abril 2010

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{ Três letras }

Não dá pra tratar todos os meandros de um único assunto num post só. Eu queria dizer que você, amiga dona de casa, não está só: cada vez eu conheço mais meninas que são estudadas e agora vivem desse cotidiano doméstico. Também queria dizer que tenho paúra de responder o que eu faço da vida. E que criei várias respostas pra ver se o medo passa, mas parece que eu estou mentindo pra imigração americana e vou ser presa e deportada a qualquer momento. Enquanto isso, chove e o clima está extremamente apropriado pra ficar em casa, só que a culpa cristã me consome por estar aqui vendo TV e fazendo as unhas. E eu sei que realmente não é problema não trabalhar quando você pode ficar sem trabalhar, mas os neurônios não acostumaram ainda com esse negócio de fazer só coisas que eu gosto.

Eu queria dizer isso tudo de um modo decente e menos desconexo, mas eu tenho medo de puxar esse fio enrolado e descobrir que ele não é preso a lugar algum.

{ Quanto custa? }

A moça que trabalhava na casa da minha mãe apanhava do marido. Ele bebia e descia-lhe o braço. Um dia, ela chegou dizendo que o companheiro ameaçou mandar matá-la. E eu lá, cabecinha classe média, pensando que ele podia até querer – ele não tinha nem dinheiro pra isso.

“Ah, Letícia, lá na minha rua a gente dá 50 reais prum bêbado, ele taca álcool e risca um fósforo em quem você mandar. É zás trás pra morrer queimada.”

Assustei. Por que é que ela não se mudava de lá e ia fazer a vida em outro lugar? “E a minha casinha? Eu que comprei, não vou deixar pra ele.”

São essas coisas que fazem você perceber que tudo tem preço. E não muito alto. Quanto custa a sua vida? Quanto custa tudo em que você acredita?

Um exemplo menos dramático: TV a cabo pirateada. Você acha um bacana que vende um decodificador liberadinho e economiza umas boas pratas no fim do mês com toda a programação liberada e pagando só o mínimo.

“Mas essa é uma empresa rica, não vai fazer diferença”.

Então, decerto, você entra no Pão de Açúcar e rouba lá uma garrafa de vinho ou duas, porque o Abílio Diniz é milionário mesmo e não vai fazer diferença… Não! Pronto, você vendendo a sua honestidade por 200 reais mensais.

E molhar a mão de guarda de trânsito? Se ele aceita, a polícia é corrupta. Se ele não aceita, é um babaca que quer ferrar com você quando podia se dar bem. Um camarada bem disse no final de semana: talvez seja hora da gente se educar e parar de dirigir depois de beber. Talvez já tenha passado da hora.

Talvez seja preciso pensar mais nas coisas que a gente faz todo dia.

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E a internet? E baixar sua série favorita? E o último disco da sua banda preferida? E o texto copiado do blog? E a propriedade intelectual? Isso tudo fica pra próxima.

{ Um recado }

Eu sei que você vem aqui e lê o que interessa. Eu venho aqui e escrevo o que eu quero.

Mas, note, não é porque interessa a mim e a você que esse texto é nosso. E eu podia me sentir bastante envaidecida por você copiar meus textos, mudar lá umas palavrinhas e assumir a autoria. Mas não. Porque antes de me sentir orgulhosa, eu me sinto ofendida. E você é jornalista, moça. Você devia saber escrever.

E supondo que não saiba escrever, devia ter aprendido que copiar textos dos outros não é só “feio, feio, feio!” como diriam as mamães. Copiar textos dos outros não é nada ético – pra não ter que dizer que é crime.

Ademais, estarei aqui escrevendo pra quando quiser ler.

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Se eu mudasse de sexo, ia chamar Jorge. Jorjão. Ia ser muito macha e dar porrada em todo mundo.

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E sei que pra algumas pessoas nada disso interessa (e eu não ligo, desde que vocês cliquem nos anúncios antes de sair).

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Update: a moça me ligou e me pediu desculpas. Então, o nome dela sai daqui e vai ser editado nos comentários, ok? Porque todo mundo tem o direito de tentar corrigir o que fez.

{ Pensando bem… }

Tem problema ter quase 30 anos e não saber o que quer ser quando crescer?

Tem dias que eu acordo achando que devia fazer alguma coisa pro mundo ser melhor. Esse é o dilema das quintas e sextas – são dois dias seguidos pra consciência pesar mais. E me dói ver que eu fico em casa olhando pra fora sem me mexer. Eu devia me lixar pro dinheiro e agregar valor no mundo, ser útil pra alguém que realmente tenha um problema – como, por exemplo, alimentar 5 filhos com um salário mínimo.

