Juan Gutierrez pode te dar uma aula, se você deixar).

Mas era muita coincidência os moços peludos serem justamente os de melhor recordação. Ou castigo divino por todas as piadinhas cabeludas. Teorizou: a testosterona responsável por tanto pêlo devia também ser responsável por tanto amor – estudo posteriormente divulgado entre as colegas como “homens peludos pegam melhor”.

Empirismo é isso. Como toda boa estudiosa, notou no mercado grande quantidade de moços peludos também carecas. Confirmando que, sim, pode ser dos carecas que elas gostam mais (e eles ainda têm menos chance de ter câncer de próstata).

Podemos resumir esse estudo de caso:

Homens peludos têm mais testosterona, por isso pegam melhor.
Homens peludos geralmente são (ou acabam sendo) carecas.
O que significa dizer que homem careca é peludo e bom de cama.

Esqueça o peladinho e e dê uma chance ao moço-cobertor do seu lado.

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Mas… e os índios?
Diz aí, você já viu índio com bigode? Com barba? Peludo? E índio careca, existe? Coitadas das índias…

ilustração: Chantal Wagner Kornin

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A partir de hoje, alguns posts podem dar a sorte de ser lindamente ilustrados pela Chan. A surpresa era essa. :D

{ Sua majestade }

Ele é rei. Sempre disse, continuo dizendo. Robertão é rei. Se você duvida de um homem que canta “vou me agarrar aos seus cabelos pra não cair do seu galope” para milhares de velhinhas sexagenárias sem corar as bochechinhas, você é um herege. Merece ser queimado em praça pública.

Se ele não tivesse cantado “sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo”, eu nunca teria percebido. Era isso mesmo.

Eu já terminei namoro cantando Roberto Carlos. “Chegou a hora, tem que ser agora e com você não posso mais ficar”. Porque eu queria que minha vida fosse um musical, então eu canto nos momentos importantes. Não em todos (né?), porque estamos aqui tentando viver dignamente. Mas “Detalhes” nunca é demais.

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Ah, sim! O próximo post vem com surpresa.