março 2008

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{ Nonsense }

O senhorzinho que cuidava do meu carro me deu um chocolate.

Simples assim. Eu estacionei na rua e, quando voltei, fui lá entregar umas moedinhas. E ele me deu um chocolate. Desacostumada que estou com a gentileza no dia-a-dia (especialmente por parte de desconhecidos), matutei ligeira: alguma coisa aconteceu e ele quer me distrair.

Nada. Tudo certo. Consciência pesada por não acreditar num gesto tão mimoso assim, em plena Sete de Setembro.

E eu vim dirigindo sorrindo, meio sem saber porquê. Preciso parar de querer entender as coisas e as pessoas. Elas sempre vão me surpreender. Como o meu vizinho, com lar quentinho, jantar, carro e família, que simplesmente ignorou meu boa noite.

A noção do mundo morreu afogada no dilúvio, só pode.

Brigada, tio!

{ Três sílabas }

Tudo que eu disser vai parecer drama. E não é, ainda que pareça.

Ele chegou num sábado, sorrindo pra mim enquanto eu descia as escadas. Era diferente do que eu esperava. Não sei dizer como, mas era. Talvez mais vivo, talvez mais doce. E, sem dúvida, bem mais quieto.

Mas não foi naquela noite que ele me conquistou. Nem na seguinte. Mas uma semana depois, enquanto eu amaldiçoava a resistência do chuveiro e lembrava dele dizendo “deixa eu cuidar de você?”. Ele me entendeu muito rápido. Percebeu muito cedo que eu não faço sentido.

Eu fiquei no colo dele algum tempo, o suficiente pra me sentir aconchegada durante uma vida inteira. Ele diz que nunca mais eu fui tão frágil. Talvez ele nunca mais tenha percebido, não sei avaliar. Porque eu sei ser forte e consigo fingir ser forte, e ninguém acredita quando eu caio.

Ele se ofereceu pra fazer o que há muito tempo ninguém faz: cuidar de mim. As pessoas sabem que eu sou forte. Sabem que eu não preciso de ninguém. Ninguém quer a árdua tarefa de cuidar de alguém que não precisa ser cuidado. Ele entendeu. Não sei como, mas entendeu. Ou eu achei que tinha.

E quando ele me olhava, era como se eu sorrisse. Eram dois olhos verdes me olhando – e depois brigando comigo porque eu não falava, justo eu – e ele não era capaz de entender que aquilo me desconcertava. Do mesmo modo que eu não consigo entender, mas ele achava que eu o intimidava. Coisa demais junto. Acabávamos os dois olhando um pro outro. E, mesmo que eu sorrisse, nem sempre existia um sorriso de volta. Eu devia saber.

Sempre gostei dos braços. Fortes. Era tudo o que eu precisava, alguém capaz de me segurar. De amparar tudo o que eu sinto, mesmo que ele não saiba o que é tudo. Talvez nunca tenha sabido. E gostava de despentear o cabelo dele, só porque ele é sempre tão arrumadinho. E de rir quando ele ficava sério e brabo. Ele nunca me entendeu, eu penso agora. Ou resolveu misturar tudo. Não sei. Eu nunca soube nada sobre ele. Ele sempre foi muita imaginação. Talvez muito sonho. Precisava haver alguma coisa errada.

Em algum momento, alguma coisa que eu não sei o que é aconteceu. E eu vejo agora que eu não sei de mais coisas do que eu imaginava. Ele deve estar certo e eu realmente não sei de nada. Ele cozinhou pra mim. Riu comigo. Eu juro que fiz o que pude, mas eu não sei conviver com esse silêncio todo. Eu não sei falar sobre o que faz ciranda na minha cabeça e não ouvir nada de volta.

Em vários aspectos, ele era diferente do que eu considero homem ideal. E encaixava perfeitamente em outros. Somos tão diferentes… tão diferentes que seria difícil imaginar que nós dois estivéssemos juntos.

Vai ver é por isso que não estamos.

Update:

Gracias a Maga e Lu, pela super revisão que eu fui incapaz de fazer.

Não que eu não queira….

{ Promessa é dívida }

Eu prometi. E apesar de bem atrasada, algumas pessoas merecem as promessas que eu faço. Ela, com certeza, é uma dessas.