Mas segundas e quartas eu saio da cama pensando que eu devia ter um emprego – qualquer um – que pagasse um salário no final do mês. Porque ter dinheiro é importante, permite comprar coisas, faz a gente feliz e, no fim das contas, é o que todo mundo espera de pessoas crescidas com quase 30 anos. Mesmo que a gente seja infeliz o resto do mês todos pra ser feliz só no dia do pagamento.

Os dias mais bacanas são terças e sábados, quando eu acho que posso fazer fortuna escrevendo, que é uma coisa que eu realmente gosto de fazer. Nesses dias, eu acordo com um otimismo incurável e um bom humor irritante, acreditando que o que importa mesmo é o que te faz feliz – e, sim, você será (muito bem) reconhecido financeiramente por isso.

E aos domingos… depende. Em alguns eu decido virar vendedora de brigadeiro, em outros eu resolvo fazer curso de corte e costura. Às vezes eu penso em ser cabeleireira, em ter uma empresa de convites e, eventualmente, penso em me associar ao tráfico – de alfajores, de tequilas ou de loiras pernudas. Por que se eu posso fazer fortuna escrevendo, por que não faria fortuna trazendo loiras do leste europeu pra revender no Brasil?

E quase todos os dias, assim como @danibaum, eu queria ser pianista.

O jerico é um animal – é um burro, um asno.

Posta essa pequena introdução, vamos ao que interessa. Um grande questionamento filosófico me atormenta nesta tarde: por que diabos alguém decide substituir o leite condensado do brigadeiro por batata doce?

A pessoa podia estar dormindo, podia estar lendo um livro. Mas não, acorda e decide trocar o leite condensado da receita por batata doce.

Alguém pode alegar que tal brilhante invenção culinária permite ao coitado do intolerante à lactose comer brigadeiro. Não, amor. Isso só permite ao cidadão que não ingere lácteos comer uma porcaria duma gosma feita de batata doce. E você dá a isso o nome que quiser, mas nem em mil anos isso é brigadeiro. Assim como também não existe pão de queijo sem queijo ou quibe sem carne.

É simples!

Mas aí vem o Jornal Hoje e diz que é tudamemacoisa. Não, Sandra Annenberg. Se eu não tenho leite condensado, eu não tenho brigadeiro.

Porque se eu assumo que dá pra fazer um prato sem um ingrediente primordial, eu posso começar a acreditar que dá pra ter, por exemplo, um casamento sem sexo. E casamento sem sexo, coração, é só um erro geográfico – vocês deviam ser vizinhos mas, por algum motivo, tão dividindo o mesmo metro quadrado.

Puta idéia de jerico.

{ Levou, levou }

Todas as fotos de infância. De quando você era bebezinho, gorducho e rosadinho. O vestido de casamento da sua mãe. A aliança da sua vó, já falecida. As cartas dos ex-namorados. Os livros com dedicatórias. Todos os arquivos do seu computador. Todos os seus backups.

As revistas não lidas. Os diários e as agendas. Sua coleção de selos, abandonada e bagunçada há 10 anos. Aquele porta-caneta horroroso em forma de coqueiro, comprado em Porto de Galinhas. Suas plantas.

As discussões sobre que curso fazer na faculdade. As prestações atrasadas do carro. Os abraços e os beijinhos. Aquilo tudo que você só vai notar que sumiu quando precisar. E aquilo tudo que vai fazer falta a cada segundo.

Seu bicho de estimação. O vizinho que falava muito quando o que você queria mesmo era ir pra casa. Os amigos. A família.

A chuva levou…

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Espero que haja mais força que sofrimento.

{ Habitualmente }

Chegou e ligou a tevê. O emprego, o pior entre todos de todo o universo, começa a ser razoável. Não, nenhuma promoção, nenhum colega novo bacana. Só não é mais aquele martírio. Deu aquela descansadinha assistindo a uns seriados, porque jornal só tem mesmo notícia ruim.

Cozinhou um risoto, bastante queijo e bastante manteiga. Vinhozinho pra acompanhar. Nada de dieta hoje, porque que se dane se você não se parece com a vizinha gostosa que faz o namorado babar. Lavou a louça. Não que ele não seja um bom namorado. Ele só não consegue provar isso às vezes. É, várias vezes. Mas é só uma fase difícil. Ligou pra ele. Eu também te amo.

Tomou um banho e não prestou muita atenção no corpo, porque, oras, pra que corpo quando se tem cérebro. O que importa é o que está dentro. Deitou na cama e pensou como foi bom não ter se demitido. Agora está lá, segura, quentinha, com um salário no fim do mês. E dormiu.

Os dias têm sido bons.

Começou a TPM e amaldiçoou o trabalho enfadonho, o namorado imprestável e a forma física arredondada. Comeu uns chocolates e disse ser tudo culpa dos hormônios. Já passa.

Os dias têm sido bons. Mas é tudo costume.