Ela é a minha companheira de viagens. E esse devia ser um post sobre o Ano Novo no Rio. E vai virar tudo, menos isso. E ela vai brigar comigo, mas eu nem ligo.

Nossa especialidade é fazer coisas sem programação nenhuma, com pouco dinheiro.

(Porque a gente ainda acredita no dia em que vai ser rica e milionária e vai poder fazer as coisas na louca e com muito dinheiro.)

E assim foi, pra não fugir do que sempre é.

Acordar cedo, ônibus, aeroporto. Táxi, apartamento/escritório dum amigo nosso. E vai ser o máximo da ordem cronológica que eu serei capaz de contar.

O calor de sempre, mas agora a gente até consegue comer. No show dos Stones, primeira ida ao Rio com ela, o básico da alimentação foi sorvete do McDonalds. Isso, claro, na época que eu comia McDonalds, tomava Coca-Cola e usava tênis Nike, mas isso não tem nada a ver com a história. E garanto que se ela estivesse aqui, ela gritaria “eu não alimento a indústria da miséria!”, mesmo que ela alimente. Mas é só pra me aporrinhar, que é a função principal dela.

Você sabe que tudo vai dar certo quando sai na rua com uma pessoa vestida como a Regina Casé. E com bandana colorida no cabelo, uma coisa meio anos 80, meio Axl Rose. Não, ela não sai assim; eu saio. E ela vem comigo! Uma tarde com coelhinhos de animação encenando filmes em 30 segundos. E isso lá é coisa de se fazer no Rio? É. Eu já não aguentava mais, porque os coelhinhos insistiam em gritar a cada dois segundos. Isso tudo com pessoas ótimas, amigos do namorado dela – que na verdade é meu primo, mas que eu nunca conheceria se não fosse por ela (as pessoas, não o meu primo).

Pessoas ótimas são a especialidade dela. Assim como malucos são a minha. Uma questão de identificação, creio eu.

Samba. Sério, que diabos sou eu num samba? Quem me conhece sabe que eu nasci com dois pés esquerdos. Ela é polaca! Rá, quer enganar quem? E a gente samba que nem curitibano, mesmo que eu nem seja uma. Pelo menos eu sei a letra de vários sambas, porque eu tenho uma parte dos meus genes lá na senzala; uma pena que não é a que comanda os meus pés. Whatever. Tudo isso virou nada depois de aquelas pessoas ótimas de dois parágrafos acima resolverem fazer a “dança da galinha turbo” ou similar no meio do samba. Eu ainda sou pára-raio de lóque, você não ia achar que as pessoas ótimas eram normais…

Noite de ano novo, a gente racha um acarajé em Copacabana pouco antes da meia-noite – sobrevivendo a isso, qualquer coisa em 2008 ia ser fichinha. Praia, areia, fogos. Ela é a primeira pessoa que eu abraço e encho de beijo, como devia ser toda virada de ano até o fim da vida – e eu sei que não vai ser assim pra sempre, mas devia.

Primeiro, porque ela aprendeu a beber comigo. E esse é o tipo de aprendizado que não se tem com qualquer um, e é uma dívida que não se paga nunca. Segundo, porque eu reaprendi a levar as coisas de maneira mais calma com ela, mesmo que ela seja a pessoa mais agitada que eu conheça. Bolachinhas enquanto leio. Aprendi a comer lendo com ela, e agora meus livros vivem cheios de migalhas. Meu nutrólogo não agradece, mas eu sim.

Botecos. Metrô para moças, com visões loiras e lindas de um estrangeiro no vagão exclusivo de mulheres. Aaaaaaah, se todos fossem como ele, eu nunca pegaria um vagão exclusivo pra mulheres. E a gente chega no Pão de Açúcar, que é o lugar no mundo que mais combina com ela. É glicose, é lindo, é de rir à toa. E rir à toa é o que a gente mais faz, mesmo que eles não vendam Frutare com ipod (nem sem) na banquinha. A gente ri passando calor, ri com sede, ri bêbada, ri sóbria, ri queimando o couro cabeludo na fila, ri falando com alemães malucos atrás da gente, ri tirando fotos anos 70, ri quando vê que o dinheiro tá acabando, ri quando pega o ônibus errado, ri quando chega na praia e o sol tá encoberto. Ri comendo biscoitos Globo no Leblon ou bolinhos de bacalhau no Bar Luis, que eu nunca sei se é com “s” ou com “z”. Ri mandando mensagens pro analista – que é o mesmo das duas.

E, sem parar de rir, a gente vai à praia, toma um torrão, vai ao Cristo, toma outro torrão, chega atrasada. Fica magenta depois do banho, come muffins no aeroporto e vai sentindo dor por todo o vôo até Curitiba, com as tias da Gol sem servir suquinho por causa de uma turbulenciazinha jaguara.

É impossível, hoje, imaginar minha vida sem ela. É minha filha, e às vezes eu tenho medo de ter filhas de verdade que nem se aproximem do que eu tenho com ela.

Todos os tomates do mundo são pra ela.

A gente ri até quando chora…

Eu não sei o que eu estou fazendo acordada a essa hora. Não é tarde e não é cedo. E eu cogitei voltar a dormir.

Mas ele vem, me pega pelo braço e me traz até aqui. Pra não fazer nada, ficar aqui e esperar por ele, que é só o que eu tenho feito desde que eu conheci – mesmo que eu finja que não. Os dias de janeiro têm sido muito cinzas. E sempre me trazem o calor dele, com todas as cores. Cores demais, às vezes. Culpa demais. Sorrisos o tempo todo.

Mesmo que eu trema do pé à cabeça ao lado dele. E que eu não saiba muito bem o que fazer – ou saiba tão perfeitamente que qualquer outra atitude pareça completamente sem sentido. Eu fico parada olhando, pensando em tudo. Pela janela, a razão acena ao escorregar pra dentro dos bueiros, junto com aquela água toda. Se despedindo. Ele me traz aqui só pra lembrar dele. Pra sair da caixinha onde ele dorme quando eu tenho paz.

E quem diabos quer paz? Eu quero a pele, os dedos, os cabelos. O cheiro e o gosto. Às favas esse negócio de serenidade.

Chuva e garoa, por dias inteiros. Eu penso em comprar galochas. Pela primeira vez em muito tempo, eu não tenho nada a perder – a não ser meu tempo. E eu já gasto meu tempo cinza em coisas que valem tão menos a pena. Quando até a gata resolve me atacar, mais arranhões parecem fazer todo o sentido. Talvez você não entenda. Talvez goste da sua vida comum, com dias comuns, cheios de calma e sossego. Eu sou contra o sossego. O meu e o seu.

Porque se é pra chover, então eu quero estar ali fora e pegar a chuva toda. E que se dane o resto todo.

{ Vida fitness }

Deu de correr. É assim agora: acorda, toma café e vai. Os joelhos, sempre podres, tendem a piorar. Ela não liga, corre.

Começou pra provar que podia. Mais uma das tantas coisas que a teimosia a levou a fazer. Queria mostrar pra ela que era capaz. Dar um passo adiante. Dar vários passos. Rápidos. Cada batida do calcanhar no asfalto era um sofrimento e um alívio. Os joelhos ardiam, a respiração ofegava. Mas continuava, porque tem gente que prefere chamar teimosia de perseverança.

E era assim que os dias começavam: com dor. Não seria diferente de alguns outros dias, quando não saía da cama. Chegava em casa destruída, encharcada e sorrindo. Superar os próprios limites faziam dela alguém que podia tudo. Como se tudo sempre dependesse só dela, o tempo todo. E, por ser teimosa, queria ser capaz de fazer tudo sozinha.

Então corria. Pra escapar do que não dependia dela. E a corrida virou uma fuga desesperada, pra não pensar nos mortos-vivos que acham que a vida dela é cemitério de filme B. No que atordoa quando ela tem que responder se está tudo bem. Está tudo bem demais, e isso assusta. Talvez fosse mais tranquilo quando a desgraça estava feita.

As árvores, as pessoas. As casas. A velhinha sentada na varanda. O cara consertando o carro. Com o tempo, decidiram se mover e correr, enquanto ela ficava parada. As coisas passavam por ela, e, embora ainda ouvisse o barulho do pé no asfalto, estava parada – era a sensação que tinha quando calçava o tênis e saía. Ia flutuar e já voltava. Mesmo que às vezes doesse. Que o joelho insistisse em se fazer notar. Que a perna falhasse uma pisada de vez em quando.

Mas ninguém te julga quando você é uma pessoa que flutua. E agora ela corre só pra sorrir depois.